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O surgimento da profissão

July 24, 2005

Uma profissão começa quando surgem pessoas dispostas a pagar pela sua existência e termina quando elas desaparecem.
O que motiva as pessoas a pagar por algo é sua utilidade. Vamos supor a medicina: num dia qualquer, alguém teve algum problema de saúde. Se não sarou sozinho ou morreu, apareceu alguém que procedeu de um certo jeito e contribuiu para sua restauração. Como estar vivo é melhor do que estar morto, os procedimentos associados à recuperação do doente passaram a ser imitados, não por todos, mas por aqueles capazes de prestar atenção no que era feito nesses casos.
Talvez nosso hábito de fumar tenha sido conseqüência de algo assim: os franceses observaram feiticeiros inalando fumaça de gravetos nos quais punham fogo e chupavam e imitaram. Mas os feiticeiros faziam isso provavelmente acreditando que seriam capazes de curar pessoas introduzindo nelas o mesmo o princípio capaz de eliminar tudo – o fogo. Chupar graveto com ponta fumegante seria o mesmo que encher-se de fogo, tornando-se semelhante, por momentos, ao mais superior e mágico dos elementos, cuja propriedade principal é tornar tudo semelhante a si.
Com o passar do tempo e acúmulo de experiência, a associação entre certos procedimentos e a geração de saúde vai naturalmente desencadeando a separação de algumas pessoas da comunidade das demais. A estas a comunidade concorda em obedecer nos casos específicos de necessidade de restauro da saúde; depois na manutenção da saúde e finalmente a comunidade os quer para prevenir doenças ou para garantir que ele lá estará em caso de doença. A ponta final do processo é o surgimento de indivíduos e até de uma classe de pessoas habilitadas ao ofício cujo fim é a cura ou manutenção da saúde.Quando uma comunidade está interessada num número crescente de coisas, não quer dizer que cada indivíduo também esteja interessado em todas essas coisas. Uns sim, outros não. Uma vez que algo adquira importância, é natural que o número de interessados por ela aumente. Porém, toda comunidade se interessa por coisas reais ou que se creiam reais. E é só por tais coisas que as pessoas pagam. Quando alguém cai num golpe e compra o Viaduto do Chá, ou quando compra um carnê que promete prêmio que nunca virá e demais coisas que só lhes tiram dinheiro e posses, não o fazem senão porque supõem estar pagando por coisas reais. A razão de sua conduta é o interesse por algo que lhes parece real, ainda que não o seja. Só que, nesses casos o que aconteceu é que alguns agiram imitando os “verdadeiros” profissionais, isto é, aqueles em que a comunidade deposita fé. Mas mesmo as práticas dos que assim agem, atuando sobre a mente dos desavisados, fazem surgir novas profissões ao mesmo tempo que reforçam outras.
Em todo esse processo de surgimento de profissão, algo me parece indiscutível: todas começam com um sujeito apenas — o sujeito vocacionado a ela. Os seguintes, imitam seus procedimentos, melhorando-os, aperfeiçoando-os.