Archive for the ‘Sociologia’ Category

A violência em São Paulo

May 24, 2006

Nós, os paulistas, estivemos submetidos a um fortíssimo bombardeio psicológico (inúmeros atentados contra policiais, com uma certa preferência pelos que estivessem à paisana; incêndio de ônibus, atentados a bomba contra bancos, rebeliões simultâneas em mais de 70 presídios), empreendido pelo PCC (Primeiro Comando da Capital), facção criminosa filha do carioca Comando Vermelho. O clímax da ação criminosa, iniciada na sexta-feira dia 12, foi nesta segunda feira, dia 15 de maio, quando então São Paulo ficou literalmente paralisada, os funcionários de lojas e outros serviços voltando para casa antes das 16:00h. Isto é, os que conseguiram tomar ônibus, que neste dia pararam de circular. 

O objetivo da articulada e terrorista ação criminosa parecia ser intimidar não apenas a população em geral, mas principalmente os principais ocupantes do poder público, em particular o governador e chefes de polícia, em auxílio das quais veio o governo federal propondo enviar até o exército para combater os criminosos. Proposta rejeitada pelo governador em exercício, Cláudio Lembo, para descontentamento e também satisfação de intelectuais e jornalistas.   

A estratégia do PCC por certo era provocar nos paulistas e principalmente nas autoridades públicas, a arquiconhecida “Síndrome de Estocolmo” (*),  aberração mental que leva o indivíduo a enxergar as coisas pelo seu inverso, em resultado podendo levar tais autoridades a fazerem acordos contrários ao interesse do bem comum.  

Não obstante tal método ter dado no Brasil inúmeras provas de sua eficiência, quando as TVs exibiram seqüestrados (bispos, delegados, filhos de delegados, empresários, filhos de empresários…a lista é enorme…) falando bem dos seqüestradores e mal tanto da força policial que os libertou quanto da sociedade, desta vez parece não ter funcionado, conforme será possível verificar daqui a algum tempo. Pois há evidências que levam a crer que a intenção de fazer com que  as autoridades paulistas celebrassem acordos de paz com bandidos não surtiu efeito, haja vista a ação continuada da forças policiais, que rapidamente reestabeleceram a ordem. Os militares paulistas, mortalmente perseguidos, demonstraram a mesma coragem vista dias antes no episódio de vandalismo de torcida organizada no estádio do Pacaembu, em SP: uma torcida organizada, numerosíssima, insuflou o público a  junto com ela invadir o estádio com o propósito evidente de agredir atletas, árbitros e técnicos. Algumas dezenas de policiais, armados apenas com cassetetes, conteve a turba, desproporcionalmente maior em  número. Deram na ocasião tamanha demonstração de coragem que não houve voz que viesse em defesa dos vândalos. Do mesmo modo, os militares paulistas não se deixaram intimidar pelos criminosos agressores e também por quem por certo os liderou intelectualmente.  

A Síndrome de Estocolmo é um fenômeno terrível, que ultrapassa o âmbito da Psicologia e adentra o da Antropologia. A primeira vez que ocorreu foi às 10:15h do dia 23 de agosto de 1973, terça feira. O "Banco Sveriges" de Estocolmo, Suécia, foi atacado com sub-metralhadoras. "A festa só está começando", anunciou um recém-foragido da prisão, Jan-Erik Olsson, de 32 anos. "A festa", de fato, continou mais umas 131 horas, ou cinco dias e meio, quando Olsson tornou reféns quatro dos empregados do banco, numa sala de 11 por 47 pés de comprimento (=3,35×14,33m), até o fim da tarde do dia 28 de agosto.” Resumidamente, pode dizer-se que o refém fica tão assustado com o que lhe acontece que ele “começa a identificar-se com seus captores, o que no princípio é simples e automático mecanismo de defesa, baseado na (geralmente inconsciente) idéia de que o captor não ferirá o cativo se ele for cooperativo e até mesmo positivamente encorajador. O cativo tenta conseguir o favor do captor por meios quase que infantis.”  O afetado por esta síndrome faz uso então dos meios que tenha à disposição para defender e proteger os criminosos e inculpar os demais, “a sociedade”, as “leis injustas”, etc., em resultado do que a vida dos bandidos vai sendo facilitada e a do cidadão “comum”, que tem endereço fixo e paga imposto, mais difícil.   

Por certo que a cota de vocacionados ao ofício militar, em São Paulo, não é pequeno. Caso fosse, e já estaríamos vendo a principal autoridade pública do Estado de São Paulo aceitando fazer acordos com os bandidos e não persegui-los como é de seu dever mandar fazer. O tempo dirá se tenho razão em crer que os bandidos não tiveram êxito. Pois uma coisa é certa: se a vocação é realmente firme e devidamente cultivada, tal síndrome não se assenhoreia do indivíduo, submetendo sua inteligência e vontade a objetivos infames.  

 (*) O fenômeno foi descrito pela primeira vez pelo padre Rev. Fr. Charles T. Brusca, em cuja descrição me baseei. 

Artigo escrito para ser publicado originalmente no site www.institutomillenium.org/.

Só o conhecimento da vocação é suficiente?

August 31, 2005

O conhecimento da vocação apenas não é suficiente para selecionar tudo em sua vida. Pois deve-se levar em conta, além do sujeito com sua dotação vocacional pessoal, o meio em que ele existe. Não se pode deixar de considerar o sujeito individual, seus relacionamentos, e as circunstâncias dentro das quais ambas essas coisas se dão.Como características individuais e individualizantes do sujeito, tem-se suas aptidões naturais e adquiridas. Quando essas aptidões vêm do nascimento, costuma-se dar-lhes o nome de “dons”. Por exemplo, o dom para a música, para a pintura ou para a arte em geral. Alguns manifestam possuí-los desde muito cedo, numa época em que não seria razoável admitir alguma “influência do meio”, exceto se considerarmos como “meio” a sua hereditariedade física e psicológica.
Outras aptidões são as adquiridas pela história cultural do sujeito, pelo seu convívio com pessoas e instrumentos culturais diversos, mais afinados ou menos afinados com sua personalidade e dons inatos.

Mas aptidão não é vocação, bem como vocação não é a soma das aptidões inatas e adquiridas, mas o fator integrativo total delas. A vocação é o fator que dota de sentido esses recursos, tanto os que emergem com o sujeito quanto aqueles que sua personalidade vai incorporando ao longo de sua trajetória de vida.

Em resultado deste processo, manifesta-se o sujeito vocacionado a algo. Ao que nele é inato, somou-se aporte cultural adequado.

Porém este mesmo sujeito vive num tempo e num lugar determinados histórica e geograficamente. Sob esta ótica, ele é parte de uma comunidade e os interesses dessa comunidade se imporão sobre ele, sem que isto signifique anulá-lo ou extinguir nele aquilo que ultrapassa o tempo e o lugar. Por exemplo, o dom para a arte, valioso em si mesmo, não desaparece porque a comunidade não se interessa por aquela forma específica de arte. Apenas significa que tal dom não se traduzirá, naquele momento e lugar, num bem desejável e por isso as pessoas não estarão dispostas a pagar por ele. São inúmeros os exemplos de casos assim. Alguns tão famosos com Van Gogh, pintor que viveu miseravelmente mas cujas obras, passados alguns anos, adquiriram preços exorbitantes.

Por maior que seja o valor “em si” do dom individual da pessoa, ou mesmo de sua vocação, não se pode deixar de levar em conta os fatores sociais envolventes, as condições políticas e econômicas do lugar e época e assim por diante, que certamente contribuirão para o êxito maior ou menor da obra resultante ou mesmo a impedirão.

Pelo fato de tais fatores não serem previsíveis, mas apenas explicáveis a posteriori, dá-se-lhes o nome de “sorte”. Assim, além de conhecer qual seja a própria vocação, de modo que a partir daí seja possível fazer esforços convergentes numa certa direção, é necessário um pouco de “sorte”, isto é, que a comunidade valorize o bem ou serviço decorrente de tal vocação.

Um exemplo histórico impressionante disso é o famoso filósofo da Grécia Antiga, Aristóteles. Como não era grego, não era um “cidadão” e por isso não podia sequer discutir os problemas da cidade; na verdade, como se diz na gíria, era o último que falava e o primeiro que apanhava. Sua obra desapareceu por uns seiscentos anos e quando reapareceu, as traduções não eram boas, não faziam juz a seu verdadeiro conteúdo. Muitos anos depois, foram feitas traduções adequadas, a partir de quando ela pôde ir sendo apreciada no seu justo valor. O intervalo de tempo, entre sua morte e uma adequada tradução de sua obra, foi de mais ou menos uns dezesseis ou dezessete séculos.

Este eloqüente exemplo mostra que, às vezes, o valor da vocação “em si” pouco pesa quanto ao rumo dos acontecimentos ou no sentido de beneficiar aquele dela dotado social e economicamente.

Assim, é possível dizer com grande dose de razão que o valor fundamental do conhecimento de qual seja a própria vocação é que ele permite regramento dos esforços da pessoa. Em primeiro lugar porque tal conhecimento permite fazer convergir os esforços para uma vida com sentido; em segundo lugar, porque não é possível ter o domínio do meio circundante, pois vivemos dentro dele e ele nos contém e não o contrário. E por mais tecnologizado esteja o homem ou a comunidade, mesmo assim não é possível controlar os fatores externos que envolvem a vida. Sempre surge um imprevisto Tsunami, um Katrina, que tudo arrasa. Ou mesmo um simples e pequeno acidente, como o que vitimou Alexandre o Grande: tomou banho num rio, pegou uma doença e morreu no prazo de poucos dias. O grande homem, conquistador, guerreiro, e que ainda por cima tornou conhecidas universalmente as escrituras dos judeus, permitindo a grande parte da humanidade compreender que há um só e único Deus, foi morto em poucos dias por uma gripe ou algo semelhante. Quem diria? E um Roberto Jefferson surgir de repente mudando os destinos de um país?…Quem diria?….

A finalidade da atividade e o ponto final do ônibus (II)

August 12, 2005

Toda atividade possui um fim próprio. Alguns desses fins são tão úteis em termos práticos que as pessoas se interessam muito por eles. Em conseqüência disso, quem consegue atuar para que se atinja aquele fim adquire prestígio social e outras vantagens. Vai também adquirindo conhecimento sobre os melhores procedimentos para que se chegue àquele fim e esse conhecimento se acumula e é transmitido para outras pessoas. A repetição desses procedimentos desencadeia o surgimento da profissão, cuja finalidade será a manutenção da oferta de meios de se chegar aos fins que interessam as pessoas – saúde, consumo, educação etc.

O nome “profissão” significa ato, declaração ou confissão pública. Portanto, ao aderir a uma profissão, a pessoa está fazendo uma declaração pública de que orientará seus esforços para a produção daquele produto e não de outro.
Como é preciso estar vivo para poder agir, querer, desejar etc., é natural que as profissões que fornecem bens e serviços necessários à vida material mantenham prestígio, mesmo que variável, ao longo do tempo. É o caso, por exemplo, da medicina, da engenharia e do direito.

A reflexão a respeito do fim de cada atividade é de imenso valor. Muito dos descontentamentos, desequilíbrios e desajustamentos de toda ordem, físicos, sociais, psicológicos, não raro cravam suas raízes na combinação de dois elementos positivos que não combinam: de um lado, a vocação do sujeito, a qual é positiva em si mesma; de outro, a inalterável finalidade da profissão que escolheu. Quando ambos não combinam, surgem os problemas.Suponham, por exemplo, um sujeito com vocação artística, festeiro, com facilidade para agitar o ambiente. Possuir essa capacidade é coisa positiva. Imagine-o agora trabalhando num banco, ambiente adequado aos vocacionados à contadoria, pessoas discretas, não raro falam baixo e costumam não gostar de pessoas barulhentas e agitadas. O conflito é inevitável. Conheço um diretor de Departamento de Esportes que odeia esportes, barulho e tem o maior nojo de roupa suada. Fui com ele uma vez ao aeroporto recepcionar uma equipe de atletas. Lá estavam parentes e amigos, com faixas, cantando, fazendo a maior festa. Ele ficava tentando se esconder atrás de pilastras, com vergonha de tudo que estava acontecendo, olhando para os lados como que movido pela necessidade de dar satisfação aos demais presentes e dizer-lhes que nada do que acontecia era por sua culpa.

Quem não conhece Ney Matogrosso? Filho de pai militar, lá pelos 17 anos foi trabalhar no laboratório de anatomia patológica do Hospital de Base de Brasília. Mas isto não durou muito, pois logo ele passou a fazer recreação com crianças. Por certo não seria possível para ele fazer carreira em laboratório, por melhor que lhe pagassem. Gilberto Gil é administrador de empresas por formação o que é impossível imaginar quando o vemos, mesmo ministro, dançando e cantando num encontro com autoridades internacionais. Que dizer do presidente Lula? Sua vocação é evidentemente de tipo artística. Uma coisa é o presidente que já foi artista e outra o artista que finge ser presidente. Ronald Reagan foi um presidente americano que no passado tinha sido artista, mas tinha tanta vocação para a política que foi um dos mais importantes presidentes americanos recentes. E o presidente Lula? Bem, é o que nós brasileiros estamos podendo verificar atualmente, on line: para ser presidente, não basta ser artista.

A finalidade da atividade e o ponto final do ônibus (I)

August 12, 2005

Um dos tópicos que abordo nos cursos que dou sobre vocação é a finalidade da atividade.

O fim de qualquer atividade pode ser comparado ao ponto final de ônibus. Não se espera que alguém, ao entrar num ônibus, fique tentando impor ao motorista itinerário diferente do que já esteja previamente estabelecido. Se quiser isso, deve tomar um táxi ou ir no seu próprio carro. Não é papel do ônibus levar o sujeito aonde ele quiser. O ônibus o deixará num dos locais de parada previamente estabelecidos. Quando alguém entra numa profissão, é como se estivesse tomando um ônibus. Sua autonomia para mudar alguma coisa é pequena, como é no caso de um motorista conhecido ou que conhece bem o trajeto e que pára fora do ponto quando você pede. Mas o motorista de ônibus tem o fiscal que o vigia e pode fazê-lo perder o emprego. Cada profissional tem uma pequena margem de manobra para mudar os rumos de sua profissão e organizações, como os conselhos profissionais, que o fiscalizam e mantêm ou não sua autorização para trabalhar.

Assim como há pessoas que vivem se enganando e pegando ônibus errado, também é comum a escolher ofícios bem distantes da própria vocação. A razão disso? “Foi o que pude conseguir”, muitos dizem, sem se dar conta que a escolha foi feita, às vezes, há mais de dez anos.

As profissões e o dinheiro

July 31, 2005

A relação de qualquer profissão com o dinheiro não é direta. Se uma proporciona mais ganhos num determinado momento, é porque o que ela produz é visto pelas pessoas como sendo algo de valor. Caso contrário, todo profissional de alguma dita profissão “rentável” estaria muito bem de vida, o que a experiência demonstra que não acontece. Há advogados ricos e pobres, assim como médicos, jogadores, comerciantes…
A razão disso? Toda profissão tem uma finalidade própria, a qual não é, na maioria dos casos, ganhar dinheiro.

O momento da importância indiscutível da vocação

July 25, 2005

Um momento de grave crise pessoal ou nacional é o momento em que se nota a indiscutível importância da vocação. Nada mais há com que se possa contar; a crise mostra toda a sua cara; nenhum malabarismo ou prestidigitação tem o poder de criar soluções ilusórias.

Um exemplo histórico recente desta condição foi a crise da Argentina. A falência dos empregadores de toda espécie colocou os argentinos numa situação extrema: cada um teria de providenciar os meios capazes de garantir a vida. Nessas horas, não adianta apenas “bater o cartão de ponto” e pendurar o paletó na cadeira para enganar que está trabalhando. Nessas horas, o que cada um tem de fazer exige seu comprometimento total, do sentimento, da vontade e do intelecto. Isso é o mesmo que dizer que cada um tem que agir conforme a sua vocação.
Os ocupantes de cargos de governo ou empresas, se querem tirar o país daquela situação extrema, teriam de ser os mais competentes e capazes de responder às exigências reais da situação.
O filme "O outro lado da nobreza" (Restoration – EUA, 1995 – 113 min.), com direção de Michael Hoffman, com Robert Downey Jr., Meg Ryan, Sam Neill e Hugh Grant também mostra magistralmente esta verdade: o personagem central da história, vocacionado à medicina, só se compromete totalmente com sua vocação quando perdeu tudo inclusive e principalmente o maior amor de sua vida. Aí só lhe restou o que era dele, estava nele e só poderia ser feito por ele. Foi quando então até o rei o saudou como a um nobre.

É quando não resta mais nada à pessoa que sua vocação mostra toda sua força, pois na verdade é a única coisa que resta e é a primeira e mais importante de todas. Ela é o coringa que Deus deu para cada um de modo a capacitá-lo a ser vitorioso no jogo da vida.

Vocação não é profissão

July 24, 2005

A profissão é efeito da vocação e não o contrário. As profissões surgem e desaparecem. Cada profissão enquadra a inteligência dos que a ela se dedicam, já que nem tudo que uma pessoa tem a oferecer combina com o objetivo da profissão. Por isso, como toda pessoa tem mais a oferecer à vida do que qualquer profissão exige, há sempre uma significativa cota de frustração em toda profissão.

Estava tocando num sushibar, com meu filho, eu piano e ele guitarra. Numa das pausas, ao dirigir-me para a mesa de meus parentes e amigos, os quatro da mesa ao lado me chamaram para elogiar a execução e escolha de músicas. Comentei que tinha notado que eles curtiam música, pois nos aplaudiram várias vezes. Disseram que dois deles costumavam tocar instrumentos — gaita e bateria, mas que tinham parado por falta de tempo. "Além disso, música não dá dinheiro", alguém disse.
O fato é que alguém sempre diz isso quando se fala da profissão de músico. Não respondi na hora, mas se pudesse, teria dito:
Dar ou não dar dinheiro não é a questão, pois depende apenas da capacidade do músico de converter o que faz em dinheiro. Só que isso vale para toda profissão cujo fim não é fazer dinheiro. A medicina, por exemplo, tem como fim a geração de saúde, a engenharia, a construção de estruturas de suporte, a administração visa ao gerenciamento de produtos e capacidades humanas, e assim por diante. Tais ofícios dão dinheiro porque permitem que quem as exerce ofereça bens e serviços pelos quais as pessoas concordam que vale a pena pagar. Mas quem ganha dinheiro é o profissional e não a profissão, caso contrário todo médico, advogado e demais profissionais liberais seriam ricos.
Dinheiro não é objeto próprio da profissão de músico ou de psicólogo. Isso é evidente para quem me conhece, pois exerci a profissão de músico e exerço a de psicólogo e minha capacidade com dinheiro é limitadíssima. Aliás, não sou o único: não é comum encontrar entre músicos e psicólogos, indivíduos hábeis na lide com o dinheiro. Do mesmo modo, é evidente que não há coincidência obrigatória entre a profissão de político e moral, ética e verdade — como a população brasileira está podendo verificar no seu dia-a-dia. É uma ligação falsa da mesma forma que aquela que diz que esta ou aquela profissão dão dinheiro. Afinal de contas, ninguém que se torna político faz votos de castidade, pobreza e obediência, garantias da possibilidade de vida realmente santa.

Qualquer pessoa tem coisas diversas a oferecer, às pessoas, à comunidade, à vida em geral, e o conjunto do que ela pode oferecer à vida é muito maior do que o que qualquer profissão exige. Por isso, imaginar que se pode alcançar a realização pessoal por meio da profissão é uma idéia muito limitada e uma verdade discutível. A realização pessoal do homem decorre da adequação de sua vida à sua vocação e isso é totalmente diferente da adaptação da vocação a alguma profissão. É fundamental que haja essa adequação, evidentemente, já que cada um tem que ganhar seu próprio sustento. Porém, resolvida a questão profissional, sobra muito ainda no homem que interessa não apenas à sua vida pessoal, individualmente considerada, mas também às demais pessoas que o cercam e com ele compartilham a sorte comum.