Quer saber se o que você está fazendo é manifestação pura e simples de sua vocação ou não? Então responda às seguintes perguntas:a) você entende do que faz?
b) você gosta do que faz?
c) você acha que o que faz é responsabilidade sua?
Se a resposta às três questões for “sim!”, então trata-se de vocação; caso contrário, não.
Você, eu e praticamente todo mundo pensamos saber exatamente o que é conhecimento, sentimento e vontade. Mas tente definir precisamente. Você sabe mesmo? Só que para realmente entender o que é vocação é preciso saber o que são essas coisas com clareza.
Conhecimento é uma palavra que reúne duas noções: a de ser e a de união entre seres. Por exemplo: vejo pela primeira vez um monte de pedras. Não sei a diferença entre uma e outra, já que não conheço pedras. Mas por qualquer motivo – agradar a uma pessoa querida que se interessa por pedras, curiosidade, falta do que fazer – começo a estudar as pedras e a entender o que são, o que as distingue umas das outras e assim por diante. As pedras vão deixando de ser uma coisa estranha para mim: basta eu olhar que já sei distinguir uma da outra. O ser ao qual se dá o nome pedra passou a estar ligado ao meu ser, deixou de ser algo estranho para mim para ser parte integrante de mim, isto é, de minha mente, de minha inteligência. Possuo agora na minha mente uma representação intencional da pedra, que é tão pedra em minha mente quanto a pedra é pedra no mundo exterior.
O termo conhecimento, portanto, resume todo esse processo de transformação de duas coisas (eu e a pedra) em uma só. Antes, eram dois seres diferentes, sem ligação nenhuma e, agora, não deixam de ser dois seres diferentes, porém com uma ligação entre eles: à pedra exterior corresponde a essência da pedra que está na minha mente. Agora, estão unidos (cum) dois seres (esse), o que dá cum + esse, de onde vem conhecer. Conhecimento significa o ato de conhecer.
Sentimento é o resultado de alterações provocadas em mim por alguma coisa externa à minha consciência. Tem coisa que eu conheço aqui e agora, eu sei que conheço, e por isso não constitui para mim novidade. Acontece que, de vez em quando, surge uma informação que é nova para mim e ela me modifica; mas me modifica não só nesta ou naquela parte do corpo, mas globalmente. Quando a modificação é nesta ou naquela parte do corpo trata-se de sensação; quando é global, a ponto de eu não poder dizer que é nesta ou naquela parte do corpo, trata-se de sentimento. Portanto, “sentir é ser afetado”; é ser globalmente alterado por uma certa novidade, é ser alterado “por dentro” de mim mesmo. Dependendo do tipo de alteração, adoto um nome que serve para distingui-la: tristeza, alegria, saudade, depressão, contentamento, e assim por diante.
Vontade é a capacidade que possuo para desencadear efeitos; mas somente os efeitos cuja causa sou eu mesmo. Por exemplo, pego esta chave e tranco a porta; com tal ação provoquei um certo efeito que será conhecido tão logo alguém queira entrar nesta sala. Mas este efeito, que denomino “a porta está trancada” não é causado por mim, e sim pelo esquema mecânico próprio do uso da chave na fechadura da porta. A chave,no entanto, não iria sozinha meter-se na fechadura da porta. É preciso que ela seja transportada até lá por alguém. Eu sou aquele que quis fazê-lo. A primeira causa de a porta estar trancada fui eu, foi a minha vontade; a causa mecânica é apenas um de seus resultados. Em última instância, sou eu quem está no início, na ponta da linha; fui eu quem desencadeou todos os demais efeitos de a porta estar trancada como alguém tentar entrar, desistir e ir fazer outra coisa. A primeira causa sou eu. E vontade é justamente esta capacidade para ser a causa primeira dos efeitos que se seguirão. Assim, o ato da vontade, por ter como causa primeira o próprio sujeito, é sempre criativo. Eu tive vontade de fazer algo e criei o modo de fazê-lo.
Portanto, vocação é a reunião, num ato só, de conhecimento, sentimento e vontade.
Conhecer mas não gostar do que conhece, nem ter vontade de fazer algo com o que se conhece, não é vocação mas apenas um de seus componentes. É aptidão: conheço, sei fazer, mas não me importo com o assunto nem quero me envolver. Por exemplo se na minha casa todo mundo toca algum instrumento e, por isso, eu entendo de música, sei quando há desafinação ou algo está fora do ritmo, mas nunca quero tocar qualquer instrumento, então tenho aptidão para música mas não vocação.
Pode ocorrer o contrário: gosto de música, quero tocar um instrumento, mas não sei fazê-lo. Preciso estudar violão, por exemplo. Já no primeiro mês estou tocando mais e melhor do que a maioria que estuda há mais tempo. Passa o tempo e já supero os alunos mais antigos. Por que isso acontece? Porque gosto (sentimento), quero (vontade) e conheço (conhecimento, razão) com muita facilidade aquele assunto.
Claro que, partindo desta base tríplice de conhecimento, sentimento e vontade, é possível fazer distinções técnicas cada vez mais precisas. Por exemplo, há um certo conhecimento que parece não ter nenhuma origem, já que se manifesta na pessoa desde muito criança, quando ela não teve ainda nenhuma instrução e treinamento formal a respeito do assunto. Há outros conhecimentos que resultam de aprendizado, seja em casa, seja na escola. Por isso as expressões “aptidão ou conhecimento inato ou adquirido”, que esclarecem se a pessoa “já nasceu sabendo” aquilo ou não.
Para saber se o que acabei de explicar é verdadeiro, tem que ser confirmado por fatos, como por exemplo estar presente no discurso de alguém que conheça este assunto e o exponha com outras palavras. É justamente o que acontece no artigo do Consultor Organizacional Roberto Shinyashiki cujo título é “Vocação". Ele escreveu:
“Por mais que escolha a profissão de acordo com a sua vocação, haverá
inúmeras tarefas que não são fáceis de cumprir, mas que você realizará
por amor e por respeito à sua missão e às pessoas que dependem de sua
competência.”
“Respeito à missão” é o mesmo que conhecimento da razão determinante; “amor” é produto da vontade e “respeito às pessoas que dependem de sua competência”, sentimento.
Qualquer que seja a atividade a que a pessoa se dedique, ela pode fazê-lo de maneira vocacionada ou não. Porém, há certas atividades que se mostram ser ocasião propícia para que uma pessoa aja vocacionadamente. Esta ocasião, quando ocorre no campo profissional, é a profissão ideal ou compatível com a vocação.
Há em cada pessoa um conhecimento que se manifesta desde muito cedo, e continua presente nas diversas atitudes que vai tomando durante sua vida. Quando os motivos destas atitudes são valorizados e a eles fornecido o aporte cultural adequado, a pessoa é feliz; caso contrário, não. Nem todas as pessoas têm força de vontade suficiente para enfrentar os obstáculos colocados pelo meio ambiente às suas atitudes, as quais manifestam sua vocação, ou um de seus fortes componentes. O cantor Elton John é um exemplo: além de cantor é compositor, arranjador e pianista. Seu pai era um banqueiro, o qual se opunha veementemente à idéia de que ele se tornasse músico – “música não dá dinheiro”. Seu pai queria que ele ganhasse dinheiro e não enxergava outro melhor meio para isso do que seu ingresso, de corpo e alma, no mercado financeiro.
De fato, não é totalmente infundada a idéia de que música não dá dinheiro, já que na grande maioria dos casos, a vocação musical não se acompanha de aptidão ou mesmo de vocação ao comércio. Não no caso de Elton John. Entre ganhos, lucros e dívidas, ele movimenta fortunas (porque o sujeito que consegue lidar com dívidas muito altas mostra que tem capacidade de lidar com altas cifras, pois nenhum banco empresta dinheiro para você se você não mostrar que tem capacidade de gerar quantidade de dinheiro equivalente).
A vocação de Elton John para a música é imensa e, além disso, não exclui sua participação na vocação familiar, isto é, na vocação ao comércio. De modo que ao contrário do que o pai julgava, ele conseguiu ganhar muito dinheiro com a música.
A vocação não é algo que possa ser ligado ou desligado à vontade. Na verdade, ela nunca está desligada. O que acontece muito é tal assunto não estar claro para a maioria das pessoas insatisfeitas com a própria vida e que ignoram o que fazer para mudá-la para melhor. Por isso, naquele mesmo artigo, Shinyashiki escreve:“Não importa qual a sua idade, é sempre importante dar uma pausa na
correria do trabalho para analisar se você está realizando a sua
vocação.”
Porque vocação e vida são termos praticamente sinônimos. A vida é um eterno acontecer, onde se destacam aqui e ali um estado de alma, uma decisão ou um ato de conhecer. É que a vida, por ser essencialmente dinâmica, e o homem um ser finito e corpóreo, permite a manifestação intensa de cada uma dessas coisas não de maneira simultânea, mas alternada. Mas, olhando bem, analisando bem, passando um pente fino nas atitudes próprias ou alheias, vê-se que lá estão presente conhecimento, amor e sentimento, ou, nas palavras de Shinyashiki, missão ou dever, realização e respeito, formas diferentes de se referir a conhecimento, vontade e sentimento, bem como à sua reunião.