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As catástrofes naturais, as humanas, e as vocações

September 3, 2005

Vi Winston Marsalis, trumpetista, apresentando-se para ajudar a população de New Orleans, terra do jazz, completamente inundada devido ao furacão Katrina. As boas recordações que as cenas de sua apresentação me provocaram cederam lugar a uma pergunta que não mais me deixou: que tipo de vocação é valorizada pelo povo acostumado a enfrentar catástrofes naturais e pelo acostumado a enfrentar catástrofes humanas?A resposta que me parece imediata é: quando o adubo que nutre as vocações é a luta contra catástrofe natural, o povo admira e valoriza as vocações que geram indivíduos capazes de resolver problemas reais e concretos; quando a experiência do povo é do padecimento por catástrofes humanas, o povo valoriza as vocações que geram sujeitos enrolões, histriões, falastrões, o que parece ser o caso de nós brasileiros. Pois parecemos acreditar que mais vale ser esperto e enrolão do que bom médico, bom engenheiro, bom alguma coisa. Tais diferenças me chamaram a atenção de maneira muito aguda nos japoneses, com que convivo.O japonês é um povo que viveu grande parte de sua história tendo de reconstruir tudo, já que o Japão é um conjunto de ilhas que volta e meia balançam e jogam as construções no chão e daí surgiu um povo que sabe quanto custa produzir e vender coisas.

Os povos europeus, bem como os americanos do norte, vivem a realidade de que há épocas do ano em que não poderão nem plantar, nem colher, nem caçar. Aí talvez esteja a razão porque os da terra do jazz certamente conseguirão reconstruir sua cidade e suas vidas mais rápido do que nós brasileiros seríamos capazes. Nunca vivemos, por obra e graça da natureza, a terrível experiência de perder absolutamente tudo, de vermos a cidade em que vivemos totalmente inviabilizada. Algo assim já aconteceu numa ou noutra cidade do Brasil, mas não tinha ninguém lá – quando se criaram as grandes barragens das grandes usinas hidrelétricas. Se isto pode ser chamado de catástrofe, foi catástrofe humana, que parece não excitar o surgimento de vocações científicas e pedagógicas tanto quanto Katrinas e tempestades de neve.Toda semana analiso dezenas de respostas a um questinário vocacional de minha elaboração, cuja primeira pergunta é “Por que gostam de você?”(*) e em muitos casos fico completamente persuadido que estou cara-a-cara com jovens capazes de adquirir uma cultura superior que o habilite ao exercício de importantes funções administrativas, científicas, e outras, tudo dependendo de que ao longo de suas vidas pessoas ou instituições valorizem suas vocações. Se ao ver Winston Marsalis, exímio trumpetista, tocando como seus avós e bisavós tocavam – com técnica não européia –, em sinal de respeito a eles, e movido pelo desejo de ajudar seus compatriotas de New Orleans, meu coração se encheu de admiração, no momento seguinte senti-o encher-se de apreensão. É que em seguida vi um um senador petista, vestido num terno caro e exibindo ar sério, propondo mudança na lei de financiamento de campanhas eleitorais, como se a ausência de lei positiva, isto é, escrita e jurada, fosse a a causa da tão desavergonhada conduta de seu partido. Age como criança que na manhã do dia seguinte reclama com sua mãe não a ter obrigado a fazer a lição de casa na noite anterior, ainda que a mãe explicasse “É que você estava tão cansado, meu filho, que nem conseguia ficar de olho aberto!”. Homem pedindo para si e seus pares o que convém a crianças. Uma coisa me parece certa: as vocações que vicejam e são valorizadas entre os povos cujo sofrimento resulta de evento originado da temível e incontrolada natureza são diferentes das que entre nós surgem e crescem; nós cujos sofrimentos e perdas são causadas pelo próprio homem. Vemos filas enormes, cheias de diplomados em curso superior, habilitando-se a vaga de gari, quando os vocacionados à indústria da diversão e deleite supérfluos ganham fortunas e vão à TV discutir temas para os quais nunca se prepararam e julgando fazer o bem, desencaminham significativa parte da juventude com seus exemplos e conselhos excêntricos. Nunca é má hora de valorizar as tantas e promissoras vocações ao estudo superior que há no Brasil. Quem sabe a vida de nós brasileiros possa ser mais sensatamente vivida, e sem tanta burocracia seja possível afastar da vida pública a gentalha que encarece tanto a vida de todos alegando estarem lutando por justiça social. (*) Vide a primeira postagem deste blog, “A pergunta fundamental”, onde menciono a importância capital desta questão.