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A família e a vocação – Lição 2

April 17, 2006

A necessidade de carinho, atenção, aconchego, presente no homem, não é exclusiva do homem. Ela está presente também no animal.

O que aprendi a conhecer na prática. Eu costumava ir uma ou duas vezes por mês ao sítio de um amigo, também psicólogo. Havia lá no sítio uma vaca (Fortuna) e dois bezerros (Potoco e um outro cujo nome não me lembro). Fortuna pariu Potoco. Para que este não ficasse sozinho, o amigo comprou o “outro-cujo-nome-não-me-lembro”. Fortuna, porém, só deixava Potoco mamar em suas tetas; o outro, não. Curiosamente (para mim, pelo menos), Potoco foi se tornando um bezerro dócil, amável, que bastava alguém chamá-lo pelo nome que ele atendia. O outro, rejeitado, foi desenvolvendo uma personalidade de maloqueiro; tão logo atingiu tamanho suficiente, passou a dar preferência a trilhas que nem Fortuna, nem Potoco nem nós, seres humanos, costumávamos usar. Eram locais locais perigosos, por serem ribanceiras, estarem próximas à margem do riacho que corria no plano abaixo daquelas trilhas, vegetação cerrada que poderia ser ninho de cobras…Até que aconteceu de ele cair numa ribanceira, quebrar a perna e ter de ser sacrificado. Suas carnes foram doadas a uma instituição local que cuidava de pessoas carentes, pois o amigo disse: “Maloqueiro ou não, era tanto membro da família quanto Fortuna e Potoco. Não poderia comer suas carnes.”

Por isso se diz que quando os pais dão atenção e carinho aos filhos, não são merecedores de elogios; quando nem isso dão, tornam-se merecedores dos mais severos vilipêndios. Pois aí o que se está recusando não é o amor, mas algo de natureza inferior, uma vez que é coisa necessária até aos animais, cuja recusa distorce sua personalidade.

Se os animais, portadores de inteligência limitada, apreendem as intenções que os seus pares têm com relação a eles, quanto mais o ser humano, ainda que bebê. A limitação mesma da inteligência do animal permite, em muitos casos, a reversão dos efeitos de uma infância problemática. Ajuda neste processo o fato de ele ao nascer estar pronto para a vida, num grau tal que o homem, para atingir tal nível de prontidão, precisaria permanecer no útero materno quase que o dobro do tempo em que lá permanece. Mas tais distorções, uma vez ocorridas no homem, em seus inícios, não prometem reversão, mas condicionam os desdobramentos futuros de toda sua personalidade.

Devido a esta não-prontidão biológica do bebê humano, é necessário elevada dose de persistência na atenção e carinho para com ele. E em resultado também dessa não-prontidão, sua resposta global aos estímulos mantém-se como padrão por mais anos do que seria admissível em organismos já plenamente desenvolvidos, como se dá com os animais.

O primeiro impacto da família sobre a vocação se dá, portanto, em virtude da maneira como os pais estabelecem relações presenciais com sua criança. A linguagem no sentido humano do termo, a linguagem articulada, conta pouco. O que conta é a linguagem significada pelo modo de presença, pelas atitudes que os adultos – no caso, os pais – adotam para com a criança. Caso falte o amor, é difícil supor que haja atenção, carinho, aconchego, e demais condutas que atendem a necessidades físicas e psicológicas do homem na sua segunda fase de existência (a primeira é a fase intra-útero).

Para maior clareza a respeito da reação global de toda a personalidade pelo bebê, basta ter em mente que é só na primeira e segunda fase de sua existência que o homem pode, por um só ato da mãe, ser atendido em todas as suas necessidades físicas e psicológicas. Só na primeira e segunda fases de sua existência é possível o atendimento simultâneo de tais necessidas. Com o amadurecimento biológico, calcificação dos ossos, especialização dos sentidos, etc., o atendimento de tais necessidades só pode dar-se sucessivamente, quer dizer, ou se aconchega a criança, ou a alimenta, as duas coisas não podendo ser feitas de uma só vez. Vejamos como se dá isso.

Quando a mãe amamenta o bebê, atende necessidades que vão da ordem física até a ordem psicológica. Discriminando o que é atendido:

- a necessidade que tem o organismo de ter sua temperatura aumentada ou preservada, o que resulta do contato do corpo da mãe com o do bebê no ato de amamentar. (Tenha-se em mente que temperatura é objeto de estudo da Física); – a necessidade de absorção, pelo organismo, de nutrientes (cujo estudo são objetos de estudo da Química e da Biologia);

- a necessidade de proteção contra os diversos e incompreensíveis estímulos exteriores à consciência (o que é objeto da Psicologia). Aqui incluem-se também a ritmação do pulso cardíaco do bebê, o que os batimentos cardíacos da mãe proporcionam, bem como seus cantos e palavras ternas e carinhosas. E outras particularidades que possam ser aqui arroladas.

Como o homem é a criatura capaz de privilegiar o bem do outro em detrimento de si mesmo – capacidade cujo nome é amor – a intenção de acolhimento do filho permanece real muito além de qualquer limite físico. No caso dos animais, do cão por exemplo, o instinto de cuidar da mãe permanece enquanto estão presentes em sua corrente sangüínea certos hormônios que condicionam seu attachment. O esvaimento desses hormônios coincidem com a maturação muscular da cria, quando então ela passa a ser vista como concorrente. Que a partir deste momento a cria não tente comer a comida da sua mãe!… No homem, este attachment prossegue para além da vida física, para além da morte, na verdade.

Portanto, a presença, amorosa ou não dos pais, condiciona o desenvolvimento adequado ou desviado da vocação de seu filho, já que a vocação possui como um de seus componentes fundamentais a herança psicogenética e sua especialização durante os longos anos em que a linguagem verdadeiramente articulada está ausente da inteligência do homem.