O impacto da vocação

September 17, 2005 by Joel Nunes dos Santos

A vocação cria as profissões e as ciências. As profissões e as ciências por sua vez são aspectos da inteligência do homem em ação. São expressões depuradas, a ciência mais do que a profissão, de operações particulares da inteligência. Por isso são seletivas, não admitindo pertencer-lhes toda e qualquer pessoa, todo e qualquer tipo de inteligência.Se as profissões são todas, sem exceção, práticas, as ciências não. Elas são ou práticas ou teóricas. Por exemplo, a medicina é uma ciência eminentemente prática; a física, fundamentalmente teórica, assim com a matemática, que lhe serve de instrumento.

As ciências práticas valorizam, no seu desenvolvimento, os dados dos sentidos. Daí a imensa compatibilidade das novas tecnologias de observação com a medicina, onde a clínica vai cedendo cada vez mais espaço ao instrumento. As teóricas valorizam o raciocínio, a capacidade do cientista matematizar e criar algoritmos ao mesmo tempo simples e abrangentes. Einsten exemplifica isto, ao expor o seu pensamento sob a fórmula E=mc2. Ainda que sejam necessários árduos estudos, durante vários anos, para compreender o sentido e valor desta fórmula, ela é simples e abrangente.

Analisando os fundamentos de determinada ciência, levando em conta a posição que ocupa entre os extremos – se eminentemente prática ou se puramente teórica – podemos identificar que operações da inteligência ela exige mais intensamente. Assim, é visível que a medicina se funda em provas materiais. A operação da inteligência que tem por função apresentar o dado à consciência é a intuição ou percepção. Logo, a medicina pode ser dita fundamentalmente baseada no caráter intuitivo (ou percepitivo) da inteligência. O mesmo não se pode dizer da Física. Sendo o seu objeto a estrutura dos entes físicos, e não sendo possível vê-los, só é possível deduzí-los. A operação da inteligência responsável pela dedução é a razão. A ciência (ou arte) da guerra ocupa uma posição intermédia, isto é, não se crava exclusivamente na observação nem tão somente na dedução, mas principalmente na estimativa. Quando um chefe militar diz “estimo que tal governo reagirá desta ou daquela maneira ao nosso ataque”, está combinando os precedentes que observou com os raciocínios dedutivos de que é capaz; ou seja, está estimando os dados, o que é papel da estimativa cumprir.

Uma vez compreendida a inteligência própria da ciência, torna-se possível perceber tanto a força de seu benefício como as dificuldades que resultarão do seu predomínio sobre áreas mais amplas da vida do homem.

Um caso digno de nota a respeito deste tema é a dificuldade que hoje confronta grande número de sociedades: se e até que ponto o homem é ou pode estar sendo tratado como meio e não como fim pela que parece ser a “ciência do século XXI”, a Engenharia Genética.

Sem pretender discutir aqui este assunto, um dado importante à discussão é a distinção que existe entre material e objeto da ciência.
O material de que esta ciência faz uso é tomado da Biologia; o objeto, da Física.

A vocação à Biologia é diferente da vocação à Física, na medida em que a primeira é fundamentalmente intuitiva, isto é, procede baseada nas informações dos sentidos; a segunda, procede baseada na articulação de hipóteses com a premissa de base, ou seja, ela é fundamente raciocinativa (a operação do raciocínio não presume a presença atual do objeto, mas apenas de seus esquemas puramente lógicos).

A Engenharia Genética é uma ciência nova, criada por físicos.

As origens desta ciência, conheci-a num dos módulos de Psicologia Social, durante meus primeiros anos de faculdade. Os mais de vinte anos passados misturaram em minha mente informações lidas e ouvidas. As lidas foram principalmente os ensaios contidos no livro “Biologia Social”, de Bruce Wallace, (Ed. da Universidade de São Paulo). ou seus próprios ou adaptações feitas com finalidades pedagógicas, relativos a temas como genética, evolução, raça e biologia das radiações; além destes, textos também de Niels Bohr, físico. As ouvidas foram as que circulavam na época pela boca de professores e palestrantes convidados. Estávamos na década de 80 e esses temas em alta.
Um exemplo claro das mudanças havidas no espaço de algumas décadas é a expressão engenharia genética (com letra minúscula e em modo itálico): era uma, dentre outras, técnica de trabalho do biólogo molecular e sua finalidade estrita era o desenvolvimento de curas de doenças genéticas. Hoje, dizemos Engenharia Genética, com letra maiúscula e sem itálico, significando uma ciência pronta, completa, com objetivos muito mais amplos do que a cura de doenças genéticas – hoje diríamos “cura de doenças genéticas também”.

Essa mudança se processou a partir da segunda metade do séc. XX, quando foi tomando corpo a crença de um físico, Niels Bohr, de que “um princípio de complementação, talvez semelhante àquele necessário para a compreensão da mecânica dos quanta, seria a chave para a verdadeira compreensão da biologia”, nas palavras de Wallace (p.6). Ou seja, assim que passasse a ser aplicado diretamente o método da Física ao material fornecido pela Biologia, esta se tornaria verdadeiramente conhecida.

O grande cientista Niels Bohr, físico dinamarquês, ganhador do Nobel de Física em 1922, foi quem levou de Berlim para os Estados Unidos a notícia da descoberta da fissão nuclear e atuou como um dos assessores no laboratório da bomba atômica em Los Alamos.
Ele, como outros físicos, responsáveis pelo desenvolvimento desta nova tecnologia, ficaram profundamente abalados com os resultados de sua aplicação à guerra. Em razão disso, vários cientistas deixaram a Física e migraram para a Biologia, buscando encontrar meios capazes de reverter os efeitos nocivos da radiação sobre os seres vivos, em particular, sobre os seres humanos. O resultado disto foi a transformação da técnica numa ciência, da engenharia genética na Engenharia Genética.

O que chama a atenção nesta ciência é o fato de ser uma aplicação praticamente direta dos métodos da Física não a um novo objeto, mas a um novo material. Se o material de que a Física fez e faz uso é inanimado, o material de que esta nova ciência faz uso é algo vivo. Porém, ela “enxerga” neste material o mesmo que a Física enxergaria: a sua constituição física.

O objeto da Engenharia Genética é a constituição física do material de que o ser vivo é composto. Mesmo que o material de onde surge o homem seja o próprio homem, a natureza mesma desta ciência a torna indiferente a este dado, seja ele fato ou não. A noção de pessoa escapa dos limites da Física, assim como da sua ciência-filha, a Engenharia Genética.

Do acerto ou erro da subordinação das leis que nós homens criarmos a respeito do com que é ou não permitido experimentar, dentro do campo desta ciência, poderá depender significativa parte do futuro da humanidade neste século XXI e quem sabe nos vindouros.

As questões que resultam do crescimento desta ciência são um exemplo forte e atual do impacto da vocação sobre a vida dos homens.

As catástrofes naturais, as humanas, e as vocações

September 3, 2005 by Joel Nunes dos Santos

Vi Winston Marsalis, trumpetista, apresentando-se para ajudar a população de New Orleans, terra do jazz, completamente inundada devido ao furacão Katrina. As boas recordações que as cenas de sua apresentação me provocaram cederam lugar a uma pergunta que não mais me deixou: que tipo de vocação é valorizada pelo povo acostumado a enfrentar catástrofes naturais e pelo acostumado a enfrentar catástrofes humanas?A resposta que me parece imediata é: quando o adubo que nutre as vocações é a luta contra catástrofe natural, o povo admira e valoriza as vocações que geram indivíduos capazes de resolver problemas reais e concretos; quando a experiência do povo é do padecimento por catástrofes humanas, o povo valoriza as vocações que geram sujeitos enrolões, histriões, falastrões, o que parece ser o caso de nós brasileiros. Pois parecemos acreditar que mais vale ser esperto e enrolão do que bom médico, bom engenheiro, bom alguma coisa. Tais diferenças me chamaram a atenção de maneira muito aguda nos japoneses, com que convivo.O japonês é um povo que viveu grande parte de sua história tendo de reconstruir tudo, já que o Japão é um conjunto de ilhas que volta e meia balançam e jogam as construções no chão e daí surgiu um povo que sabe quanto custa produzir e vender coisas.

Os povos europeus, bem como os americanos do norte, vivem a realidade de que há épocas do ano em que não poderão nem plantar, nem colher, nem caçar. Aí talvez esteja a razão porque os da terra do jazz certamente conseguirão reconstruir sua cidade e suas vidas mais rápido do que nós brasileiros seríamos capazes. Nunca vivemos, por obra e graça da natureza, a terrível experiência de perder absolutamente tudo, de vermos a cidade em que vivemos totalmente inviabilizada. Algo assim já aconteceu numa ou noutra cidade do Brasil, mas não tinha ninguém lá – quando se criaram as grandes barragens das grandes usinas hidrelétricas. Se isto pode ser chamado de catástrofe, foi catástrofe humana, que parece não excitar o surgimento de vocações científicas e pedagógicas tanto quanto Katrinas e tempestades de neve.Toda semana analiso dezenas de respostas a um questinário vocacional de minha elaboração, cuja primeira pergunta é “Por que gostam de você?”(*) e em muitos casos fico completamente persuadido que estou cara-a-cara com jovens capazes de adquirir uma cultura superior que o habilite ao exercício de importantes funções administrativas, científicas, e outras, tudo dependendo de que ao longo de suas vidas pessoas ou instituições valorizem suas vocações. Se ao ver Winston Marsalis, exímio trumpetista, tocando como seus avós e bisavós tocavam – com técnica não européia –, em sinal de respeito a eles, e movido pelo desejo de ajudar seus compatriotas de New Orleans, meu coração se encheu de admiração, no momento seguinte senti-o encher-se de apreensão. É que em seguida vi um um senador petista, vestido num terno caro e exibindo ar sério, propondo mudança na lei de financiamento de campanhas eleitorais, como se a ausência de lei positiva, isto é, escrita e jurada, fosse a a causa da tão desavergonhada conduta de seu partido. Age como criança que na manhã do dia seguinte reclama com sua mãe não a ter obrigado a fazer a lição de casa na noite anterior, ainda que a mãe explicasse “É que você estava tão cansado, meu filho, que nem conseguia ficar de olho aberto!”. Homem pedindo para si e seus pares o que convém a crianças. Uma coisa me parece certa: as vocações que vicejam e são valorizadas entre os povos cujo sofrimento resulta de evento originado da temível e incontrolada natureza são diferentes das que entre nós surgem e crescem; nós cujos sofrimentos e perdas são causadas pelo próprio homem. Vemos filas enormes, cheias de diplomados em curso superior, habilitando-se a vaga de gari, quando os vocacionados à indústria da diversão e deleite supérfluos ganham fortunas e vão à TV discutir temas para os quais nunca se prepararam e julgando fazer o bem, desencaminham significativa parte da juventude com seus exemplos e conselhos excêntricos. Nunca é má hora de valorizar as tantas e promissoras vocações ao estudo superior que há no Brasil. Quem sabe a vida de nós brasileiros possa ser mais sensatamente vivida, e sem tanta burocracia seja possível afastar da vida pública a gentalha que encarece tanto a vida de todos alegando estarem lutando por justiça social. (*) Vide a primeira postagem deste blog, “A pergunta fundamental”, onde menciono a importância capital desta questão.

Só o conhecimento da vocação é suficiente?

August 31, 2005 by Joel Nunes dos Santos

O conhecimento da vocação apenas não é suficiente para selecionar tudo em sua vida. Pois deve-se levar em conta, além do sujeito com sua dotação vocacional pessoal, o meio em que ele existe. Não se pode deixar de considerar o sujeito individual, seus relacionamentos, e as circunstâncias dentro das quais ambas essas coisas se dão.Como características individuais e individualizantes do sujeito, tem-se suas aptidões naturais e adquiridas. Quando essas aptidões vêm do nascimento, costuma-se dar-lhes o nome de “dons”. Por exemplo, o dom para a música, para a pintura ou para a arte em geral. Alguns manifestam possuí-los desde muito cedo, numa época em que não seria razoável admitir alguma “influência do meio”, exceto se considerarmos como “meio” a sua hereditariedade física e psicológica.
Outras aptidões são as adquiridas pela história cultural do sujeito, pelo seu convívio com pessoas e instrumentos culturais diversos, mais afinados ou menos afinados com sua personalidade e dons inatos.

Mas aptidão não é vocação, bem como vocação não é a soma das aptidões inatas e adquiridas, mas o fator integrativo total delas. A vocação é o fator que dota de sentido esses recursos, tanto os que emergem com o sujeito quanto aqueles que sua personalidade vai incorporando ao longo de sua trajetória de vida.

Em resultado deste processo, manifesta-se o sujeito vocacionado a algo. Ao que nele é inato, somou-se aporte cultural adequado.

Porém este mesmo sujeito vive num tempo e num lugar determinados histórica e geograficamente. Sob esta ótica, ele é parte de uma comunidade e os interesses dessa comunidade se imporão sobre ele, sem que isto signifique anulá-lo ou extinguir nele aquilo que ultrapassa o tempo e o lugar. Por exemplo, o dom para a arte, valioso em si mesmo, não desaparece porque a comunidade não se interessa por aquela forma específica de arte. Apenas significa que tal dom não se traduzirá, naquele momento e lugar, num bem desejável e por isso as pessoas não estarão dispostas a pagar por ele. São inúmeros os exemplos de casos assim. Alguns tão famosos com Van Gogh, pintor que viveu miseravelmente mas cujas obras, passados alguns anos, adquiriram preços exorbitantes.

Por maior que seja o valor “em si” do dom individual da pessoa, ou mesmo de sua vocação, não se pode deixar de levar em conta os fatores sociais envolventes, as condições políticas e econômicas do lugar e época e assim por diante, que certamente contribuirão para o êxito maior ou menor da obra resultante ou mesmo a impedirão.

Pelo fato de tais fatores não serem previsíveis, mas apenas explicáveis a posteriori, dá-se-lhes o nome de “sorte”. Assim, além de conhecer qual seja a própria vocação, de modo que a partir daí seja possível fazer esforços convergentes numa certa direção, é necessário um pouco de “sorte”, isto é, que a comunidade valorize o bem ou serviço decorrente de tal vocação.

Um exemplo histórico impressionante disso é o famoso filósofo da Grécia Antiga, Aristóteles. Como não era grego, não era um “cidadão” e por isso não podia sequer discutir os problemas da cidade; na verdade, como se diz na gíria, era o último que falava e o primeiro que apanhava. Sua obra desapareceu por uns seiscentos anos e quando reapareceu, as traduções não eram boas, não faziam juz a seu verdadeiro conteúdo. Muitos anos depois, foram feitas traduções adequadas, a partir de quando ela pôde ir sendo apreciada no seu justo valor. O intervalo de tempo, entre sua morte e uma adequada tradução de sua obra, foi de mais ou menos uns dezesseis ou dezessete séculos.

Este eloqüente exemplo mostra que, às vezes, o valor da vocação “em si” pouco pesa quanto ao rumo dos acontecimentos ou no sentido de beneficiar aquele dela dotado social e economicamente.

Assim, é possível dizer com grande dose de razão que o valor fundamental do conhecimento de qual seja a própria vocação é que ele permite regramento dos esforços da pessoa. Em primeiro lugar porque tal conhecimento permite fazer convergir os esforços para uma vida com sentido; em segundo lugar, porque não é possível ter o domínio do meio circundante, pois vivemos dentro dele e ele nos contém e não o contrário. E por mais tecnologizado esteja o homem ou a comunidade, mesmo assim não é possível controlar os fatores externos que envolvem a vida. Sempre surge um imprevisto Tsunami, um Katrina, que tudo arrasa. Ou mesmo um simples e pequeno acidente, como o que vitimou Alexandre o Grande: tomou banho num rio, pegou uma doença e morreu no prazo de poucos dias. O grande homem, conquistador, guerreiro, e que ainda por cima tornou conhecidas universalmente as escrituras dos judeus, permitindo a grande parte da humanidade compreender que há um só e único Deus, foi morto em poucos dias por uma gripe ou algo semelhante. Quem diria? E um Roberto Jefferson surgir de repente mudando os destinos de um país?…Quem diria?….

Os personagens públicos e suas vocações

August 24, 2005 by Joel Nunes dos Santos

A vocação específica da pessoa fica evidente em dois momentos extremos: quando ela a nada está obrigada ou quando as circunstâncias a obrigam fortemente a fazer alguma coisa. Nessas duas condições, o coração, a vontade e o entendimento se unem e dão base para a ação do espírito, que então escolhe certas alternativas e e rejeita outras. É portanto nessas horas que se age verdadeiramente em conformidade com sua vocação.Alguns personagens cujos perfis cognitivos e vocacionais eu trouxe a público, com base em dados que observei e informações que coletei deles — Marcos Valério, Delúbio dos Santos, José Dirceu — estão na obrigação de fazer algo para livrar a própria pele. É quando então agirão fundados em suas vocações e terão suas idéias melhores e mais eficientes, as quais poderão até não funcionar, pois isso dependeria de muito mais coisas. Contudo, as soluções que propuserem devem ser vistas como expressão de sua máxima inteligência e unidade pessoal, isto é, deverão ser vistas como exteriorizações de suas vocações. Podem mostrar pouca inteligência e certamente mostraram baixa unidade pessoal, mas é o máximo que esses indivíduos atingirão por estarem com o coração, a vontade e o entendimento todos voltados para este momento de desespero. Observe então os contornos da vocação de cada um deles, personagens cujas ações e omissões pesam tanto sobre nossas vidas.

Pode estar certo que assim fazendo, você conseguirá enxergar com grande clareza porque o momento do sufoco é privilegiado para a descoberta da vocação. Aplique então a compreensão que obtiver sobre este maravilhoso tema da vocação e de sua descoberta ao próprio caso. Esta atitude reflexiva fortalecerá enormemente seu espírito.

Vocação e vida (II)

August 13, 2005 by Joel Nunes dos Santos

No artigo “Vocação e vida”, esclareci que vocação é a unidade do intelecto, vontade e afetividade. No caso do japonesinho Roberto, observa-se que informática não responde à exigência de unidade de sua alma. Informática é algo que ele sabe, entende, mas de que não gosta a ponto de deixar outras coisas por ela e também não é algo com que queira ficar envolvido de maneira exclusiva e permanente. Seria como se apenas uma terça parte de sua alma estivesse vinculada ao assunto.Isto não quer dizer que informática seja dispensável para ele. Apenas significa que, como assunto principal de sua vida ou profissão, seria muito insatisfatória. Como recurso complementar, totalmente satisfatório.

Tanto que quando lhe pareceu óbvio para sua vida que o caminho era a veterinária, imaginou-se criando um sistema capaz de fornecer informações a respeito de pet shop, cadastro de profissionais da área, preços de serviços etc.

Informática no seu caso nada mais é que uma aptidão. E aptidão é instrumento possível da vocação e não a vocação mesma.

A vocação e a relação com seu objeto

August 13, 2005 by Joel Nunes dos Santos

Antes de existir a internet, houve um menino de 12 anos, Roberto, que criou em casa, sozinho, uma BBS – Bulletin Board System – ferramenta de comunicação via modem, chegando a ter uns 50 usuários. Feito notável para a época, e acredito que o seria também hoje em dia.Aos 17 anos, veio conversar comigo. Ia mal na escola, a ponto de estar quase repetindo o ano e não parecia se interessar por nada. Pensei comigo mesmo: seu caminho só pode ser a informática. Era engano. Nas conversas, soube por ele que o que mais o havia alegrado na vida tinha sido tratar de um cãozinho doente. Numas férias, havia viajado para a casa de um de seus tios, veterinário de cidade do interior. Imitando os procedimentos do tio, tratou do cãozinho, que se curou. Ficou orgulhoso consigo mesmo. Por causa da BBS, seus pais e amigos valorizavam sua facilidade com computadores. Contudo, não foi aquilo que mexeu com seu coração e sim a veterinária.

Uma vez relembrado, o episódio do cãozinho que curou não lhe saiu mais da cabeça. Sua mãe me perguntou que pozinho mágico usei, já que ele passou a mostrar-se interessado nos assuntos da escola, estava entusiasmado e dizia que ia fazer vestibular pra veterinária. Fez. Passou. Atualmente já deve ter-se formado.

Nas conversas com ele, comparei a criação da BBS e a cura do cãozinho. Mostrei que em ambos os casos ele agia impondo-se sobre o “objeto”. A diferença é que o primeiro, computador e softwares e demais coisas, não informava a respeito de si mesmo ou dele, Roberto. Já o cãozinho, informava sobre si mesmo e sobre ele. Tanto que quando o via abanava o rabo.

Depois de distinguir o resultado final de uma coisa e outra, Roberto disse que não ligava para informática porque por mais sensacional fosse o que fizesse, não sentia nem gratidão nem amizade por parte do computador ou para com ele. No caso de animais, sentia essas coisas e isto lhe dava tamanha alegria que nem sabia descrever.

Isso me faz lembrar Konrad Lorenz, que é autor do livro "A demolição do homem – crítica à falsa religião do progresso” da editora Brasiliense. No livro ele descreve o objeto preferencial de sua vocação: “As minhas sensações de alegria por ‘possuir’ alguma coisa têm por objeto, quase exclusivamente, animais vivos. Quando acontece num aquário que, por mero acaso e sem participação minha, um grupo grande de peixes cresce e se desenvolve, isso me enche de uma profunda satisfação, mesmo que se trate de alguma espécie muito comum e que não tenha para mim nenhum interesse.” (p.99)K. Lorenz se alegra ao presenciar o espetáculo da multiplicação da vida; Roberto, ao presenciar o restauro da saúde do que está vivo.

A finalidade da atividade e o ponto final do ônibus (II)

August 12, 2005 by Joel Nunes dos Santos

Toda atividade possui um fim próprio. Alguns desses fins são tão úteis em termos práticos que as pessoas se interessam muito por eles. Em conseqüência disso, quem consegue atuar para que se atinja aquele fim adquire prestígio social e outras vantagens. Vai também adquirindo conhecimento sobre os melhores procedimentos para que se chegue àquele fim e esse conhecimento se acumula e é transmitido para outras pessoas. A repetição desses procedimentos desencadeia o surgimento da profissão, cuja finalidade será a manutenção da oferta de meios de se chegar aos fins que interessam as pessoas – saúde, consumo, educação etc.

O nome “profissão” significa ato, declaração ou confissão pública. Portanto, ao aderir a uma profissão, a pessoa está fazendo uma declaração pública de que orientará seus esforços para a produção daquele produto e não de outro.
Como é preciso estar vivo para poder agir, querer, desejar etc., é natural que as profissões que fornecem bens e serviços necessários à vida material mantenham prestígio, mesmo que variável, ao longo do tempo. É o caso, por exemplo, da medicina, da engenharia e do direito.

A reflexão a respeito do fim de cada atividade é de imenso valor. Muito dos descontentamentos, desequilíbrios e desajustamentos de toda ordem, físicos, sociais, psicológicos, não raro cravam suas raízes na combinação de dois elementos positivos que não combinam: de um lado, a vocação do sujeito, a qual é positiva em si mesma; de outro, a inalterável finalidade da profissão que escolheu. Quando ambos não combinam, surgem os problemas.Suponham, por exemplo, um sujeito com vocação artística, festeiro, com facilidade para agitar o ambiente. Possuir essa capacidade é coisa positiva. Imagine-o agora trabalhando num banco, ambiente adequado aos vocacionados à contadoria, pessoas discretas, não raro falam baixo e costumam não gostar de pessoas barulhentas e agitadas. O conflito é inevitável. Conheço um diretor de Departamento de Esportes que odeia esportes, barulho e tem o maior nojo de roupa suada. Fui com ele uma vez ao aeroporto recepcionar uma equipe de atletas. Lá estavam parentes e amigos, com faixas, cantando, fazendo a maior festa. Ele ficava tentando se esconder atrás de pilastras, com vergonha de tudo que estava acontecendo, olhando para os lados como que movido pela necessidade de dar satisfação aos demais presentes e dizer-lhes que nada do que acontecia era por sua culpa.

Quem não conhece Ney Matogrosso? Filho de pai militar, lá pelos 17 anos foi trabalhar no laboratório de anatomia patológica do Hospital de Base de Brasília. Mas isto não durou muito, pois logo ele passou a fazer recreação com crianças. Por certo não seria possível para ele fazer carreira em laboratório, por melhor que lhe pagassem. Gilberto Gil é administrador de empresas por formação o que é impossível imaginar quando o vemos, mesmo ministro, dançando e cantando num encontro com autoridades internacionais. Que dizer do presidente Lula? Sua vocação é evidentemente de tipo artística. Uma coisa é o presidente que já foi artista e outra o artista que finge ser presidente. Ronald Reagan foi um presidente americano que no passado tinha sido artista, mas tinha tanta vocação para a política que foi um dos mais importantes presidentes americanos recentes. E o presidente Lula? Bem, é o que nós brasileiros estamos podendo verificar atualmente, on line: para ser presidente, não basta ser artista.

A finalidade da atividade e o ponto final do ônibus (I)

August 12, 2005 by Joel Nunes dos Santos

Um dos tópicos que abordo nos cursos que dou sobre vocação é a finalidade da atividade.

O fim de qualquer atividade pode ser comparado ao ponto final de ônibus. Não se espera que alguém, ao entrar num ônibus, fique tentando impor ao motorista itinerário diferente do que já esteja previamente estabelecido. Se quiser isso, deve tomar um táxi ou ir no seu próprio carro. Não é papel do ônibus levar o sujeito aonde ele quiser. O ônibus o deixará num dos locais de parada previamente estabelecidos. Quando alguém entra numa profissão, é como se estivesse tomando um ônibus. Sua autonomia para mudar alguma coisa é pequena, como é no caso de um motorista conhecido ou que conhece bem o trajeto e que pára fora do ponto quando você pede. Mas o motorista de ônibus tem o fiscal que o vigia e pode fazê-lo perder o emprego. Cada profissional tem uma pequena margem de manobra para mudar os rumos de sua profissão e organizações, como os conselhos profissionais, que o fiscalizam e mantêm ou não sua autorização para trabalhar.

Assim como há pessoas que vivem se enganando e pegando ônibus errado, também é comum a escolher ofícios bem distantes da própria vocação. A razão disso? “Foi o que pude conseguir”, muitos dizem, sem se dar conta que a escolha foi feita, às vezes, há mais de dez anos.

O possível efeito (des)educacional das CPIs

August 7, 2005 by Joel Nunes dos Santos

O conhecimento da vocação resulta muito mais de observar o que a pessoa realmente faz do que de escutar o que ela fala. Por quê? Porque a relação entre a vocação da pessoa e suas intenções declaradas é a mesma que há entre o exemplo e o conselho. Se um pai diz para o filho que ele deve ser responsável e dedicado com seus deveres escolares e ao mesmo tempo chega em casa mal humorado, falando mal do seu emprego, o que efetivamente está ensinando a seu filho é o contrário do que pretende, já que o exemplo é mais forte que o conselho.

Assistindo às CPIs, exibidas em todo o país com recordes de audiência, me pergunto: o que realmente está sendo ensinado ao povo? Contrariamente às que podem ser as intenções dos parlamentares mais sérios delas encarregados, o que pode estar sendo ensinado é que a melhor coisa, a mais decisiva e importante, é ter dinheiro, muito dinheiro; que quem possui muito dinheiro está livre de cadeia, ou se vai preso, é por pouco tempo, não importando a força e a quantidade das provas que tenha contra si.

O cidadão comum, que freqüenta os mercados, os feirões e demais lugares em busca de preços menores, está acostumado a ver a polícia jogar no camburão pivetes que furtam coisas de pouco valor. Porém, não vê o mesmo acontecer com pessoas endinheiradas, cujos advogados interpõem recursos que dilatam enormemente o tempo entre a demonstração da culpa e a pena, ficando a forte impressão de que no fim tudo acaba em pizza. São exibidas provas ou fortes indícios de algum tipo de crime, mas não a punição que certamente ocorreria caso o acusado fosse gente pobre, confirmando que tendo dinheiro pra distribuir, o resto se ajeita.

A vocação em época de crise

August 2, 2005 by Joel Nunes dos Santos

Não é a primeira vez que os brasileiros nos sentimos como ilhas cercadas por mar de lama. Pudera, os causadores do escândalo atual são os que mais usaram, de maneira vazia, expressões como “honestidade”, “justiça”, “ética” e outras cujo sentido e valor nunca captaram.
Mas, absorvido o impacto do que para muitos é decepção, já que não contavam com algo assim, a vida voltará à rotina. Então, cada pessoa estará às voltas com o cuidado de sua própria vida. Cada pessoa terá de refletir a respeito do que está exclusivamente em suas mãos poder fazer para vencer os desafios que a vida lhe coloca. É quando ressurgirá o tema da vocação com sua permanente importância.
Mesmo agora, quando tudo parece muito confuso e todos com cargo público parecem culpados, certamente a solução honesta que houver para a crise só poderá ser proposta por quem for vocacionado a bem pensar justamente em situações de crise. Talvez não seja o meu caso nem o seu. Mas toda e qualquer coisa que existe é alimento para algum tipo de vocação. Deus providenciou isso e deixou à disposição do homem no momento em que o fez criatura capaz de tudo compreender, ainda que não o tempo todo e ao mesmo tempo.