O significado da expressão “aborto como questão de saúde pública”

October 6, 2010

Quando o governante (ou pretendente a tal) diz que “o aborto deve ser (ou será) tratado como “questão de saúde pública”, dá também a ver (implícita ou explicitamente) que “não é uma questão de foro íntimo”. O que significa tais expressões?

Digamos que uma mulher engravide e queira “tirar” o bebê. Nas primeiras semanas ela pode fazê-lo sozinha, usando droga abortiva (“droga” e não remédio, pois este, por definição, é usado para restabelecer ou manter a saúde). A partir 12 semanas (ou menos) ela só poderá abortar ajudada por alguém. Suponhamos aprovada a lei que tipifica o aborto não mais como crime, como faz a  nossa atual Constituição do país, mas o altere para a condição de “questão de saúde pública”, quando então passa a ser permitido “durante os 9 meses de gravidez”. A mulher grávida de 9 meses resolve, por qualquer motivo, “tirar” a criança. Certamente não poderá fazê-lo sozinha, mas necessariamente terá de ter ajuda, e ajuda especializada.

A “ajuda especializada” será o profissional qualificado na área de saúde, o médico e a enfermeira. Sendo “questão de saúde pública”, torna-se obrigação do SUS (Sistema Único de Saúde) atender a grávida de 9 meses que quer abortar. O médico e a enfermeira, funcionários do SUS ou prestadores de serviço, estarão obrigados, “durante seu horário de expediente”, a fornecerem a “ajuda especializada” oferecida pelo governo, a qual constitui um “direito do cidadão”, pois “se é direito do cidadão, é dever do Estado”. Caso o médico e a enfermeira se recusem a “trabalhar”, isto é, a abortar, ficarão sujeitos a penalidades previstas em lei, como a demissão por justa causa, ocorrência que passará a constar na “fé de ofício” de cada um.

A consciência ( o “foro íntimo”) dos tais funcionários, sob a lei que trata o aborto como questão de saúde pública, se torna legalmente ineficiente. Ela não poderá dirigir suas ações durante o horário de expediente. Por exemplo, suponha um bancário que trabalhe no “setor de cheque sem fundo”. Ele está obrigado a informar ao “Cadastro de Emitentes de Cheque Sem Fundo (CECSF)” os dados identificadores dos emitentes de tais cheques. Suponha que ele encontre entre tais cheques um cheque de sua mãe, seu pai, seu filho, sua mulher; numa palavra, cheque de alguém a quem ama mais do que a si mesmo. Ele é obrigado a informar os dados desta pessoa como o faria “sem objeção de consciência” caso fosse cheque do assassino daquela pessoa a quem amava mais do que a si mesmo. No caso de cheque de pessoa querida, o máximo que poderia fazer seria telefonar para ela informando o ocorrido e instruí-la como retirar o nome daquele cadastro. Mas uma coisa é líquida e certa: o funcionário estaria obrigado a informar ao CECSF a ocorrência, caso contrário arriscaria ser demitido por justa causa.

Suponhamos o caso de mulher grávida de 9 meses que não queira abortar. Como este não querer é “questão de foro íntimo”, ele não prevalecerá, não desencadeará efeitos concretos, igualzinho ocorreria com o proprietário de uma casa com piscina que se tornasse ninho de mosquitos Aede Aegypti, o mosquito da dengue. Não obstante conserve as prerrogativas inerentes a seu garantido direito constitucional à propriedade privada, isto não seria suficiente para impedir o poder público de entrar em sua casa e dedetizar o local. Pois o bem da coletividade importa mais para o poder público do que o bem de um só nas questões relativas à “saúde pública”. Do mesmo modo, a “objeção de consciência” ao aborto, outro nome que se dá à “questão de foro íntimo” é impotente face à decisão do poder público que determine que o aborto seja feito. Mesmo não querendo, a grávida de 9 meses terá então de abortar, uma vez que o “poder público” entenda que ela deve fazê-lo.

Portanto, o aborto “como questão de saúde pública” significa a concessão de poder ao Estado para controlar a quantidade de nascimentos. Quem se oponha a este controle, estará agindo contra a lei e, portanto, sujeito às punições previstas em lei.

Joel Nunes dos Santos é psicólogo e professor universitário e autor do livro “Vocação” (www.clubedeautores.com.br/book/16558–Vocacao).

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REFLEXÕES ÉTICAS

October 4, 2010

Ética é a “ciência dos costumes”. A matéria de seu conhecimento é “as paixões e ações humanas” tomadas sob a perspectiva do bem e do mal.

Por que expressões como “ser ético”, “ética na política” e outras semelhantes soam aos nossos ouvidos como hipocrisias? Talvez isto aconteça por causa de uma sutil diferença que há no nome mesmo desta ciência: ética é o nome derivado do grego “ethos” e corresponde a moral, nome derivado do latim “mores”. Os gregos demonstraram ser de índole contemplativa, abstratista; os latinos, de índole prática, administrativa. As repercussões psicológicas de um ou outro nome, grego ou latino, acompanham as características daquelas índoles. Ao dizer “ética”, tem-se a impressão de algo que está na mente, porém fora da vida cotidiana; ao dizer “moral”, a impressão é a de algo presente no dia-a-dia e carente de maior universalidade.

Além disso, os centros culturais e educacionais contemporâneos preferiram conservar o conhecimento desta ciência a partir de sua raiz grega (“ética”), enquanto que os religiosos optaram pela raiz romana (“moral”). E nem é preciso mencionar a força da ojeriza que atualmente o nome “religião” desperta em grande número de pessoas. Sendo a moral “coisa de religiosos”, ela não possui valor científico e, portanto, deve ser rejeitada, raciocinam os contemporâneos.

É sabido que no intelecto é possível a coexistência de coisas que se opõem na vida prática. Por exemplo, o intelecto não possui sexo; no intelecto o certo e o errado convivem, assim como a verdade e o erro. No plano da ação, das coisas concretas, as coisas se dão de maneira diferente: é um sexo ou outro; acerta-se ou erra-se; é-se verdadeiro ou falso. O intelecto possui flexibilidade incompatível com as ações humanas, justamente porque ele lida com abstrações, enquanto que as ações estão amarradas nas coisas concretas e particulares.

Os nomes reproduzem a distinção entre o abstrato e o concreto: o nome “ética” remete ao intelecto; o nome “moral”, aos costumes. A ética admite considerar as coisas pela essência (que corresponde ao conceito da coisa, à realidade da coisa que existe somente na mente e não fora dela), enquanto a moral as trata vinculadas ao mundo real e concreto das ações particulares. Aceitar algo por ser ético não é a mesma coisa que aceitá-lo por ser moral. As ressonâncias psicológicas de uma coisa e outra são diferentes.

E onde entra a virtude nessa história? Ela se situa justamente entre a essência e as ações; fica a meio caminho dos dois. Ela é a força interior resultante do regramento das paixões e ações humanas, regramento este que só a educação pode proporcionar. Educação ética, ou melhor, educação moral. Esta “vem de berço”; aquela, “da escola e da sociedade”.

04/10/2010

A vocação é dom de Deus

December 27, 2009

A vocação é dom de Deus; o talento, o hábito resultante da aplicação persistente da inteligência (e da aptidão física) à solução de determinada dificuldade, a qual pode ser de natureza filosófica, estética, científica, altruísta, etc.

A melhor e mais permanente fonte do talento é sem dúvida alguma a vocação, pois é possível desenvolver talentos pouco tenha a ver com a própria vocação, uma vez que para tanto é necessário apenas possuir vontade suficientemente determinada.

O talento que não resulta da vocação, mas da capacidade humana para tudo conhecer, é aquele do qual o sujeito abre mão assim que pode. Por exemplo, necessitado de comida, de cuidados médicos, de segurança material, a pessoa pode aceitar um trabalho que lhe exija energias que melhor estariam aplicadas ao que ama espontaneamente, isto é, ao que lhe é vocacional. Por mais talentoso que se torne naquele trabalho, que desempenha apenas por ser um ser humano e dotado de inteligência capaz de tudo aprender, dificilmente se sentirá feliz – e o sentido que conseguirá enxergar em seu trabalho será somente este, “ele é que fornece o sustentáculo material da minha vida”. Em razão disso, a cada dia de trabalho, ficará sonhando com a aposentadoria, quando não mais precisará trabalhar para sustentar-se materialmente.

Por ser dom de Deus, a vocação é o instrumento eficaz para crescer no amor de Deus e, em resultado, no amor ao próximo.

27 dez. 2009

Seqüestro e desvio vocacional

April 26, 2007

Em Campinas, desde aproximadamente o meio-dia do dia 24 de abril, um seqüestrador mantém como reféns uma mulher e seus dois filhos. A casa onde se encontra está cercada de policiais, que não têm a alternativa de invadi-la e nem de alvejar o bandido através de seus atiradores de elite.

Mesmo compadecido da mais que terrível situação da mãe e das crianças – em qualquer deles que pense e meu coração se enche de tristeza, pois não vejo onde colocar o termo “principalmente” para definir se a situação é pior para a mãe ou suas crianças – não foi possível deixar de considerar que o episódio manifesta com força enorme o triste resultado a que pode levar o desvio vocacional. Pois vocação é termo positivo; usá-lo e referir-se somente às positividades do sujeito.

O seqüestrador até agora deu mostras de estar no domínio da situação – pois agora são 12:45h do dia 26 e ele continua negociando sua escapada.

Imaginando-me (e à quase totalidade das pessoas que conheço) no seu lugar, por certo que já teria desistido da empreitada há muito tempo. Pois para sustentar situação assim é necessário possuir uma capacidade enorme de autocontrole ou, no jargão moderno, uma poderosa “inteligência emocional”, o hábito de controle das reações musculares e nervosas.

E se ele fosse um policial? Um investidor em bolsa-de valores? Um bombeiro? Um agente para situações de risco? Um médico cirurgião? Mas ele não é nada disso. Ele é apenas um perigosíssimo e experimentado bandido, sujeito que se desviou de sua vocação e orientou-se para o mal. É um claro e lamentável exemplo de desvio vocacional.

Joel, 26/4/2007

Pessoas bem-sucedidas

September 7, 2006

Aproveito a ocasião em que analisei algumas respostas ao questionário vocacional que desenvolvi, denominado Da vocação à profissão, para basear algumas considerações a respeito do tema “êxito na família”.

A finalidade do citado questionário é ajudar o participante na escolha de profissão que combine com sua vocação. Para tanto, depois de muito refletir sobre esta tarefa, conclui que três questões seriam suficientes para dar-lhe boa base. As questões podem ser assim resumidas: 1) como você se imagina capaz de ganhar dinheiro;  2) quem é a pessoa bem-sucedida em sua família; 3) que profissão pensa seguir.

A objetividade da análise-resposta varia com a riqueza das informações prestadas. O que não foi o caso das respostas de Rita, atualmente com 20 anos. À primeira questão (como ganharia dinheiro) respondeu “trabalhando”; à segunda (quem é o bem-sucedido em sua família), “ninguém” e à terceira (que profissão pretende), “não sei”.

Baseado nessas respostas, elaborei a análise que abaixo lhe dou a conhecer, leitor. Nela há o essencial do que importa saber sobre o sucesso na vida do homem. A diferença entre este artigo e a resposta que enviei para Rita é apenas de superfície: fiz as adaptações necessárias para que o escrito pudesse caber dentro do título “artigo”.

Prezada Rita,

baseado nas informações que você forneceu em suas respostas, é possível tirar algumas conclusões que poderão ser úteis a você na difícil tarefa de escolher uma profissão.

Em primeiro lugar, você manifesta uma mente sadia, na medida em que enxerga o trabalho como condição para ganhar dinheiro. Não é pequeno o número dos que têm pensamento diferente do seu, desejando possuir dinheiro e o que este compra sem se dispor a trabalhar para isso. Muitos preferem obter dinheiro roubando, enganando a quem possam,   deste modo se beneficiando dos resultados positivos e concretos do trabalho alheio. Vivem parasitariamente, beneficiando-se a si próprios e prejudicando seus “hospedeiros”.

Só por esta resposta é possível perceber que, ao contrário do que você respondeu na segunda questão – “NINGUEM” – , sobre quem é o mais bem-sucedido em sua família, há sim em sua família quem tenha tido êxito. Para admitir isso, basta considerar que o êxito possui diversos graus, não se restringe só ao ganho de quantidades enormes de dinheiro. Ainda que em sua família ninguém tenha conseguido ganhar muito dinheiro, a ponto de poder adquirir bens caríssimos ou contratar serviços igualmente caros (viajar para países estrangeiros, ir a hotéis caros, participar de eventos caros, ser atendido pelos mais diversos e caros especialistas, etc.), uma coisa não se discute: alguém em sua família conseguiu providenciar os meios necessários que lhe permitiram ser quem você é, não só em termos físicos e de aparência, como também intelectuais.  

Essa pessoa pôde providenciar-lhe alimentação  e vestuário adequados, boa escola, a um ponto tal que você hoje é capaz de acessar um serviço que presume refinada cultura. Não é qualquer pessoa que poderia acessar o site da UniverCidade, em seguida escolher a seção de seu interesse e, nela, procurar obter auxílio (sob a forma de idéias) capaz de provocar efeitos positivos e concretos em sua vida presente e futura – pois ter idéia a respeito de que profissão lhe convém é aderir a uma idéia capaz de alterar materialmente sua vida. Para tudo isso fazer é necessário que alguém a tenha cumulado de atenção traduzida não por abraços e beijos mas também pela doação e viabilização desinteressada de bens e serviços necessários ao seu sadio desenvolvimento da personalidade. Sem essas contribuições, não seria muito possível dar-se mutações em sua inteligência que a tornariam capaz de raciocínios abstratos, capacidade o que você manifestamente possui. Caso não possuísse, não iria procurar um meio tão pouco físico como os conselhos de um orientador vocacional; conselho que, aceito, a faria direcionar suas ações e escolhas numa certa direção, para obter resultados que só se mostrariam passados vários anos. E já vimos que a resposta que você deu à primeira questão deixa claro que o desenvolvimento de sua personalidade e inteligência foi sadio e bom. Portanto, há sim quem tenha sido bem-sucedido em sua família – a pessoa que cuidou e educou você.

Para compreender o valor do êxito obtido por quem cuidou de você, providenciando-lhe alimentação, carinho, aconchego, apoio, vestuário, moradia, estudo, etc., é só imaginar o quanto você mesma poderia fazer por alguma criança que estivesse sob sua responsabilidade. Como conseguiria providenciar-lhe bens e serviços capazes de torná-la tão refinada aos 20 anos quanto você o é nesta idade? É tarefa muito difícil, impossível a quem não tenha tido êxito na vida.

Pode dar-se em sua vida que a pessoa que providenciou as condições materiais para você ser quem e como é, tenha sido sua mãe. Vou supor que tenha sido ela e que ela seja “do lar”, já que esta denominação gera na mente de muitos a impressão de que se trata de adulto não qualificado para um trabalho realmente “sério” e profissional. Porque enganosamente  alguns acreditam que ser “do lar” é mais fácil do que ser um psicólogo, um contador, um advogado, etc.

Não coincide com os fatos da vida a crença de que é mais fácil ser “do lar” do que ser um profissional fora de casa. Porque todas as profissões, a psicologia, a contadoria, a advocacia, etc., são instrumentos que o homem criou para aperfeiçoamento do próprio homem, tanto quanto uma mulher “do lar” trabalha pelo aperfeiçoamento dos que tenha sob seus cuidados. É evidente que uma mulher “do lar” (como estou supondo ser o caso de sua mãe) conseguiu, com seu trabalho, fazer surgir alguém como você, sadia, que pensa resolver os problemas materiais da vida trabalhando. Será que se pode supor que os filhos ou clientes dos psicólogos, contadores, advogados, etc., todos eles, desenvolvem personalidade e inteligência igualmente sadias? Caso assim fosse, não seríamos bombardeados todo dia, pelos jornais, com notícias de crimes e escândalos de todo tipo, provocados pelos mais diversos e cultos profissionais ou por seus filhos ou clientes. A verdade é que o êxito e o fracasso se dão em todo tipo de vida, familiar, social, profissional…

Ser “bem-sucedido” significa que a pessoa foi e é capaz de não apenas cuidar bem de si mesma como também dos que estejam  sob sua responsabilidade. É pela quantidade de indivíduos “cuidados” que se mede o tamanho do êxito do profissional, da dona-de-casa e de todo e qualquer ser humano adulto. A escala que mede o valor do trabalho tem como medida a qualidade e quantidade com que contribui para o aperfeiçoamento do homem. De que adianta alguém ter muito dinheiro e, graças a isso, espalhar a desgraça na vida de muitos? No século XX tivemos vários exemplos de ditadores que só fizeram isso.  Só porque todos ficaram ricos, nem por isso se pode dizer que tenham sido modelos de pessoas bem-sucedidas na vida.

É fácil supor que o sujeito que ganhou ou ganha uma quantidade maior de dinheiro que os demais é o mais bem-sucedido. Porque quem possui muito dinheiro consegue desencadear efeitos visíveis e de fácil compreensão mesmo pelas pessoas mais simples e incultas: ele pode mandar construir edifícios, pode criar sofisticados meios de transportes e de comunicação, hipermercados,  utilidades essas que atendem às necessidades cotidianas e de longo prazo de milhares de pessoas. Já não é coisa tão simples e fácil enxergar o êxito dos que simplesmente, de maneira anônima, criaram e educaram alguém que, no futuro, venha a se tornar um grande profissional, ou uma “pessoa do bem”, que viva espalhando o bem na vida de muitos. Trabalhos que geram personalidades e inteligências deste tipo são anônimos, requerem muitos e muitos anos regados pelo amor e compaixão com o próximo,  o que descreve com muita propriedade o trabalho das pessoas “do lar”. Por exemplo, é possível perceber em suas respostas a presença de um espírito ativo, impaciente, ansioso por respostas. Dotada de um espírito assim, digamos que você venha a se destacar e muito na vida social e profissional. Quantos seriam capazes de ver, por trás do seu êxito, o trabalho anônimo e paciente da sua mãe (ou de quem cuidou de você)? A vida dos homens é semelhante às árvores: cada uma só dá os frutos que lhe são próprios.

Colocadas as coisas desta maneira, resta que você observe sua mãe (ou quem cuidou de você) e analise que capacidade ela possui a ponto de conseguir dar-lhe base intelectual e moral tão boas. Digamos que para isso sua mãe vendesse salgados: ou seriam salgados feitos por ela própria ou por terceiros. Se forem feitos por ela, imagine o que ela não faria caso tivesse feito faculdade de, digamos, Nutricionismo? Por certo que conseguiria tornar-se uma respeitada chef de cuisine. Mas o salgados eram produzidos por terceiros. Então sua mãe atuou como intermediária, como comerciante, como administradora, como empresária, etc..Que cultura seria capaz de potencializar profissionalmente sua competência: Comércio Exterior? Administração? Marketing?… Pois ela certamente mostrou-se capaz de “vender o peixe”, tanto que os transformou em dinheiro, com o qual pagou sua alimentação, remédios, roupas, moradia, escola, etc.. O estudo universitário não a modificaria, mas apenas lhe daria instrumentos capazes de amplificar sua força para pensar e agir, permitindo-lhe viabilizar recursos econômicos em muito maior quantidade, os quais alimentariam, vestiriam, educariam outros que não os filhos que tenha posto no mundo. 

Observando portanto sua mãe (ou quem cuidou você), é possível nela notar a presença de uma inteligência diferenciada, caso contrário não conseguiria converter “peixes” em dinheiro. E aí surge a pergunta: como você poderia, a seu próprio modo, imitá-la? Se você responder esta questão, estará definindo qual sua receita de êxito e, em resultado, que profissão combina com você.

Tenha em mente que toda e qualquer pessoa que queira agir concretamente sobre o mundo, no início age imitando alguém. Não há político que não viva tentando imitar alguém, seja  seu modelo um estadista ou um espertalhão, um parasita “bem-sucedido”. É regra que vale para todo ser humano, músicos, vendedores…até para os ladrões.

Portanto, Rita, saiba que você é quem é porque alguém em sua família teve êxito. Observe como esta pessoa trabalhava (e trabalha), que isto a ajudará a perceber novos e úteis dados que lhe permitirão para cada ítem do questionário dar respostas mais detalhadas. Eu teria enorme prazer em analisar suas novas respostas. Pois o que mais faz o gosto é ser útil a quem esteja ou possa estar no caminho de ser pessoa bem-sucedida.

Felicidades.

 

 

A violência em São Paulo

May 24, 2006

Nós, os paulistas, estivemos submetidos a um fortíssimo bombardeio psicológico (inúmeros atentados contra policiais, com uma certa preferência pelos que estivessem à paisana; incêndio de ônibus, atentados a bomba contra bancos, rebeliões simultâneas em mais de 70 presídios), empreendido pelo PCC (Primeiro Comando da Capital), facção criminosa filha do carioca Comando Vermelho. O clímax da ação criminosa, iniciada na sexta-feira dia 12, foi nesta segunda feira, dia 15 de maio, quando então São Paulo ficou literalmente paralisada, os funcionários de lojas e outros serviços voltando para casa antes das 16:00h. Isto é, os que conseguiram tomar ônibus, que neste dia pararam de circular. 

O objetivo da articulada e terrorista ação criminosa parecia ser intimidar não apenas a população em geral, mas principalmente os principais ocupantes do poder público, em particular o governador e chefes de polícia, em auxílio das quais veio o governo federal propondo enviar até o exército para combater os criminosos. Proposta rejeitada pelo governador em exercício, Cláudio Lembo, para descontentamento e também satisfação de intelectuais e jornalistas.   

A estratégia do PCC por certo era provocar nos paulistas e principalmente nas autoridades públicas, a arquiconhecida “Síndrome de Estocolmo” (*),  aberração mental que leva o indivíduo a enxergar as coisas pelo seu inverso, em resultado podendo levar tais autoridades a fazerem acordos contrários ao interesse do bem comum.  

Não obstante tal método ter dado no Brasil inúmeras provas de sua eficiência, quando as TVs exibiram seqüestrados (bispos, delegados, filhos de delegados, empresários, filhos de empresários…a lista é enorme…) falando bem dos seqüestradores e mal tanto da força policial que os libertou quanto da sociedade, desta vez parece não ter funcionado, conforme será possível verificar daqui a algum tempo. Pois há evidências que levam a crer que a intenção de fazer com que  as autoridades paulistas celebrassem acordos de paz com bandidos não surtiu efeito, haja vista a ação continuada da forças policiais, que rapidamente reestabeleceram a ordem. Os militares paulistas, mortalmente perseguidos, demonstraram a mesma coragem vista dias antes no episódio de vandalismo de torcida organizada no estádio do Pacaembu, em SP: uma torcida organizada, numerosíssima, insuflou o público a  junto com ela invadir o estádio com o propósito evidente de agredir atletas, árbitros e técnicos. Algumas dezenas de policiais, armados apenas com cassetetes, conteve a turba, desproporcionalmente maior em  número. Deram na ocasião tamanha demonstração de coragem que não houve voz que viesse em defesa dos vândalos. Do mesmo modo, os militares paulistas não se deixaram intimidar pelos criminosos agressores e também por quem por certo os liderou intelectualmente.  

A Síndrome de Estocolmo é um fenômeno terrível, que ultrapassa o âmbito da Psicologia e adentra o da Antropologia. A primeira vez que ocorreu foi às 10:15h do dia 23 de agosto de 1973, terça feira. O "Banco Sveriges" de Estocolmo, Suécia, foi atacado com sub-metralhadoras. "A festa só está começando", anunciou um recém-foragido da prisão, Jan-Erik Olsson, de 32 anos. "A festa", de fato, continou mais umas 131 horas, ou cinco dias e meio, quando Olsson tornou reféns quatro dos empregados do banco, numa sala de 11 por 47 pés de comprimento (=3,35×14,33m), até o fim da tarde do dia 28 de agosto.” Resumidamente, pode dizer-se que o refém fica tão assustado com o que lhe acontece que ele “começa a identificar-se com seus captores, o que no princípio é simples e automático mecanismo de defesa, baseado na (geralmente inconsciente) idéia de que o captor não ferirá o cativo se ele for cooperativo e até mesmo positivamente encorajador. O cativo tenta conseguir o favor do captor por meios quase que infantis.”  O afetado por esta síndrome faz uso então dos meios que tenha à disposição para defender e proteger os criminosos e inculpar os demais, “a sociedade”, as “leis injustas”, etc., em resultado do que a vida dos bandidos vai sendo facilitada e a do cidadão “comum”, que tem endereço fixo e paga imposto, mais difícil.   

Por certo que a cota de vocacionados ao ofício militar, em São Paulo, não é pequeno. Caso fosse, e já estaríamos vendo a principal autoridade pública do Estado de São Paulo aceitando fazer acordos com os bandidos e não persegui-los como é de seu dever mandar fazer. O tempo dirá se tenho razão em crer que os bandidos não tiveram êxito. Pois uma coisa é certa: se a vocação é realmente firme e devidamente cultivada, tal síndrome não se assenhoreia do indivíduo, submetendo sua inteligência e vontade a objetivos infames.  

 (*) O fenômeno foi descrito pela primeira vez pelo padre Rev. Fr. Charles T. Brusca, em cuja descrição me baseei. 

Artigo escrito para ser publicado originalmente no site www.institutomillenium.org/.

A família e a vocação – Lição 2

April 17, 2006

A necessidade de carinho, atenção, aconchego, presente no homem, não é exclusiva do homem. Ela está presente também no animal.

O que aprendi a conhecer na prática. Eu costumava ir uma ou duas vezes por mês ao sítio de um amigo, também psicólogo. Havia lá no sítio uma vaca (Fortuna) e dois bezerros (Potoco e um outro cujo nome não me lembro). Fortuna pariu Potoco. Para que este não ficasse sozinho, o amigo comprou o “outro-cujo-nome-não-me-lembro”. Fortuna, porém, só deixava Potoco mamar em suas tetas; o outro, não. Curiosamente (para mim, pelo menos), Potoco foi se tornando um bezerro dócil, amável, que bastava alguém chamá-lo pelo nome que ele atendia. O outro, rejeitado, foi desenvolvendo uma personalidade de maloqueiro; tão logo atingiu tamanho suficiente, passou a dar preferência a trilhas que nem Fortuna, nem Potoco nem nós, seres humanos, costumávamos usar. Eram locais locais perigosos, por serem ribanceiras, estarem próximas à margem do riacho que corria no plano abaixo daquelas trilhas, vegetação cerrada que poderia ser ninho de cobras…Até que aconteceu de ele cair numa ribanceira, quebrar a perna e ter de ser sacrificado. Suas carnes foram doadas a uma instituição local que cuidava de pessoas carentes, pois o amigo disse: “Maloqueiro ou não, era tanto membro da família quanto Fortuna e Potoco. Não poderia comer suas carnes.”

Por isso se diz que quando os pais dão atenção e carinho aos filhos, não são merecedores de elogios; quando nem isso dão, tornam-se merecedores dos mais severos vilipêndios. Pois aí o que se está recusando não é o amor, mas algo de natureza inferior, uma vez que é coisa necessária até aos animais, cuja recusa distorce sua personalidade.

Se os animais, portadores de inteligência limitada, apreendem as intenções que os seus pares têm com relação a eles, quanto mais o ser humano, ainda que bebê. A limitação mesma da inteligência do animal permite, em muitos casos, a reversão dos efeitos de uma infância problemática. Ajuda neste processo o fato de ele ao nascer estar pronto para a vida, num grau tal que o homem, para atingir tal nível de prontidão, precisaria permanecer no útero materno quase que o dobro do tempo em que lá permanece. Mas tais distorções, uma vez ocorridas no homem, em seus inícios, não prometem reversão, mas condicionam os desdobramentos futuros de toda sua personalidade.

Devido a esta não-prontidão biológica do bebê humano, é necessário elevada dose de persistência na atenção e carinho para com ele. E em resultado também dessa não-prontidão, sua resposta global aos estímulos mantém-se como padrão por mais anos do que seria admissível em organismos já plenamente desenvolvidos, como se dá com os animais.

O primeiro impacto da família sobre a vocação se dá, portanto, em virtude da maneira como os pais estabelecem relações presenciais com sua criança. A linguagem no sentido humano do termo, a linguagem articulada, conta pouco. O que conta é a linguagem significada pelo modo de presença, pelas atitudes que os adultos – no caso, os pais – adotam para com a criança. Caso falte o amor, é difícil supor que haja atenção, carinho, aconchego, e demais condutas que atendem a necessidades físicas e psicológicas do homem na sua segunda fase de existência (a primeira é a fase intra-útero).

Para maior clareza a respeito da reação global de toda a personalidade pelo bebê, basta ter em mente que é só na primeira e segunda fase de sua existência que o homem pode, por um só ato da mãe, ser atendido em todas as suas necessidades físicas e psicológicas. Só na primeira e segunda fases de sua existência é possível o atendimento simultâneo de tais necessidas. Com o amadurecimento biológico, calcificação dos ossos, especialização dos sentidos, etc., o atendimento de tais necessidades só pode dar-se sucessivamente, quer dizer, ou se aconchega a criança, ou a alimenta, as duas coisas não podendo ser feitas de uma só vez. Vejamos como se dá isso.

Quando a mãe amamenta o bebê, atende necessidades que vão da ordem física até a ordem psicológica. Discriminando o que é atendido:

– a necessidade que tem o organismo de ter sua temperatura aumentada ou preservada, o que resulta do contato do corpo da mãe com o do bebê no ato de amamentar. (Tenha-se em mente que temperatura é objeto de estudo da Física); – a necessidade de absorção, pelo organismo, de nutrientes (cujo estudo são objetos de estudo da Química e da Biologia);

– a necessidade de proteção contra os diversos e incompreensíveis estímulos exteriores à consciência (o que é objeto da Psicologia). Aqui incluem-se também a ritmação do pulso cardíaco do bebê, o que os batimentos cardíacos da mãe proporcionam, bem como seus cantos e palavras ternas e carinhosas. E outras particularidades que possam ser aqui arroladas.

Como o homem é a criatura capaz de privilegiar o bem do outro em detrimento de si mesmo – capacidade cujo nome é amor – a intenção de acolhimento do filho permanece real muito além de qualquer limite físico. No caso dos animais, do cão por exemplo, o instinto de cuidar da mãe permanece enquanto estão presentes em sua corrente sangüínea certos hormônios que condicionam seu attachment. O esvaimento desses hormônios coincidem com a maturação muscular da cria, quando então ela passa a ser vista como concorrente. Que a partir deste momento a cria não tente comer a comida da sua mãe!… No homem, este attachment prossegue para além da vida física, para além da morte, na verdade.

Portanto, a presença, amorosa ou não dos pais, condiciona o desenvolvimento adequado ou desviado da vocação de seu filho, já que a vocação possui como um de seus componentes fundamentais a herança psicogenética e sua especialização durante os longos anos em que a linguagem verdadeiramente articulada está ausente da inteligência do homem.

A família e a vocação – Lição 1

March 30, 2006

Maria Sonia escreveu-me:

"Sr. Joel, gostaria de sugerir que V.Sa. discorra, a miúde, sobre as influências, negativas ou positivas, que os pais possam ter sobre a educação dos filhos. E o que isso pode acarretar para a vida adulta destes filhos. Outrossim, como o exemplo dos pais pode ou não influênciar no desenvolvimento vocacional dos filhos."

Para atender a tão pertinente sugestão, passarei a escrever alguns artigos que aclarem meu pensamento a respeito da relação entre a família e a vocação pessoal do indivíduo.

Para tanto, pareceu-me adequado imitar a forma de textos que li na época da faculdade e que tanto me ajudaram na compreensão de muitas das questões que irão surgindo nos artigos que irão se sucedendo. Vou chamar cada artigo de “Lição”. Pelo número da lição, será possível fazer idéia do quanto já caminhei neste assunto.

Lição 1 – a questão da “reação global da personalidade”

Para uma adequada compreensão do que virá a seguir, um conceito deve ser assimilado de maneira clara e firme: o conceito de “reação global de toda a personalidade”. Por “global” quero dizer algo assim como “corpo e alma juntos”, já que a personalidade é composta de elementos físicos e não físicos, isto é, assimiláveis pelo que no homem há de corpóreo e incorpóreo. De modo que quero significar que “reação global de toda a personalidade” é a resposta (ou envolvimento) do sujeito inteiro (e não apenas uma parte sua) com o estímulo que o afeta (ou com a situação momentânea na qual se encontre).

A reação global de toda a personalidade ocorre quando a situação provoca no indivíduo a unificação do sentimento, da vontade e da inteligência. Esta unificação dá-se em várias situações, com destaque para as de amor e de medo extremo. Apenas para clareza do conceito, vou ilustrar recorrendo primeiro a uma situação de medo.

Há algum tempo (uns dois anos, talvez) um rapaz de São Paulo foi morto em uma entrada de favela no RJ. Ele foi ao RJ de carro para assistir a um jogo no Maracanã. Ao sair de lá, não conhecendo muito bem a cidade, entrou numa rua que conduzia a uma favela. Tão logo entrou lá, foi alvejado por balas, vindo a falecer.

Suponha que você, leitor, esteja num local parecido com aquele onde o rapaz foi morto. É noite e você está perdido, sem saber que direção tomar. Vê um ou outro morador do local olhando para você e sabe que se parar o carro e descer para obter alguma informação de como sair dali, caso a obtenha, sabe que ela não é confiável. Três coisas se passam no seu íntimo: sente que a situação em que está diz respeito exclusivamente a você; a fortíssima vontade de sair de lá o mais rápido possível; entende que está em perigo mortal. Portanto, nesta situação, dá-se a vivência da unidade composta de sentimento, vontade e entendimento.
Unificação parecida desses três aspectos da alma ocorre na vivência de amor, quando você se liga afetivamente a alguém que passa a ocupar o centro de seus interesses, ofuscando tudo o mais. Você então sente que tal pessoa é o objeto preferencial de sua atenção, ou seja, que ela é importantíssima para você; quer que ela o aceite; pensa o tempo todo em como fazer para ser correspondido em seu amor.

A dificuldade que nós adultos experimentamos em dar uma “resposta global” a algum estímulo resulta do fato de já terem-se realizado diferenciações em nossa inteligência. Adultos, somos capazes separar os vários componentes de uma mesma vivência e nos atermos a um ou outro deles. A criança, ao contrário, não é ainda capaz de operação mental deste tipo, por não ter ainda vivenciado os momentos em que vão se dando as diferenciações (ou mutações) em sua inteligência. Por isso, quanto mais novo o indivíduo, mais global é sua reação a estímulos. A reação de um bebê aos estímulos é global, enquanto a de um adulto, não. A globalidade da reação diminui na medida em que vão se dando as progressivas diferenciações na inteligência, processo que se conclui na idade adulta.

Quando um bebê sente fome, ele se sente globalmente ameaçado, tanto quanto você ou eu sentiriamos perdidos nas ruas de alguma favela do RJ, notória pela presença de bandidos. O mesmo quando ele sente sede ou algum tipo qualquer de desconforto. Para ele, não existe diferença entre fome, sede, sono, fralda molhada, agulha na fralda — para ele, é tudo muito ameaçador. Cada uma dessas situações provoca-lhe a impressão de que sua vida está ameaçada. Daí que quanto mais se retarde atender a um bebê quando ele chora, pior para seu desenvolvimento. O impacto do não atendimento imediato diminui com o aumento de sua idade, do que falarei quando estiver de acordo com a natureza do artigo.

No ser humano adulto ocorrência de uma tal unificação não é a norma, mas coisa episódica. Basta comparar: lembre-se de uma intensa alegria que sentiu quando era criança quando, pelo Natal, ganhou um presente que coincidia com o que você desejava maximamente? Que coisa, pessoa ou situação, hoje em dia, seria capaz de provocar-lhe alegria tão global quanto aquela que sentiu naquele Natal? Difícil responder, não é mesmo?

Isto é assim porque, durante o processo de crescimento, paralelamente ao desenvolvimento corporal (calcificação dos ossos, em princípio mais frágeis e cartilaginosos; fortalecimento muscular; aumento das dimensões do corpo, etc.), vão ocorrendo mutações na inteligência. Primeiro, dá-se a especialização dos sentidos exteriores, como a vista e audição, que vão permitindo o reconhecimento personalizado da figura materna, depois a paterna e em seguida dos demais componentes do círculo familiar; em seguida, anos após, a distinção entre o que é “eu” e o que não é “eu”; posteriormente, dá-se o desenvolvimento do raciocínio baseado na própria estrutura corpórea do sujeito (“operatório concreto”, na linguagem de Piaget) e, de mutação em mutação, atinge-se a capacidade para raciocínios totalmente abstratos, para os quais a matemática educa maximamente.

Quanto maior seja o número de ocorrências de diferenciação da inteligência, menos global vai se tornando a reação a estímulos. Portanto, da vida intra-uterina ao estágio de bebê, deste à condição de criança, desta à de púbere, deste à de adolescente, deste à de adulto, a globalidade da reação da personalidade vai diminuindo. Pois sendo "abstrair" o mesmo que "separar", da infância à idade adulta dá-se o aumento da capacidade para "separar o que interessa" da experiência sem responder a ela de maneira física e mentalmente unificada. Como dizia um antigo colega, um dos primeiros alunos de sua turma de Odontologia, que pegou sua namorada com outro: "Ruim no amor, bom nos estudos".

Compreensível portanto que quanto menos hostil for a conduta com a criança, melhor será para o seu desenvolvimento cognitivo, psicológico e psico-social. Inversamente, quanto mais hostil for a relação que se estabeleça com ela, mais prejudicado estará o desenvolvimento de sua personalidade. E claro também que a comunicação com o indivíduo, quanto mais novo ele seja, dá-se mais por uma questão de presença e do que de discurso. Tanto que não há mal, em termos absolutos, que se usem palavras inadequadas para se dirigir à criança, desde que a atitude seja amorosa. Como uma orientanda, mãe de um único filho, a quem chamava "meu porquinho". Claro que sugeri que ela escolhesse outra substantivo para nomeá-lo em público, caso contrário ele teria desnecessários problemas quando entrasse na fase escolar.

Deve-se ter em mente que a amabilidade ou hostilidade na relação e tratamento com a criança não impedem o desenvolvimento de sua inteligência, esta entendida como a simples capacidade de criar silogismos, de “pensar logicamente”. O que a hostilidade provoca é a emergência, na alma da criança, do desejo por alguma forma de mal. Numa linguagem técnica, pode-se dizer que a falta de atenção amorosa à criança faz com que aquelas, mais dotadas para o pensamento lógico, tenham como fins de suas intenções não o bem do próximo, mas o seu mal. Por isso há indivíduos que, não obstante terem sido agraciados por boas condições sociais, boa educação, etc., enveredam pelo caminho do mal. Sua inteligência (causa eficiente de suas ações) não atua em vista do bem (causa final), mas por causa de algum tipo de ressentimento e desejo de vingança.

Por isso, é sempre melhor, para o indivíduo e para a sociedade em torno, que ele, desde criança, esteja sendo cuidado por quem seja mais amorosamente atencioso com ele, quer se trate do pai ou da mãe.

A vocação e o equilíbrio psicológico

February 19, 2006

(Artigo publicado no Consultório Vocacional da UniverCidade – www.UniverCidade.edu/pop)

Cada pessoa possui facilidade para desenvolver e aprimorar uma força interior que lhe permite manter-se dona de si nas situações desafiantes. Tais forças têm sido ao longo da história conhecidas pelo termo "virtude", uma vez que a raiz virtù desta palavra significa "força".

Os desafios podem dirigir-se à parte irracional à parte racional da pessoa. As virtudes que permitem a vitória nos desafios à parte instintual são a fortaleza e a temperança; à parte racional, prudência e justiça.

Fortaleza é a capacidade para ter coragem quando o desafio põe em risco a vida. O indivíduo, nessas horas, deve ser capaz de atacar o que pode destruí-lo. Quando lhe falta tal virtude, ele simples corre, dá no pé, age de maneira covarde. Temperança é a capacidade para o sujeito não se corromper devido ao interesse por comida, bebida ou sexo. O dinheiro é o meio capaz de viabilizar tais coisas. Por isso os jornalistas e analistas políticos denominaram, com grande sabedoria, aos políticos que demonstram tal tipo de fraqueza de "fisiológicos". Prudência é a capacidade para saber quando agir ou deixar de agir, quando "ir para cima ou afinar". Justiça , o equilíbrio no trato com as coisas alheias, a capacidade para não ficar com o que pertence ao outro e também para dar ao outro o que ao outro pertence.

A vitória sobre os desafios à parte irracional depende da aquisição de certos hábitos ou costumes, os quais resultam da educação que a criança recebe na família e, em prosseguimento, na escola. Em latim, "costume" é denominado mores, daí o nome moral, a qual resulta portanto da educação adequada da parte irracional e afetiva de sua personalidade. Recentemente, sob o nome de inteligência emocional, o psicólogo Daniel Goleman tornou conhecidas as vantagens pessoais, sociais e profissionais da educação desta parte da personalidade. Quando um controle similar deve incidir sobre princípios coletivos e sócio culturais, conservou-se a designação baseada no termo grego ethos, de onde temos "ética". Daí ética significar o respeito por cada pessoa de regras a serem respeitadas por todos. Como para tanto é preciso perceber o mundo à volta como dado objetivo, a parte da personalidade envolvida tem necessariamente de ser a racional.

É papel da educação auxiliar cada indivíduo na aquisição de tais forças interiores ou virtudes.

A vocação, dentre outras coisas, dota a pessoa de facilidade para o desenvolvimento de uma ou várias dessas forças. Assim, há jovens que prometem ser bons administradores porque neles se nota a força do senso de justiça, a capacidade para atribuir a cada um o que lhe pertence, por isso manifestam aptidão para negociar sem que o ceder lhes pareça derrota ou ofensa pessoal e o avançar lhes soe como desejo de humilhar o concorrente. Outros prometem ser bons psicólogos, conselheiros, médicos, etc., já que são inclinados ao controle dos próprios instintos; outros, podem ser pessoas empreendedoras, vendedores, etc., já que não lhes falta coragem nas situações em que a média titubeia; outros, são excelentes pais porque sabem a ora de se impor ou deixar a coisa andar. E assim por diante, em conformidade com a multivariada dotação pessoal das pessoas.

Quanto mais a pessoa, se possível desde jovem, se proponha a tarefas compatíveis com a força (ou virtude) que possui ou que tenha facilidade para adquirir, mais psicologicamente equilibrado viverá sua vida. Menos chances terá de ser no futuro um carreirista fisiológico, um mau médico, um mau administrador, um irresponsável e covarde executivo, em suma, um mau profissional. Em razão do que vale a pena investir desde muito cedo numa boa educação, pois é daí que resultam pessoas psicologicamente equilibradas e profissionais competentes.

A Vocação e o Bonsai

February 7, 2006

Algo que sempre me chamou a atenção, ao longo de mais de três décadas de convívio com japoneses, é seu carinho e paciência para cuidar de árvores e plantas. A criação de bonsai é, dentre as diversas artes japonesas, a que mais me impressionou. Ele resulta do corte criterioso da raiz da árvore.

Não sei dizer se a expressão “criação de bonsai” está correta. De qualquer maneira, digo do que se trata: é o cultivo de árvores pequenas, com uns setenta ou oitenta centímetros de altura, exuberantes, que provocam a impressão de serem imensas em virtude da majestade que exibem. Há arvorezinhas com trinta, quarenta e até mais anos. Só mesmo a combinação de uma grande quantidade de carinho, paciência e delicadeza de espírito para gerar arte assim.
O artista, o cultivador (ou criador) de bonsai, tem de conseguir captar o estilo, a singularidade da árvore, para fazer manifestar-se a beleza que só aquela árvore pode manifestar. Não há duas iguais e todas são singularmente bonitas e majestosas.

A dificuldade da tarefa é imensa, já que vegetal não fala, mas apenas está lá; não dá nenhuma informação ativa nem sobre si nem sobre nada do meio. O que a árvore é e o que lhe convém tem de ser captado ou deduzido pelo artista que dela cuida.

A comparação do bonsai com a pessoa humana é coisa praticamente imediata. Pois dá para substituir por pessoa a palavra árvore da frase acima: “…captar o estilo, a singularidade da pessoa, para fazer manifestar-se a beleza que só aquela pessoa pode manifestar. Não há duas iguais e todas são singularmente bonitas e majestosas.”

O bonsai é a árvore exibindo seu grau máximo de beleza, exuberância e majestade, dentro dos pequenos limites que são os seus sessenta ou oitenta centímetros de comprimento. Mas não é também isto que uma criança é? Ou mesmo um adolescente, ou adulto? Quando dizemos que “Fulano é um gigante” não é porque ele meça três, cinco, ou dez metros de altura, mas porque ele manifesta um certo máximo que ele poderia ser – ele manifesta o resultado do fornecimento à sua vocação do aporte cultural adequado, aporte este efetivado sob a forma de carinho e atenção e apoio familiares, adequada instrução escolar e justa recompensa sob a forma de adequada remuneração de seu empenho profissional.

Não dizemos “gigante” ao nos referirmos ao espirituoso ascensorista, ao simpático garçom, ao educado gari, à encantadora e alegre criança, à zelosa vovozinha e a toda miríade de encantos vivos que são cada pessoa de boa vontade que encontramos pelo caminho? Não há termo específico para a elas nos referirmos. Mas indiscutivelmente sentimos em nossa alma atração e encantamento por essas pessoas, do mesmo modo que os “gigantes” pela ciência, arte e demais coisas que alguns vocacionados exibem atraem até eles o apreço das multidões e gerações que se sucedem no tempo. Na presença daqueles outros “gigantes”, em nosso espírito logo surge a idéia de que “se não fosse gari, seria um excelente profissional liberal; quando crescer, continuando assim, será um grande artista; se vovozinha fosse mais jovem e quisesse seguir alguma carreira profissional, seria a melhor mestre de cerimônia do mundo…”, e assim com cada caso.

Nenhum desses valores e virtudes se afirma espontaneamente, sem algum cuidado inteligente, verdade que vale para as arvorezinhas, os bonsai, e também para o ser humano. Pois, de certa maneira, pode-se dizer que o criador de bonsai amplifica a vocação da árvore à beleza que lhe é própria; do mesmo modo que as pessoas e instituições encarregadas da educação do homem amplificam as vocações de cada um, todas diferentes umas das outras, porém, belas, majestosas, encantadoras.

Não há bonsai sem corte de raízes da arvorezinha; não há artista, filósofo ou cientista sem cuidado educacional, sem o “corte das raízes” puramente instintivas do ser humano que, deixadas à própria sorte, aderem ao mal e ao ruim e, com o tempo, banalizam o ser humano.