Vocação e liberdade

By Joel Nunes dos Santos

Ser livre é poder agir por deliberação própria. E aquele que age por deliberação própria exibe, no instante da ação, a unidade de gostar, querer e saber; age de maneira vocacionada.O contexto dentro do qual vivo pode ajudar ou impedir meu exercício da liberdade. Quanto mais o contexto permita o desenvolvimento integral da personalidade, melhor para todos; quanto menos, pior para a maioria.

A ação humana dá-se dentro de um contexto que é ao mesmo tempo natural e social. O aspecto natural diz respeito ao que existe independentemente do homem; o social, ao que existe a partir do homem, quer sejam invisíveis — como a linguagem e as leis escritas e não escritas –, quer visíveis como os diversos instrumentos tecnológicos que o homem cria e desenvolve.

Embora a vocação em si mesma possua valor, é preciso que o meio social também a valorize. Se isso não acontecer, aquele que é dotado daquela vocação precisa abdicar dela e optar por atividades que atendam às necessidades da vida. Vocação não é o mesmo que profissão. E se uma determinada vocação não encontra meios para tornar-se profissão, o interesse por ela definha.

Vocação não é só gostar e ter facilidade para aprender a respeito de algo de que gosto; é também vontade de querer aprender a respeito daquilo. E quem vai querer ficar fazendo algo inútil? Se o produto da vocação não desperta interesse no meio social em que se manifesta, a ponto de permitir o provimento da subsistência, o vocacionado, na maioria das vezes, se desinteressará por ela.

Em regimes autoritários, o problema é grave, pois as decisões do que deva ser produzido e comercializado é feito por um número pequeno de agentes. As vocações que não forem compatíveis com o que por estes for determinado, não interessam.

Por isso também nesses regimes se manifestam com força e abrangência social personalidades profundamente deformadas. Por exemplo, para o exercício de certas profissões, é necessário ao profissional que naturalmente consiga estabelecer distância psicológica do cliente – o cirurgião em relação ao que opera, o dentista em relação àquele de que trata, o juiz em relação ao que julga etc. Contudo, uma hipertrofia desta capacidade conduz à indiferença para com o outro; o outro deixa de ser pessoa e é visto e sentido como se fosse uma mera coisa, um objeto auto-movente porém sem alma, despojado de dignidade humana. Foi o que ocorreu no nazismo e no comunismo.

Não é por acaso que em regimes assim diminui barbaramente o interesse pelas vocações que valorizam a interiorização e a individualidade humana.

Ao contrário destes regimes, há outros nos quais a liberdade para as trocas é a máxima possível. Nestes ambientes, há uma fecunda florescência de vocações, já que a maioria delas encontra receptividade para os produtos finais que geram.

A verdadeira liberdade portanto não se confunde com a idéia de se poder fazer tudo que se queira, já que algo assim é impossível.

Florescência fecunda de vocações, desenvolvimento integral da personalidade, liberdade para trocas, são elementos mais do que combinantes; são realidades necessárias ao verdadeiro bem do homem.

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