Algo que sempre me chamou a atenção, ao longo de mais de três décadas de convívio com japoneses, é seu carinho e paciência para cuidar de árvores e plantas. A criação de bonsai é, dentre as diversas artes japonesas, a que mais me impressionou. Ele resulta do corte criterioso da raiz da árvore.
Não sei dizer se a expressão “criação de bonsai” está correta. De qualquer maneira, digo do que se trata: é o cultivo de árvores pequenas, com uns setenta ou oitenta centímetros de altura, exuberantes, que provocam a impressão de serem imensas em virtude da majestade que exibem. Há arvorezinhas com trinta, quarenta e até mais anos. Só mesmo a combinação de uma grande quantidade de carinho, paciência e delicadeza de espírito para gerar arte assim.
O artista, o cultivador (ou criador) de bonsai, tem de conseguir captar o estilo, a singularidade da árvore, para fazer manifestar-se a beleza que só aquela árvore pode manifestar. Não há duas iguais e todas são singularmente bonitas e majestosas.
A dificuldade da tarefa é imensa, já que vegetal não fala, mas apenas está lá; não dá nenhuma informação ativa nem sobre si nem sobre nada do meio. O que a árvore é e o que lhe convém tem de ser captado ou deduzido pelo artista que dela cuida.
A comparação do bonsai com a pessoa humana é coisa praticamente imediata. Pois dá para substituir por pessoa a palavra árvore da frase acima: “…captar o estilo, a singularidade da pessoa, para fazer manifestar-se a beleza que só aquela pessoa pode manifestar. Não há duas iguais e todas são singularmente bonitas e majestosas.”
O bonsai é a árvore exibindo seu grau máximo de beleza, exuberância e majestade, dentro dos pequenos limites que são os seus sessenta ou oitenta centímetros de comprimento. Mas não é também isto que uma criança é? Ou mesmo um adolescente, ou adulto? Quando dizemos que “Fulano é um gigante” não é porque ele meça três, cinco, ou dez metros de altura, mas porque ele manifesta um certo máximo que ele poderia ser – ele manifesta o resultado do fornecimento à sua vocação do aporte cultural adequado, aporte este efetivado sob a forma de carinho e atenção e apoio familiares, adequada instrução escolar e justa recompensa sob a forma de adequada remuneração de seu empenho profissional.
Não dizemos “gigante” ao nos referirmos ao espirituoso ascensorista, ao simpático garçom, ao educado gari, à encantadora e alegre criança, à zelosa vovozinha e a toda miríade de encantos vivos que são cada pessoa de boa vontade que encontramos pelo caminho? Não há termo específico para a elas nos referirmos. Mas indiscutivelmente sentimos em nossa alma atração e encantamento por essas pessoas, do mesmo modo que os “gigantes” pela ciência, arte e demais coisas que alguns vocacionados exibem atraem até eles o apreço das multidões e gerações que se sucedem no tempo. Na presença daqueles outros “gigantes”, em nosso espírito logo surge a idéia de que “se não fosse gari, seria um excelente profissional liberal; quando crescer, continuando assim, será um grande artista; se vovozinha fosse mais jovem e quisesse seguir alguma carreira profissional, seria a melhor mestre de cerimônia do mundo…”, e assim com cada caso.
Nenhum desses valores e virtudes se afirma espontaneamente, sem algum cuidado inteligente, verdade que vale para as arvorezinhas, os bonsai, e também para o ser humano. Pois, de certa maneira, pode-se dizer que o criador de bonsai amplifica a vocação da árvore à beleza que lhe é própria; do mesmo modo que as pessoas e instituições encarregadas da educação do homem amplificam as vocações de cada um, todas diferentes umas das outras, porém, belas, majestosas, encantadoras.
Não há bonsai sem corte de raízes da arvorezinha; não há artista, filósofo ou cientista sem cuidado educacional, sem o “corte das raízes” puramente instintivas do ser humano que, deixadas à própria sorte, aderem ao mal e ao ruim e, com o tempo, banalizam o ser humano.