Archive for the ‘Noologia’ Category

Vocação e liberdade

September 26, 2005

Ser livre é poder agir por deliberação própria. E aquele que age por deliberação própria exibe, no instante da ação, a unidade de gostar, querer e saber; age de maneira vocacionada.O contexto dentro do qual vivo pode ajudar ou impedir meu exercício da liberdade. Quanto mais o contexto permita o desenvolvimento integral da personalidade, melhor para todos; quanto menos, pior para a maioria.

A ação humana dá-se dentro de um contexto que é ao mesmo tempo natural e social. O aspecto natural diz respeito ao que existe independentemente do homem; o social, ao que existe a partir do homem, quer sejam invisíveis — como a linguagem e as leis escritas e não escritas –, quer visíveis como os diversos instrumentos tecnológicos que o homem cria e desenvolve.

Embora a vocação em si mesma possua valor, é preciso que o meio social também a valorize. Se isso não acontecer, aquele que é dotado daquela vocação precisa abdicar dela e optar por atividades que atendam às necessidades da vida. Vocação não é o mesmo que profissão. E se uma determinada vocação não encontra meios para tornar-se profissão, o interesse por ela definha.

Vocação não é só gostar e ter facilidade para aprender a respeito de algo de que gosto; é também vontade de querer aprender a respeito daquilo. E quem vai querer ficar fazendo algo inútil? Se o produto da vocação não desperta interesse no meio social em que se manifesta, a ponto de permitir o provimento da subsistência, o vocacionado, na maioria das vezes, se desinteressará por ela.

Em regimes autoritários, o problema é grave, pois as decisões do que deva ser produzido e comercializado é feito por um número pequeno de agentes. As vocações que não forem compatíveis com o que por estes for determinado, não interessam.

Por isso também nesses regimes se manifestam com força e abrangência social personalidades profundamente deformadas. Por exemplo, para o exercício de certas profissões, é necessário ao profissional que naturalmente consiga estabelecer distância psicológica do cliente – o cirurgião em relação ao que opera, o dentista em relação àquele de que trata, o juiz em relação ao que julga etc. Contudo, uma hipertrofia desta capacidade conduz à indiferença para com o outro; o outro deixa de ser pessoa e é visto e sentido como se fosse uma mera coisa, um objeto auto-movente porém sem alma, despojado de dignidade humana. Foi o que ocorreu no nazismo e no comunismo.

Não é por acaso que em regimes assim diminui barbaramente o interesse pelas vocações que valorizam a interiorização e a individualidade humana.

Ao contrário destes regimes, há outros nos quais a liberdade para as trocas é a máxima possível. Nestes ambientes, há uma fecunda florescência de vocações, já que a maioria delas encontra receptividade para os produtos finais que geram.

A verdadeira liberdade portanto não se confunde com a idéia de se poder fazer tudo que se queira, já que algo assim é impossível.

Florescência fecunda de vocações, desenvolvimento integral da personalidade, liberdade para trocas, são elementos mais do que combinantes; são realidades necessárias ao verdadeiro bem do homem.

Vocação e vida (II)

August 13, 2005

No artigo “Vocação e vida”, esclareci que vocação é a unidade do intelecto, vontade e afetividade. No caso do japonesinho Roberto, observa-se que informática não responde à exigência de unidade de sua alma. Informática é algo que ele sabe, entende, mas de que não gosta a ponto de deixar outras coisas por ela e também não é algo com que queira ficar envolvido de maneira exclusiva e permanente. Seria como se apenas uma terça parte de sua alma estivesse vinculada ao assunto.Isto não quer dizer que informática seja dispensável para ele. Apenas significa que, como assunto principal de sua vida ou profissão, seria muito insatisfatória. Como recurso complementar, totalmente satisfatório.

Tanto que quando lhe pareceu óbvio para sua vida que o caminho era a veterinária, imaginou-se criando um sistema capaz de fornecer informações a respeito de pet shop, cadastro de profissionais da área, preços de serviços etc.

Informática no seu caso nada mais é que uma aptidão. E aptidão é instrumento possível da vocação e não a vocação mesma.

A vocação e a relação com seu objeto

August 13, 2005

Antes de existir a internet, houve um menino de 12 anos, Roberto, que criou em casa, sozinho, uma BBS – Bulletin Board System – ferramenta de comunicação via modem, chegando a ter uns 50 usuários. Feito notável para a época, e acredito que o seria também hoje em dia.Aos 17 anos, veio conversar comigo. Ia mal na escola, a ponto de estar quase repetindo o ano e não parecia se interessar por nada. Pensei comigo mesmo: seu caminho só pode ser a informática. Era engano. Nas conversas, soube por ele que o que mais o havia alegrado na vida tinha sido tratar de um cãozinho doente. Numas férias, havia viajado para a casa de um de seus tios, veterinário de cidade do interior. Imitando os procedimentos do tio, tratou do cãozinho, que se curou. Ficou orgulhoso consigo mesmo. Por causa da BBS, seus pais e amigos valorizavam sua facilidade com computadores. Contudo, não foi aquilo que mexeu com seu coração e sim a veterinária.

Uma vez relembrado, o episódio do cãozinho que curou não lhe saiu mais da cabeça. Sua mãe me perguntou que pozinho mágico usei, já que ele passou a mostrar-se interessado nos assuntos da escola, estava entusiasmado e dizia que ia fazer vestibular pra veterinária. Fez. Passou. Atualmente já deve ter-se formado.

Nas conversas com ele, comparei a criação da BBS e a cura do cãozinho. Mostrei que em ambos os casos ele agia impondo-se sobre o “objeto”. A diferença é que o primeiro, computador e softwares e demais coisas, não informava a respeito de si mesmo ou dele, Roberto. Já o cãozinho, informava sobre si mesmo e sobre ele. Tanto que quando o via abanava o rabo.

Depois de distinguir o resultado final de uma coisa e outra, Roberto disse que não ligava para informática porque por mais sensacional fosse o que fizesse, não sentia nem gratidão nem amizade por parte do computador ou para com ele. No caso de animais, sentia essas coisas e isto lhe dava tamanha alegria que nem sabia descrever.

Isso me faz lembrar Konrad Lorenz, que é autor do livro "A demolição do homem – crítica à falsa religião do progresso” da editora Brasiliense. No livro ele descreve o objeto preferencial de sua vocação: “As minhas sensações de alegria por ‘possuir’ alguma coisa têm por objeto, quase exclusivamente, animais vivos. Quando acontece num aquário que, por mero acaso e sem participação minha, um grupo grande de peixes cresce e se desenvolve, isso me enche de uma profunda satisfação, mesmo que se trate de alguma espécie muito comum e que não tenha para mim nenhum interesse.” (p.99)K. Lorenz se alegra ao presenciar o espetáculo da multiplicação da vida; Roberto, ao presenciar o restauro da saúde do que está vivo.

A vocação é o princípio da capacidade de amar – 3

July 30, 2005

Durante uma das rebeliões do Presídio do Carandiru, algumas mães de presidiários foram entrevistadas. A maioria dizia que o filho estava preso e que judiavam dele. Ninguém dizia que tivessem sido presos injustamente; sabiam que seus filhos tinham sido preso, na maioria das vezes, por terem espalhado o mal, assaltando, estuprando, matando. Por que então choravam por eles? “Porque é meu filho!”

Essas mães, evidentemente, enxergavam em seus filhos tudo o que nós facilmente enxergamos: que não prestavam, eram perigosos etc. Porém, os amavam assim mesmo.

Não se pode imaginar que tais mães esperem obter alguma vantagem mantendo-se fiéis a seus criminosos filhos; que eles lhes sejam úteis de alguma maneira, satisfazendo-lhes alguma cobiça ou desejo pessoal qualquer. Nada disso. É questão de pura e gratuita doação de si ao filho, sem esperança de nada em troca. Interessam-se única e exclusivamente pelo bem de seus filhos.

Refletindo sobre sentimento seria esse, capaz de manter-se atuante com tamanha força, alheio às indiscutíveis provas de que seus destinatários não o mereciam, fiquei convicto de que tratava-se de amor. Em seguida, pareceu-me evidente que o amor não se dirigia a algo que estivesse concretamente presente naquelas criaturas amadas, mas apenas virtualmente ou pelo menos potencialmente, pois as mães não pareciam ignorar nem a criminalidade nem a periculosidae de seus filhos, mas eram capazes de enxergar neles algo que eles poderiam ser, ou algo neles que poderia tê-los tornados gente boa.

Elas certamente não sabem provar que tal fator potencial presente neles poderia até regenerá-los, mas apenas acreditam que há algo assim em seus filhos.

Quando as mães do Carandiru contavam como seus filhos foram na infância, era possível admitir que tivessem razão: “quando criança, ele era muito inteligente; quando começava alguma coisa ia até o fim; era bom com as crianças…” Expressando de maneira técnica o discurso das mães, afirmavam que, quando crianças, seus filhos manifestavam personalidades onde se reuniam intelecto promissor, vontade firme e afetividade atuante. Viam-nos agindo livremente, entendendo e gostando do que faziam; isto é, viam-nos exercendo suas vocações. Amavam-nos por isso, porque os viam sendo o que nunca deveriam ter deixado de ser.

A vocação é o princípio da capacidade de amar – 2

July 26, 2005

Há coisas que só existem no mundo dos homens. A arte por exemplo.

Por mais bela que seja a teia de uma aranha, todas as aranhas daquele espécie a fazem igualzinha; por lindo que seja o canto de tal pássaro, todos de sua espécie cantam igual; por mais inteligente que seja o macaco, o graveto de que faz uso para pegar cupins e comê-los ou mesmo com o qual derruba uma fruta, todos os macacos inteligentes de sua espécie usarão gravetos parecidos para pegarem cupins e derrubarem frutas das árvores. Nessas coisas não há arte, pois não há algo que seja exclusivo de um indivíduo particularmente considerado. Quem quer que tenha perdido seu amado cãozinho de estimação sabe disso: não é possível dizer com certeza “este é o cão que me roubaram”, pois não há muito como distinguir um do outro da mesma raça. Quem tentou sabe.

O que caracteriza a arte é seu elemento original, que é coisa exclusiva daquele determinado artista. É diferente da teia de aranha, a qual é obra de determinada espécie de aranha e não de tal aranha em particular. O mesmo com o canto dos pássaros e gravetos dos macacos. O passarinho se comunica com outro, não faz música. O homem é quem transforma a comunicação do passarinho em arte.
Nunca se viu, nunca se verá uma singularidade canina, ovina ou outra qualquer comparável a um Bach, mesmo a um Zeca Pagodinho e suas cervejísticas peripécias.

Mas não é só arte que existe exclusivamente no mundo dos homens. A ciência, a religião, a filosofia também não existem para os bichos. Os animais não fazem culto, não transmitem saberes certos às gerações seguintes, não explicam nada. Não vivem nem morrem senão pelo que lhes garante a vida material. Nada há na inteligência deles que os faça ter por coisa real algo imprático, algo que não serve de alimento, de proteção física e demais coisas que convêm ao corpo e à vida dos sentidos.

O amor, contudo, não visa ao bem do próprio corpo; se visa ao bem de algum corpo, é ao bem do corpo do outro. Por isso o amor só existe propriamente entre os homens, não entre os bichos. Pois se não há a arte, não há fé; se não há fé, não há amor. E quem duvida que o artista é também homem de fé? Não da mesma fé que é própria da religião, mas assim mesmo fé.

No mundo animal há instinto, não fé. No mundo dos homens, há a fé. Há também o instituto, mas ele é mais deficiente.

Por isso o homem se apaixona e também ama. Do instinto surge a paixão; da fé, o amor. O instinto tem na proteção do próprio corpo seu objetivo final, o mesmo que se dá com a paixão. O amor tem no espírito seu meio de ação e no bem do outro seu objetivo final. Por isso, no amor, sempre se nota a presença da arte e da fé, e na paixão, do sexo, do instinto e tudo que deleita o corpo e amansa temporariamente a alma sem necessariamente refiná-la.

A vocação é o princípio da capacidade de amar – I

July 26, 2005

Amor é diferente de paixão. O primeiro, é reflexo de capacidade que só existe no homem e em nenhum outro animal; a segunda, é reflexo de fatores corporais e psicológicos. Quando a pessoa é movida pelo amor, seu desejo é o de servir ao amado; quando pela paixão, o desejo é que o outro lhe sirva. No amor, a ênfase é na doação de si ao outro; na paixão, é na apropriação do outro. Por isso com razão se diz que o amor enaltece a quem ama e ao mesmo tempo informa muito pouco a respeito do amado.

A vocação espiritual do homem – II

July 21, 2005

Nem sempre é fácil tirar conseqüências práticas de textos como o "A vocação espiritual do homem", que escrevi há uns dias . Por isso, retomo o assunto: quando digo “espiritual”, quero dizer “o que é próprio do homem, o que é exclusivo da inteligência do homem”.
O nome “espírito” significa uma capacidade que só existe no homem e não existe em nenhum outro animal, por isso é um termo adequado para mim. Eu não posso dizer “o espírito presente nas ações da minha cadelinha”, mas posso dizer “o espírito presente nas ações do meu amigo Sidney”. Sidney tem “espírito”, a cachorrinha Mila não tem. Ambos possuem, assim como eu também, inteligência racional, tanto é assim que Mila sabe se quem chegou é pessoa conhecida ou não, sabe se quem chegou é quem a alimenta sempre e assim por diante.
A capacidade de distinguir uma coisa da outra chama-se “razão”. Todos a possuímos. A Mila, como os demais animais, a possuem. Mas “espírito”, só nós homens possuímos.O que faz o “espírito”? Ele nos permite introduzir diferenças em coisas que são aparentemente iguais. Toda vez que dou um pedaço de pão para Mila, ela o come vorazmente, sempre do mesmo jeito e sempre cuidando que eu não vá pegá-lo de volta. Mil vezes que eu dê pão para ela, mil vezes ela se comportará do mesmo jeito. Caso aprenda alguma outra maneira de se comportar, irá repetir esta nova maneira indefinidamente. Mas nós, seres humanos, não. Se fizermos uma mesma coisa mil vezes, somos capazes de fazê-la de maneira mil vezes diferente. Se você estiver interessado em alguém e se esse alguém também estiver interessado em você, repare: se você lhe der um presentinho qualquer, por mais singelo, a pessoa ficará radiante; e pode ficar até ofendida se uma outra pessoa, por quem ela não sente o menor interesse, oferecer-lhe o mais caro dos presentes. Não é questão de o presente ser igual ou diferente, mas sim da sua disposição espiritual, isto é, daquela parte da sua inteligência que só existe nela porque ela é ser humano; do seu espírito, responsável pela sua capacidade para sentir amor. Com a Mila, não: ela gosta de pão e não interessa quem o dê pra ela: ela vai pegá-lo, afastar-se da pessoa e comê-lo rápido antes que alguém o tome dela.

A parte espiritual do homem nunca adormece. Ela pode ficar mal cuidada, mas é sempre atuante, se manifesta sempre, através das mais inocentes ou conseqüentes escolhas.

A vocação é algo comparável ao ouvido: é o ouvido do espírito. É por meio dela que cada pessoa se torna habilitada a atender às suas próprias demandas espirituais. Ficamos o tempo todo tentando atender a essas demandas, mas muitas vezes nos enganamos.

Tentar atender aos apelos de sua vocação é alimentar bem o espírito. Observe uma pessoa que goste de cuidar de pessoas, que fica sempre preocupada com o bem-estar corporal e físico das pessoas. O que se pode dizer dela? Que muito provavelmente tem vocação para certo ramo da medicina, para a enfermagem, independentemente do seu grau de instrução, do seu nível sócio-econômico etc.. Suponha também que ela nunca tenha pensado em se dedicar ao ramo médico. Se for uma mulher, eu pergunto: Como normalmente serão seus namorados? Muito provavelmente do tipo “coitadinhos”, que precisam urgentemente de ajuda, de cuidados? Ela “escutará” certos apelos que a farão crer que ao atendê-los alimentará adequadamente seu espírito. Mesmo que a experiência demonstre que ela namora um coitadinho, passado algum tempo esse coitadinho não é mais coitadinho e dá no pé e a troca por sua melhor amiga.

Seguindo esta linha de raciocínio, tente recordar-se dos casos que conheça de amores frustrados. Veja se os tais amores não combinavam direitinho com a vocação da pessoa frustrada, com o detalhe de que nunca deveriam ter sido namorados, mas amigos ou clientes de alguma atividade profissional.

Habituando-se a prestar atenção neste tipo de coisas, será fácil entender porque certas pessoas são autoritárias, outras falam demais, outras são desconfiadas acima da conta, outras acreditam que é possível agradar a todo mundo e por isso julgam que todo mundo deve ser politicamente correto…Isto é assim porque os seus ouvidos do espírito, ou suas vocações, sinalizam a presença de algo que não está exatamente onde elas acreditam que esteja. A intenção delas é boa, o entendimento de todo o processo que não é. A vocação é firme e forte, a compreensão do que ela exige que não. Daí os enganos.

Vocação e vida

July 5, 2005

Quer saber se o que você está fazendo é manifestação pura e simples de sua vocação ou não? Então responda às seguintes perguntas:a) você entende do que faz?
b) você gosta do que faz?
c) você acha que o que faz é responsabilidade sua?

Se a resposta às três questões for “sim!”, então trata-se de vocação; caso contrário, não.

Você, eu e praticamente todo mundo pensamos saber exatamente o que é conhecimento, sentimento e vontade. Mas tente definir precisamente. Você sabe mesmo? Só que para realmente entender o que é vocação é preciso saber o que são essas coisas com clareza.

Conhecimento é uma palavra que reúne duas noções: a de ser e a de união entre seres. Por exemplo: vejo pela primeira vez um monte de pedras. Não sei a diferença entre uma e outra, já que não conheço pedras. Mas por qualquer motivo – agradar a uma pessoa querida que se interessa por pedras, curiosidade, falta do que fazer – começo a estudar as pedras e a entender o que são, o que as distingue umas das outras e assim por diante. As pedras vão deixando de ser uma coisa estranha para mim: basta eu olhar que já sei distinguir uma da outra. O ser ao qual se dá o nome pedra passou a estar ligado ao meu ser, deixou de ser algo estranho para mim para ser parte integrante de mim, isto é, de minha mente, de minha inteligência. Possuo agora na minha mente uma representação intencional da pedra, que é tão pedra em minha mente quanto a pedra é pedra no mundo exterior.
O termo conhecimento, portanto, resume todo esse processo de transformação de duas coisas (eu e a pedra) em uma só. Antes, eram dois seres diferentes, sem ligação nenhuma e, agora, não deixam de ser dois seres diferentes, porém com uma ligação entre eles: à pedra exterior corresponde a essência da pedra que está na minha mente. Agora, estão unidos (cum) dois seres (esse), o que dá cum + esse, de onde vem conhecer. Conhecimento significa o ato de conhecer.

Sentimento é o resultado de alterações provocadas em mim por alguma coisa externa à minha consciência. Tem coisa que eu conheço aqui e agora, eu sei que conheço, e por isso não constitui para mim novidade. Acontece que, de vez em quando, surge uma informação que é nova para mim e ela me modifica; mas me modifica não só nesta ou naquela parte do corpo, mas globalmente. Quando a modificação é nesta ou naquela parte do corpo trata-se de sensação; quando é global, a ponto de eu não poder dizer que é nesta ou naquela parte do corpo, trata-se de sentimento. Portanto, “sentir é ser afetado”; é ser globalmente alterado por uma certa novidade, é ser alterado “por dentro” de mim mesmo. Dependendo do tipo de alteração, adoto um nome que serve para distingui-la: tristeza, alegria, saudade, depressão, contentamento, e assim por diante.

Vontade é a capacidade que possuo para desencadear efeitos; mas somente os efeitos cuja causa sou eu mesmo. Por exemplo, pego esta chave e tranco a porta; com tal ação provoquei um certo efeito que será conhecido tão logo alguém queira entrar nesta sala. Mas este efeito, que denomino “a porta está trancada” não é causado por mim, e sim pelo esquema mecânico próprio do uso da chave na fechadura da porta. A chave,no entanto, não iria sozinha meter-se na fechadura da porta. É preciso que ela seja transportada até lá por alguém. Eu sou aquele que quis fazê-lo. A primeira causa de a porta estar trancada fui eu, foi a minha vontade; a causa mecânica é apenas um de seus resultados. Em última instância, sou eu quem está no início, na ponta da linha; fui eu quem desencadeou todos os demais efeitos de a porta estar trancada como alguém tentar entrar, desistir e ir fazer outra coisa. A primeira causa sou eu. E vontade é justamente esta capacidade para ser a causa primeira dos efeitos que se seguirão. Assim, o ato da vontade, por ter como causa primeira o próprio sujeito, é sempre criativo. Eu tive vontade de fazer algo e criei o modo de fazê-lo.

Portanto, vocação é a reunião, num ato só, de conhecimento, sentimento e vontade.

Conhecer mas não gostar do que conhece, nem ter vontade de fazer algo com o que se conhece, não é vocação mas apenas um de seus componentes. É aptidão: conheço, sei fazer, mas não me importo com o assunto nem quero me envolver. Por exemplo se na minha casa todo mundo toca algum instrumento e, por isso, eu entendo de música, sei quando há desafinação ou algo está fora do ritmo, mas nunca quero tocar qualquer instrumento, então tenho aptidão para música mas não vocação.
Pode ocorrer o contrário: gosto de música, quero tocar um instrumento, mas não sei fazê-lo. Preciso estudar violão, por exemplo. Já no primeiro mês estou tocando mais e melhor do que a maioria que estuda há mais tempo. Passa o tempo e já supero os alunos mais antigos. Por que isso acontece? Porque gosto (sentimento), quero (vontade) e conheço (conhecimento, razão) com muita facilidade aquele assunto.
Claro que, partindo desta base tríplice de conhecimento, sentimento e vontade, é possível fazer distinções técnicas cada vez mais precisas. Por exemplo, há um certo conhecimento que parece não ter nenhuma origem, já que se manifesta na pessoa desde muito criança, quando ela não teve ainda nenhuma instrução e treinamento formal a respeito do assunto. Há outros conhecimentos que resultam de aprendizado, seja em casa, seja na escola. Por isso as expressões “aptidão ou conhecimento inato ou adquirido”, que esclarecem se a pessoa “já nasceu sabendo” aquilo ou não.

Para saber se o que acabei de explicar é verdadeiro, tem que ser confirmado por fatos, como por exemplo estar presente no discurso de alguém que conheça este assunto e o exponha com outras palavras. É justamente o que acontece no artigo do Consultor Organizacional Roberto Shinyashiki cujo título é “Vocação". Ele escreveu:

“Por mais que escolha a profissão de acordo com a sua vocação, haverá
inúmeras tarefas que não são fáceis de cumprir, mas que você realizará
por amor e por respeito à sua missão e às pessoas que dependem de sua
competência.”

“Respeito à missão” é o mesmo que conhecimento da razão determinante; “amor” é produto da vontade e “respeito às pessoas que dependem de sua competência”, sentimento.
Qualquer que seja a atividade a que a pessoa se dedique, ela pode fazê-lo de maneira vocacionada ou não. Porém, há certas atividades que se mostram ser ocasião propícia para que uma pessoa aja vocacionadamente. Esta ocasião, quando ocorre no campo profissional, é a profissão ideal ou compatível com a vocação.
Há em cada pessoa um conhecimento que se manifesta desde muito cedo, e continua presente nas diversas atitudes que vai tomando durante sua vida. Quando os motivos destas atitudes são valorizados e a eles fornecido o aporte cultural adequado, a pessoa é feliz; caso contrário, não. Nem todas as pessoas têm força de vontade suficiente para enfrentar os obstáculos colocados pelo meio ambiente às suas atitudes, as quais manifestam sua vocação, ou um de seus fortes componentes. O cantor Elton John é um exemplo: além de cantor é compositor, arranjador e pianista. Seu pai era um banqueiro, o qual se opunha veementemente à idéia de que ele se tornasse músico – “música não dá dinheiro”. Seu pai queria que ele ganhasse dinheiro e não enxergava outro melhor meio para isso do que seu ingresso, de corpo e alma, no mercado financeiro.
De fato, não é totalmente infundada a idéia de que música não dá dinheiro, já que na grande maioria dos casos, a vocação musical não se acompanha de aptidão ou mesmo de vocação ao comércio. Não no caso de Elton John. Entre ganhos, lucros e dívidas, ele movimenta fortunas (porque o sujeito que consegue lidar com dívidas muito altas mostra que tem capacidade de lidar com altas cifras, pois nenhum banco empresta dinheiro para você se você não mostrar que tem capacidade de gerar quantidade de dinheiro equivalente).
A vocação de Elton John para a música é imensa e, além disso, não exclui sua participação na vocação familiar, isto é, na vocação ao comércio. De modo que ao contrário do que o pai julgava, ele conseguiu ganhar muito dinheiro com a música.

A vocação não é algo que possa ser ligado ou desligado à vontade. Na verdade, ela nunca está desligada. O que acontece muito é tal assunto não estar claro para a maioria das pessoas insatisfeitas com a própria vida e que ignoram o que fazer para mudá-la para melhor. Por isso, naquele mesmo artigo, Shinyashiki escreve:“Não importa qual a sua idade, é sempre importante dar uma pausa na
correria do trabalho para analisar se você está realizando a sua
vocação.”

Porque vocação e vida são termos praticamente sinônimos. A vida é um eterno acontecer, onde se destacam aqui e ali um estado de alma, uma decisão ou um ato de conhecer. É que a vida, por ser essencialmente dinâmica, e o homem um ser finito e corpóreo, permite a manifestação intensa de cada uma dessas coisas não de maneira simultânea, mas alternada. Mas, olhando bem, analisando bem, passando um pente fino nas atitudes próprias ou alheias, vê-se que lá estão presente conhecimento, amor e sentimento, ou, nas palavras de Shinyashiki, missão ou dever, realização e respeito, formas diferentes de se referir a conhecimento, vontade e sentimento, bem como à sua reunião.

A vocação espiritual do homem

July 4, 2005

Tudo que existe pode ser desejado ou amado por alguém.Se amo uma pessoa, quero estar com ela, vê-la, ouvi-la, sempre. Se estou apaixonado, sinto que quero e posso entendê-la e até me sinto fazendo isso, se por acaso ela também gostar de mim. Mas não são apenas as pessoas que podem ser objetos de nosso amor. O homem é capaz de sentir-se do mesmo jeito por qualquer outra coisa.

O homem é a única criatura viva capaz de viver em qualquer lugar do planeta. Formigas, cães, gatos, pulgas, baratas, pernilongos: só os encontramos em determinados lugares, mas os homens — eles estão em todos os lugares. É porque ele é capaz de se adaptar ou se acostumar com qualquer situação e de alterar qualquer ambiente e adaptá-lo a seus interesses.

Quando gosto muito de algo, quero mostrar para os outros para que também gostem. Mas você gosta de outras coisas, meu vizinho de outras ainda e assim sucessivamente por toda a humanidade de modo que tudo que existe é passível de ser amado, compreendido, sentido.

Ver é coisa mais ampla do que pegar. Minhas mãos permitem que eu pegue isto ou aquilo, mas minha visão permite que eu veja isto, mais aquilo, mais aquilo outro…Não há limite para a quantidade de coisas que eu posso ver.
De todos os órgãos dos sentidos, a vista é o que ocupa a posição mais elevada. Por isso é comparada ao que há mais nobre na inteligência do homem: a capacidade de ver, de enxergar coisas. Como para amar é preciso conhecer e para conhecer mais, ver mais, a criatura que mais consiga ver é a que mais encontra o que amar. Por isso o homem é capaz de amar mais do que qualquer outra criatura e também de amar toda e qualquer coisa.

Quando o sujeito vê algo espetacular, ele quer mostrar esta mesma coisa pra todo mundo. Este é um dos sentidos do “mito da caverna” de Platão: vivendo num mundo de penumbra e sombras, um homem escapa e vê o mundo exterior, a luz do sol e as cores, os movimentos e tudo o mais que existe fora da caverna. Volta para tentar mostrar aos outros que também podem ver o que ele viu. E mesmo que arrisque sua vida para convencê-los, não desiste do empreendimento.

Pela visão, posso “tocar” o que há de mais imaterial..

Entende-se vocação, tradicionalmente, como “chamamento”. “Algo” chama o homem para este ou aquele esquema de vida. Daí surgem os heróis de vários tipos e surgem contentamentos e descontentamento de toda espécie. Sendo o homem como é, capaz de enxergar mais do que qualquer outra criatura – mais distante até do que a águia, por exemplo, pois se esta enxerga longe, o homem enxerga mais longe ainda com suas lunetas, telescópios e microscópios – é natural colocar-se as eternas perguntas “Quem sou eu, de onde vim, para onde vou?” Em busca da resposta, em todas as épocas, o homem criou ciências; ciências que em épocas seguintes serão vistas como superstições, já que as mais atuais, são sentidas como mais perfeitas do que as anteriores. Nessa caminhada de ciência e tecnologia, a vida do homem se descomplica em alguns setores e se complica em outros.

Qual a condição na qual qualquer pessoa pode viver a experiência de esquecer-se de si mesmo, concentrar-se em algo que lhe é exterior e bem servir ao próximo? É justamente a vida profissional.

Quando você procura um profissional, não está interessado nos problemas pessoais que ele tenha, mas quer sua atenção, seu serviço, sua competência. E os terá, caso ele seja vocacionado para o que faz, já que a vocação é justamente a capacidade que o homem possui para relacionar-se com a vida e imitar, nesta relação, o desapego que ocorre sempre que se está diante do que mais ama, quer e é apto a entender.

Quanto mais compatível com a vocação pessoal é a profissão escolhida, mais se fundem o amor e o trabalho, uma coisa passando a existir por causa da outra. Pois todo trabalho é feito em virtude do bem de alguma outra pessoa, do mesmo modo que se estou apaixonado, todos os meus pensamentos são para a minha amada.

É compreensível, então, porque pensamos logo em profissão, quando falamos em vocação. E mais, passamos logo a considerar que é coisa de interesse para o adolescente apenas. Porque presume-se que o adulto, já instalado em sua condição profissional, escolheu algo que ele é capaz de entender, de querer e até de amar. Tanto é que consegue cuidar, com seu trabalho, de mais pessoas do que aquelas que é capaz de vir a conhecer durante toda sua vida.

Tudo isso só é possível ao homem. E o termo que se usa para manifestar algo só presente no homem e em nenhuma outra criatura é “espírito”. Por isso, é correto dizer que é através da sua vocação pessoal que cada pessoa é capaz de realizar a verdadeira vocação espiritual do homem.

A pergunta fundamental

July 2, 2005

"Por que gostam de mim?" Esta é a pergunta que, quando respondida corretamente, permite a qualquer um conhecer qual é sua vocação. Sempre há alguém que realmente gosta de você e os motivos que a fazem gostar mostram o que há de fundamental em você. Isso vale também para se conhecer a vocação de uma outra pessoa — os motivos pelos quais as pessoas gostam dela.É a partir daí que podemos saber se o ofício que escolheu é compatível com ela.