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A vocação à música

September 18, 2005

- “A música é serva da geometria”, explica Aristóteles. “A arte dos sons”é sua definição.

A arte lida com presenças. O artista, fazendo uso do meio material ou não-material de sua escolha, faz com que o público perceba algum tipo de presença. Este algo que o artista torna presente não é perceptívelpelos sentidos físicos, caso contrário os animais também o perceberiam.Os sentidos externos percebem apenas o meio de que o artista se utiliza; o conteúdo, a arte ali embutida, a presença a ser transmitida: só a inteligência do homem é capaz de percebê-la. O artista povoa o mundo do homem com presenças; coloca lá o que estava ausente e em muitos casos ficaria ausente para sempre, como quando vejo a imagem pintada de um ocaso do sol em terras que nunca fui nem nunca irei.

O músico, artista que é, cria na mente do ouvinte uma presença, a presença de um momento que reúne tanto elementos fíxos e aprendidos quanto outros, situacionais, onde ele age ou padece alguma ação. A chave explicativa de Aristóteles permite compreendê-lo.

A geometria é a ciência da demarcação do espaço.

Ajo a modo de geômetra quando, chegando num lugar, demarco mentalmente o espaço, como quando volto à minha terra natal: vejo um morro, um campanário que se destaca no cume da igreja, a chácara com árvores de copas exuberantes, o riacho, e a leste, norte, sul ou oeste, a casa onde nasci. Caso simplesmente esteja no meio do mato, descubro a direção de nascimento do sol, aponto-lhe a mão direita e a direção leste me é revelada; imediatamente fico sabendo que à esquerda está o oeste, à frente o norte e às minhas costas, a direção sul. É conduta simples, intuitiva, que qualquer um faz sem pensar.

Não posso mudar as cores que percebo, nem a figura dos prédios, nem as dimensões do riacho, pois não posso alterar o que me é dado pela visão –e é com isto que a geometria lida, com o que vejo. Só posso mudar o que vejo caso feche os olhos e permita à minha mente trabalhar sobre as imagens-representações do que vi e que estão retidas na minha memória. De olho aberto, nada posso mudar, e aí está o limite da geometria, que lida com informações visuais.

A música, sendo serva da geometria, também lida com paisagens, com figuras, com prédios, bosques e tudo o mais que nelas haja. Porém, tais paisagens não são dadas aos sentidos do ouvinte mas construídas por ele em resultado do influxo dos sons que sua audição capta. Se ouço algo como a suite orquestral de Bach, não consigo imaginar pessoas se agredindo; se ouço a interpretação de Jimmi Hendrix do hino nacional americano, não consigo deixar de imaginar pessoas se matando. E isto é mesmo assim, mesmo que o intervalo de tempo entre a audição de uma ou outra dessas músicas seja curto. A música me faz ir do céu ao inferno sem que eu saia do lugar.

Mas o céu ou inferno, quando os evoco sob o influxo de músicas,imagino-os como paisagens, onde ocorre alguma ação, a qual pratico ou padeço. Contudo, o céu ou inferno que imagino não é o mesmo que você ou outra pessoa imaginam, já que os construo em minha mente com os elementos que a mim e só a mim pertencem. E nisto difere a música da geometria. A geometria é atividade da mente a partir da visão, passiva em relação aos dados que causam impacto nela; a música é atividade damente a partir da audição, da “visão interior” do homem que, no recesso de sua mente, é ativa e criadora – porque utiliza-se de elementos exclusivamente pertencentes ao sujeito. Quando, ouvindo aquelas suites de Bach, imagino-me caminhando em direção a uma montanha e em seu topo vejo um imponente castelo, este castelo possui matéria, pois castelos são feitos de matéria. Só que esta matéria é a que lhe dou e não aquela que algum europeu conhecedor de castelos sabe quais são. Por isso o“meu” castelo nunca será totalmente igual a nenhum outro que exista.

O ouvinte é ativo na criação das paisagens e situações que a música o estimula a criar. Dependendo das cadências e modulações da música, ele pode criar paisagem compatível com todas as horas do dia e da noite. Ela pode entusiasmá-lo a ponto de fazê-lo imaginar-se acordando e selevantando com o sol, ou fazê-lo imaginar-se sob sol a pino, ou então nos momentos em que irá se preparar para encontrar-se com a amada ou com o momento em que a única coisa que poderá fazer é com ela sonhar.

As paisagens que a música estimula a criar são as que combinam com as diversas horas do dia ou da noite. A beleza ou maior exuberância da paisagem, com todo o dinamismo que ela comporta, dependerá exclusivamente da qualidade da imaginação do ouvinte. Quando ouço as canções infantis que cantava na infância, arranjadas por Villa Lobos, percebo que o que eu nelas enxergava não foi o mesmo que ele enxergou.

Por isso, quando alguém não gosta desta ou daquela música, deste ou daquele tipo de música, por certo é porque não gosta do tipo de paisagem que ela induz sua mente criar.

A vocação à música é portanto o intransmissível dom para agir sobre a mente do ouvinte, a partir da audição, e fazê-la ativamente criar paisagens, compostas com elementos da sua exclusiva realidade interior.