Uma das difíceis questões, que está na raiz de muitos mal-entendidos, é saber o que é ser vencedor ou derrotado na vida.Uns acreditam que ser vencedor na vida é possuir muito dinheiro; outros, ter vida tranqüila ainda que sem muito dinheiro; ainda outros, ter firmes e sólidas amizades com as quais seja possível compartilhar reflexões a respeito da vida e do que a ultrapassa. Com ênfase maior ou menor numa dessas posições, distribuem-se as demais opiniões.
Esta questão não é nova e leva sempre à afirmativa de que a realizaçãona vida dá-se quando se respeitam tanto o indivíduo, quanto seu acesso aos bens e serviços que garantam sua existência material. Ou seja, a realização na vida nem é dependente, nem alheia ao dinheiro; não está sob a dependência exclusiva das preferências subjetivas da pessoa, mas também não pode excluí-las. Uma vida realizada é a combinação de todas essas coisas, já que o ser e o ter só se separam na mente e não na realidade concreta do homem.
Se há alguém que muito bem tratou desta questão e a ela forneceu resposta típica de sábio, foi Eça de Queiroz, escritor português nascido em 1845. Ele e 10 amigos fundaram em Coimbra, Portugal, no dia 26 de março de 1889, a sociedade “Os Vencidos da Vida”, sujeitos que segundo Eça “…oferecem o mais alto exemplo moral e social de que se pode orgulhar este país. 11 sujeitos que há mais de um ano formam um grupo, sem nunca terem partido a cara uns dos outros; sem se dividirem em pequenos grupos de direita e esquerda; sem terem durante todo este tempo nomeado entre si um presidente e um secretário perpétuo; sem se haverem dotado com uma denominação oficial de Reais vencidos da vida ou Vencidos da vida real ou nacional; sem arranjar estatutos aprovados no Governo Civil; sem emitirem ações; sem possuírem hino nem bandeira bordada por um grupo de senhoras “tão anônimas quanto dedicadas”; sem iluminarem no primeiro de Dezembro; sem serem elogiados no Diário de Notícias – estes homens constituem uma tal maravilha social que certamente para o futuro, na ordem das coisas morais, se falará dos onze do Braganza [hotel no qual o grupo costumava reunir-se], como na ordem das coisas heróicas se fala dos doze de Inglaterra.”
A finalidade deste grupo era, “…destapar a terrina da sopa e trocar algumas considerações amargas sobre o Colares.”
Eça prossegue:
“De resto, o sussurro atônito que de cada vez levantam estas refeições periódicas não é obra sua – mas da sociedade que, com tanto interesse, os espreita. Eles comem – a sociedade, estupefacta, murmura. O que é, portanto, estranho, não é o grupo dos Vencidos – o que é estranho, é uma sociedade de tal modo constituída que, no seu seio, assume as proporções dum escândalo histórico, o delírio de 11 sujeitos que uma vez por semana se alimentam.”O fim declarado dessa sociedade era um: tomar sopas e criticar governo e governos e o que mais vier à baila. Seu fim verdadeiro era outro: dar exemplo moral às gerações futuras. E tal sociedade causou escândalo — escândalo do mesmo tipo do que despertaria alguém que, reunindo empresários e intelectuais de peso para discutir soluções necessárias e adequadas para todo o país, alegasse estar fazendo isso sem pretender benefícios políticos, econômicos, sociais mas apenas contribuir para a melhoria de nosso mundo para as gerações futuras.
Quem, pois, são os vencedores ou vencidos da vida?
Em resposta à crítica de Pinheiro Chagas, jornalista e escritor, à designação de “Vencidos” no nome da sociedade, já que se tratavam de figuras eminentes da sociedade da época, Eça de Queiroz escreveu um artigo que se tornaria uma das obras primas da literatura portuguesa, ao qual deu o título de “Os vencidos da vida”. Nele consta a resposta clara a tão instigante questão.
Escreveu:“O que de resto parece irritar o nosso caro Correio da Manhã, é que se chamem Vencidos àqueles que, para todos os efeitos públicos, parecem ser realmente vencedores. Mas que o querido órgão, nosso colega, reflita que, para um homem, o ser vencido ou derrotado na vida depende, não da realidade aparente a que chegou – mas do ideal íntimo a que aspirava. Se um sujeito largou pela existência fora com o ideal supremo de ser oficial de cabeleireiro, este benemérito é um vencedor, um grande vencedor, desde que consegue ter nas mãos uma fagorina e a tesoura para tosquear, embora atravesse pelo Chiado cabisbaixo e de botas cambadas. Por outro lado, se um sujeito, aí pelos vinte anos, quando se escolhe uma carreira, decidiu ser um milionário, um poeta sublime, um general invencível, um dominador de homens (ou de mulheres, segundo as circunstâncias), e se, apesar de todos os esforços e empurrões para diante, fica a meio caminho do milhão, do poema ou do penacho – ele é para todos os efeitos um vencido, um morto da vida, embora se pavoneie por essa Baixa amortalhado numa sobrecasaca do Poole e conservando no chapéu o lustre da resignação.” [O grifo é meu].
Que o leitor faça a experiência: julgue a própria vida à luz deste critério de vitória na vida. Em resposta, verá diante dos próprios olhos os motivos que levam a gostarem de você os que sinceramente gostam. Perceberá quão forte foi o chamamento de sua vocação e o quanto o atendeu ou não. Perceberá que a medida de sua realização é a medida do quanto realizou, no prosseguimento de sua vida, o que sua vocação o convidava a fazê-lo e hoje lhe constitui motivo de alegria ou de tristeza, conforme tenha organizado sua vida em torno dela ou não.