Archive for September, 2005

Vocação e liberdade

September 26, 2005

Ser livre é poder agir por deliberação própria. E aquele que age por deliberação própria exibe, no instante da ação, a unidade de gostar, querer e saber; age de maneira vocacionada.O contexto dentro do qual vivo pode ajudar ou impedir meu exercício da liberdade. Quanto mais o contexto permita o desenvolvimento integral da personalidade, melhor para todos; quanto menos, pior para a maioria.

A ação humana dá-se dentro de um contexto que é ao mesmo tempo natural e social. O aspecto natural diz respeito ao que existe independentemente do homem; o social, ao que existe a partir do homem, quer sejam invisíveis — como a linguagem e as leis escritas e não escritas –, quer visíveis como os diversos instrumentos tecnológicos que o homem cria e desenvolve.

Embora a vocação em si mesma possua valor, é preciso que o meio social também a valorize. Se isso não acontecer, aquele que é dotado daquela vocação precisa abdicar dela e optar por atividades que atendam às necessidades da vida. Vocação não é o mesmo que profissão. E se uma determinada vocação não encontra meios para tornar-se profissão, o interesse por ela definha.

Vocação não é só gostar e ter facilidade para aprender a respeito de algo de que gosto; é também vontade de querer aprender a respeito daquilo. E quem vai querer ficar fazendo algo inútil? Se o produto da vocação não desperta interesse no meio social em que se manifesta, a ponto de permitir o provimento da subsistência, o vocacionado, na maioria das vezes, se desinteressará por ela.

Em regimes autoritários, o problema é grave, pois as decisões do que deva ser produzido e comercializado é feito por um número pequeno de agentes. As vocações que não forem compatíveis com o que por estes for determinado, não interessam.

Por isso também nesses regimes se manifestam com força e abrangência social personalidades profundamente deformadas. Por exemplo, para o exercício de certas profissões, é necessário ao profissional que naturalmente consiga estabelecer distância psicológica do cliente – o cirurgião em relação ao que opera, o dentista em relação àquele de que trata, o juiz em relação ao que julga etc. Contudo, uma hipertrofia desta capacidade conduz à indiferença para com o outro; o outro deixa de ser pessoa e é visto e sentido como se fosse uma mera coisa, um objeto auto-movente porém sem alma, despojado de dignidade humana. Foi o que ocorreu no nazismo e no comunismo.

Não é por acaso que em regimes assim diminui barbaramente o interesse pelas vocações que valorizam a interiorização e a individualidade humana.

Ao contrário destes regimes, há outros nos quais a liberdade para as trocas é a máxima possível. Nestes ambientes, há uma fecunda florescência de vocações, já que a maioria delas encontra receptividade para os produtos finais que geram.

A verdadeira liberdade portanto não se confunde com a idéia de se poder fazer tudo que se queira, já que algo assim é impossível.

Florescência fecunda de vocações, desenvolvimento integral da personalidade, liberdade para trocas, são elementos mais do que combinantes; são realidades necessárias ao verdadeiro bem do homem.

Os vencidos da vida

September 23, 2005

Uma das difíceis questões, que está na raiz de muitos mal-entendidos, é saber o que é ser vencedor ou derrotado na vida.Uns acreditam que ser vencedor na vida é possuir muito dinheiro; outros, ter vida tranqüila ainda que sem muito dinheiro; ainda outros, ter firmes e sólidas amizades com as quais seja possível compartilhar reflexões a respeito da vida e do que a ultrapassa. Com ênfase maior ou menor numa dessas posições, distribuem-se as demais opiniões.

Esta questão não é nova e leva sempre à afirmativa de que a realizaçãona vida dá-se quando se respeitam tanto o indivíduo, quanto seu acesso aos bens e serviços que garantam sua existência material. Ou seja, a realização na vida nem é dependente, nem alheia ao dinheiro; não está sob a dependência exclusiva das preferências subjetivas da pessoa, mas também não pode excluí-las. Uma vida realizada é a combinação de todas essas coisas, já que o ser e o ter só se separam na mente e não na realidade concreta do homem.

Se há alguém que muito bem tratou desta questão e a ela forneceu resposta típica de sábio, foi Eça de Queiroz, escritor português nascido em 1845. Ele e 10 amigos fundaram em Coimbra, Portugal, no dia 26 de março de 1889, a sociedade “Os Vencidos da Vida”, sujeitos que segundo Eça “…oferecem o mais alto exemplo moral e social de que se pode orgulhar este país. 11 sujeitos que há mais de um ano formam um grupo, sem nunca terem partido a cara uns dos outros; sem se dividirem em pequenos grupos de direita e esquerda; sem terem durante todo este tempo nomeado entre si um presidente e um secretário perpétuo; sem se haverem dotado com uma denominação oficial de Reais vencidos da vida ou Vencidos da vida real ou nacional; sem arranjar estatutos aprovados no Governo Civil; sem emitirem ações; sem possuírem hino nem bandeira bordada por um grupo de senhoras “tão anônimas quanto dedicadas”; sem iluminarem no primeiro de Dezembro; sem serem elogiados no Diário de Notícias – estes homens constituem uma tal maravilha social que certamente para o futuro, na ordem das coisas morais, se falará dos onze do Braganza [hotel no qual o grupo costumava reunir-se], como na ordem das coisas heróicas se fala dos doze de Inglaterra.”

A finalidade deste grupo era, “…destapar a terrina da sopa e trocar algumas considerações amargas sobre o Colares.”

Eça prossegue:

“De resto, o sussurro atônito que de cada vez levantam estas refeições periódicas não é obra sua – mas da sociedade que, com tanto interesse, os espreita. Eles comem – a sociedade, estupefacta, murmura. O que é, portanto, estranho, não é o grupo dos Vencidos – o que é estranho, é uma sociedade de tal modo constituída que, no seu seio, assume as proporções dum escândalo histórico, o delírio de 11 sujeitos que uma vez por semana se alimentam.”O fim declarado dessa sociedade era um: tomar sopas e criticar governo e governos e o que mais vier à baila. Seu fim verdadeiro era outro: dar exemplo moral às gerações futuras. E tal sociedade causou escândalo — escândalo do mesmo tipo do que despertaria alguém que, reunindo empresários e intelectuais de peso para discutir soluções necessárias e adequadas para todo o país, alegasse estar fazendo isso sem pretender benefícios políticos, econômicos, sociais mas apenas contribuir para a melhoria de nosso mundo para as gerações futuras.

Quem, pois, são os vencedores ou vencidos da vida?

Em resposta à crítica de Pinheiro Chagas, jornalista e escritor, à designação de “Vencidos” no nome da sociedade, já que se tratavam de figuras eminentes da sociedade da época, Eça de Queiroz escreveu um artigo que se tornaria uma das obras primas da literatura portuguesa, ao qual deu o título de “Os vencidos da vida”. Nele consta a resposta clara a tão instigante questão.

Escreveu:“O que de resto parece irritar o nosso caro Correio da Manhã, é que se chamem Vencidos àqueles que, para todos os efeitos públicos, parecem ser realmente vencedores. Mas que o querido órgão, nosso colega, reflita que, para um homem, o ser vencido ou derrotado na vida depende, não da realidade aparente a que chegou – mas do ideal íntimo a que aspirava. Se um sujeito largou pela existência fora com o ideal supremo de ser oficial de cabeleireiro, este benemérito é um vencedor, um grande vencedor, desde que consegue ter nas mãos uma fagorina e a tesoura para tosquear, embora atravesse pelo Chiado cabisbaixo e de botas cambadas. Por outro lado, se um sujeito, aí pelos vinte anos, quando se escolhe uma carreira, decidiu ser um milionário, um poeta sublime, um general invencível, um dominador de homens (ou de mulheres, segundo as circunstâncias), e se, apesar de todos os esforços e empurrões para diante, fica a meio caminho do milhão, do poema ou do penacho – ele é para todos os efeitos um vencido, um morto da vida, embora se pavoneie por essa Baixa amortalhado numa sobrecasaca do Poole e conservando no chapéu o lustre da resignação.” [O grifo é meu].

Que o leitor faça a experiência: julgue a própria vida à luz deste critério de vitória na vida. Em resposta, verá diante dos próprios olhos os motivos que levam a gostarem de você os que sinceramente gostam. Perceberá quão forte foi o chamamento de sua vocação e o quanto o atendeu ou não. Perceberá que a medida de sua realização é a medida do quanto realizou, no prosseguimento de sua vida, o que sua vocação o convidava a fazê-lo e hoje lhe constitui motivo de alegria ou de tristeza, conforme tenha organizado sua vida em torno dela ou não.

A vocação à música

September 18, 2005

- “A música é serva da geometria”, explica Aristóteles. “A arte dos sons”é sua definição.

A arte lida com presenças. O artista, fazendo uso do meio material ou não-material de sua escolha, faz com que o público perceba algum tipo de presença. Este algo que o artista torna presente não é perceptívelpelos sentidos físicos, caso contrário os animais também o perceberiam.Os sentidos externos percebem apenas o meio de que o artista se utiliza; o conteúdo, a arte ali embutida, a presença a ser transmitida: só a inteligência do homem é capaz de percebê-la. O artista povoa o mundo do homem com presenças; coloca lá o que estava ausente e em muitos casos ficaria ausente para sempre, como quando vejo a imagem pintada de um ocaso do sol em terras que nunca fui nem nunca irei.

O músico, artista que é, cria na mente do ouvinte uma presença, a presença de um momento que reúne tanto elementos fíxos e aprendidos quanto outros, situacionais, onde ele age ou padece alguma ação. A chave explicativa de Aristóteles permite compreendê-lo.

A geometria é a ciência da demarcação do espaço.

Ajo a modo de geômetra quando, chegando num lugar, demarco mentalmente o espaço, como quando volto à minha terra natal: vejo um morro, um campanário que se destaca no cume da igreja, a chácara com árvores de copas exuberantes, o riacho, e a leste, norte, sul ou oeste, a casa onde nasci. Caso simplesmente esteja no meio do mato, descubro a direção de nascimento do sol, aponto-lhe a mão direita e a direção leste me é revelada; imediatamente fico sabendo que à esquerda está o oeste, à frente o norte e às minhas costas, a direção sul. É conduta simples, intuitiva, que qualquer um faz sem pensar.

Não posso mudar as cores que percebo, nem a figura dos prédios, nem as dimensões do riacho, pois não posso alterar o que me é dado pela visão –e é com isto que a geometria lida, com o que vejo. Só posso mudar o que vejo caso feche os olhos e permita à minha mente trabalhar sobre as imagens-representações do que vi e que estão retidas na minha memória. De olho aberto, nada posso mudar, e aí está o limite da geometria, que lida com informações visuais.

A música, sendo serva da geometria, também lida com paisagens, com figuras, com prédios, bosques e tudo o mais que nelas haja. Porém, tais paisagens não são dadas aos sentidos do ouvinte mas construídas por ele em resultado do influxo dos sons que sua audição capta. Se ouço algo como a suite orquestral de Bach, não consigo imaginar pessoas se agredindo; se ouço a interpretação de Jimmi Hendrix do hino nacional americano, não consigo deixar de imaginar pessoas se matando. E isto é mesmo assim, mesmo que o intervalo de tempo entre a audição de uma ou outra dessas músicas seja curto. A música me faz ir do céu ao inferno sem que eu saia do lugar.

Mas o céu ou inferno, quando os evoco sob o influxo de músicas,imagino-os como paisagens, onde ocorre alguma ação, a qual pratico ou padeço. Contudo, o céu ou inferno que imagino não é o mesmo que você ou outra pessoa imaginam, já que os construo em minha mente com os elementos que a mim e só a mim pertencem. E nisto difere a música da geometria. A geometria é atividade da mente a partir da visão, passiva em relação aos dados que causam impacto nela; a música é atividade damente a partir da audição, da “visão interior” do homem que, no recesso de sua mente, é ativa e criadora – porque utiliza-se de elementos exclusivamente pertencentes ao sujeito. Quando, ouvindo aquelas suites de Bach, imagino-me caminhando em direção a uma montanha e em seu topo vejo um imponente castelo, este castelo possui matéria, pois castelos são feitos de matéria. Só que esta matéria é a que lhe dou e não aquela que algum europeu conhecedor de castelos sabe quais são. Por isso o“meu” castelo nunca será totalmente igual a nenhum outro que exista.

O ouvinte é ativo na criação das paisagens e situações que a música o estimula a criar. Dependendo das cadências e modulações da música, ele pode criar paisagem compatível com todas as horas do dia e da noite. Ela pode entusiasmá-lo a ponto de fazê-lo imaginar-se acordando e selevantando com o sol, ou fazê-lo imaginar-se sob sol a pino, ou então nos momentos em que irá se preparar para encontrar-se com a amada ou com o momento em que a única coisa que poderá fazer é com ela sonhar.

As paisagens que a música estimula a criar são as que combinam com as diversas horas do dia ou da noite. A beleza ou maior exuberância da paisagem, com todo o dinamismo que ela comporta, dependerá exclusivamente da qualidade da imaginação do ouvinte. Quando ouço as canções infantis que cantava na infância, arranjadas por Villa Lobos, percebo que o que eu nelas enxergava não foi o mesmo que ele enxergou.

Por isso, quando alguém não gosta desta ou daquela música, deste ou daquele tipo de música, por certo é porque não gosta do tipo de paisagem que ela induz sua mente criar.

A vocação à música é portanto o intransmissível dom para agir sobre a mente do ouvinte, a partir da audição, e fazê-la ativamente criar paisagens, compostas com elementos da sua exclusiva realidade interior.

O impacto da vocação

September 17, 2005

A vocação cria as profissões e as ciências. As profissões e as ciências por sua vez são aspectos da inteligência do homem em ação. São expressões depuradas, a ciência mais do que a profissão, de operações particulares da inteligência. Por isso são seletivas, não admitindo pertencer-lhes toda e qualquer pessoa, todo e qualquer tipo de inteligência.Se as profissões são todas, sem exceção, práticas, as ciências não. Elas são ou práticas ou teóricas. Por exemplo, a medicina é uma ciência eminentemente prática; a física, fundamentalmente teórica, assim com a matemática, que lhe serve de instrumento.

As ciências práticas valorizam, no seu desenvolvimento, os dados dos sentidos. Daí a imensa compatibilidade das novas tecnologias de observação com a medicina, onde a clínica vai cedendo cada vez mais espaço ao instrumento. As teóricas valorizam o raciocínio, a capacidade do cientista matematizar e criar algoritmos ao mesmo tempo simples e abrangentes. Einsten exemplifica isto, ao expor o seu pensamento sob a fórmula E=mc2. Ainda que sejam necessários árduos estudos, durante vários anos, para compreender o sentido e valor desta fórmula, ela é simples e abrangente.

Analisando os fundamentos de determinada ciência, levando em conta a posição que ocupa entre os extremos – se eminentemente prática ou se puramente teórica – podemos identificar que operações da inteligência ela exige mais intensamente. Assim, é visível que a medicina se funda em provas materiais. A operação da inteligência que tem por função apresentar o dado à consciência é a intuição ou percepção. Logo, a medicina pode ser dita fundamentalmente baseada no caráter intuitivo (ou percepitivo) da inteligência. O mesmo não se pode dizer da Física. Sendo o seu objeto a estrutura dos entes físicos, e não sendo possível vê-los, só é possível deduzí-los. A operação da inteligência responsável pela dedução é a razão. A ciência (ou arte) da guerra ocupa uma posição intermédia, isto é, não se crava exclusivamente na observação nem tão somente na dedução, mas principalmente na estimativa. Quando um chefe militar diz “estimo que tal governo reagirá desta ou daquela maneira ao nosso ataque”, está combinando os precedentes que observou com os raciocínios dedutivos de que é capaz; ou seja, está estimando os dados, o que é papel da estimativa cumprir.

Uma vez compreendida a inteligência própria da ciência, torna-se possível perceber tanto a força de seu benefício como as dificuldades que resultarão do seu predomínio sobre áreas mais amplas da vida do homem.

Um caso digno de nota a respeito deste tema é a dificuldade que hoje confronta grande número de sociedades: se e até que ponto o homem é ou pode estar sendo tratado como meio e não como fim pela que parece ser a “ciência do século XXI”, a Engenharia Genética.

Sem pretender discutir aqui este assunto, um dado importante à discussão é a distinção que existe entre material e objeto da ciência.
O material de que esta ciência faz uso é tomado da Biologia; o objeto, da Física.

A vocação à Biologia é diferente da vocação à Física, na medida em que a primeira é fundamentalmente intuitiva, isto é, procede baseada nas informações dos sentidos; a segunda, procede baseada na articulação de hipóteses com a premissa de base, ou seja, ela é fundamente raciocinativa (a operação do raciocínio não presume a presença atual do objeto, mas apenas de seus esquemas puramente lógicos).

A Engenharia Genética é uma ciência nova, criada por físicos.

As origens desta ciência, conheci-a num dos módulos de Psicologia Social, durante meus primeiros anos de faculdade. Os mais de vinte anos passados misturaram em minha mente informações lidas e ouvidas. As lidas foram principalmente os ensaios contidos no livro “Biologia Social”, de Bruce Wallace, (Ed. da Universidade de São Paulo). ou seus próprios ou adaptações feitas com finalidades pedagógicas, relativos a temas como genética, evolução, raça e biologia das radiações; além destes, textos também de Niels Bohr, físico. As ouvidas foram as que circulavam na época pela boca de professores e palestrantes convidados. Estávamos na década de 80 e esses temas em alta.
Um exemplo claro das mudanças havidas no espaço de algumas décadas é a expressão engenharia genética (com letra minúscula e em modo itálico): era uma, dentre outras, técnica de trabalho do biólogo molecular e sua finalidade estrita era o desenvolvimento de curas de doenças genéticas. Hoje, dizemos Engenharia Genética, com letra maiúscula e sem itálico, significando uma ciência pronta, completa, com objetivos muito mais amplos do que a cura de doenças genéticas – hoje diríamos “cura de doenças genéticas também”.

Essa mudança se processou a partir da segunda metade do séc. XX, quando foi tomando corpo a crença de um físico, Niels Bohr, de que “um princípio de complementação, talvez semelhante àquele necessário para a compreensão da mecânica dos quanta, seria a chave para a verdadeira compreensão da biologia”, nas palavras de Wallace (p.6). Ou seja, assim que passasse a ser aplicado diretamente o método da Física ao material fornecido pela Biologia, esta se tornaria verdadeiramente conhecida.

O grande cientista Niels Bohr, físico dinamarquês, ganhador do Nobel de Física em 1922, foi quem levou de Berlim para os Estados Unidos a notícia da descoberta da fissão nuclear e atuou como um dos assessores no laboratório da bomba atômica em Los Alamos.
Ele, como outros físicos, responsáveis pelo desenvolvimento desta nova tecnologia, ficaram profundamente abalados com os resultados de sua aplicação à guerra. Em razão disso, vários cientistas deixaram a Física e migraram para a Biologia, buscando encontrar meios capazes de reverter os efeitos nocivos da radiação sobre os seres vivos, em particular, sobre os seres humanos. O resultado disto foi a transformação da técnica numa ciência, da engenharia genética na Engenharia Genética.

O que chama a atenção nesta ciência é o fato de ser uma aplicação praticamente direta dos métodos da Física não a um novo objeto, mas a um novo material. Se o material de que a Física fez e faz uso é inanimado, o material de que esta nova ciência faz uso é algo vivo. Porém, ela “enxerga” neste material o mesmo que a Física enxergaria: a sua constituição física.

O objeto da Engenharia Genética é a constituição física do material de que o ser vivo é composto. Mesmo que o material de onde surge o homem seja o próprio homem, a natureza mesma desta ciência a torna indiferente a este dado, seja ele fato ou não. A noção de pessoa escapa dos limites da Física, assim como da sua ciência-filha, a Engenharia Genética.

Do acerto ou erro da subordinação das leis que nós homens criarmos a respeito do com que é ou não permitido experimentar, dentro do campo desta ciência, poderá depender significativa parte do futuro da humanidade neste século XXI e quem sabe nos vindouros.

As questões que resultam do crescimento desta ciência são um exemplo forte e atual do impacto da vocação sobre a vida dos homens.

As catástrofes naturais, as humanas, e as vocações

September 3, 2005

Vi Winston Marsalis, trumpetista, apresentando-se para ajudar a população de New Orleans, terra do jazz, completamente inundada devido ao furacão Katrina. As boas recordações que as cenas de sua apresentação me provocaram cederam lugar a uma pergunta que não mais me deixou: que tipo de vocação é valorizada pelo povo acostumado a enfrentar catástrofes naturais e pelo acostumado a enfrentar catástrofes humanas?A resposta que me parece imediata é: quando o adubo que nutre as vocações é a luta contra catástrofe natural, o povo admira e valoriza as vocações que geram indivíduos capazes de resolver problemas reais e concretos; quando a experiência do povo é do padecimento por catástrofes humanas, o povo valoriza as vocações que geram sujeitos enrolões, histriões, falastrões, o que parece ser o caso de nós brasileiros. Pois parecemos acreditar que mais vale ser esperto e enrolão do que bom médico, bom engenheiro, bom alguma coisa. Tais diferenças me chamaram a atenção de maneira muito aguda nos japoneses, com que convivo.O japonês é um povo que viveu grande parte de sua história tendo de reconstruir tudo, já que o Japão é um conjunto de ilhas que volta e meia balançam e jogam as construções no chão e daí surgiu um povo que sabe quanto custa produzir e vender coisas.

Os povos europeus, bem como os americanos do norte, vivem a realidade de que há épocas do ano em que não poderão nem plantar, nem colher, nem caçar. Aí talvez esteja a razão porque os da terra do jazz certamente conseguirão reconstruir sua cidade e suas vidas mais rápido do que nós brasileiros seríamos capazes. Nunca vivemos, por obra e graça da natureza, a terrível experiência de perder absolutamente tudo, de vermos a cidade em que vivemos totalmente inviabilizada. Algo assim já aconteceu numa ou noutra cidade do Brasil, mas não tinha ninguém lá – quando se criaram as grandes barragens das grandes usinas hidrelétricas. Se isto pode ser chamado de catástrofe, foi catástrofe humana, que parece não excitar o surgimento de vocações científicas e pedagógicas tanto quanto Katrinas e tempestades de neve.Toda semana analiso dezenas de respostas a um questinário vocacional de minha elaboração, cuja primeira pergunta é “Por que gostam de você?”(*) e em muitos casos fico completamente persuadido que estou cara-a-cara com jovens capazes de adquirir uma cultura superior que o habilite ao exercício de importantes funções administrativas, científicas, e outras, tudo dependendo de que ao longo de suas vidas pessoas ou instituições valorizem suas vocações. Se ao ver Winston Marsalis, exímio trumpetista, tocando como seus avós e bisavós tocavam – com técnica não européia –, em sinal de respeito a eles, e movido pelo desejo de ajudar seus compatriotas de New Orleans, meu coração se encheu de admiração, no momento seguinte senti-o encher-se de apreensão. É que em seguida vi um um senador petista, vestido num terno caro e exibindo ar sério, propondo mudança na lei de financiamento de campanhas eleitorais, como se a ausência de lei positiva, isto é, escrita e jurada, fosse a a causa da tão desavergonhada conduta de seu partido. Age como criança que na manhã do dia seguinte reclama com sua mãe não a ter obrigado a fazer a lição de casa na noite anterior, ainda que a mãe explicasse “É que você estava tão cansado, meu filho, que nem conseguia ficar de olho aberto!”. Homem pedindo para si e seus pares o que convém a crianças. Uma coisa me parece certa: as vocações que vicejam e são valorizadas entre os povos cujo sofrimento resulta de evento originado da temível e incontrolada natureza são diferentes das que entre nós surgem e crescem; nós cujos sofrimentos e perdas são causadas pelo próprio homem. Vemos filas enormes, cheias de diplomados em curso superior, habilitando-se a vaga de gari, quando os vocacionados à indústria da diversão e deleite supérfluos ganham fortunas e vão à TV discutir temas para os quais nunca se prepararam e julgando fazer o bem, desencaminham significativa parte da juventude com seus exemplos e conselhos excêntricos. Nunca é má hora de valorizar as tantas e promissoras vocações ao estudo superior que há no Brasil. Quem sabe a vida de nós brasileiros possa ser mais sensatamente vivida, e sem tanta burocracia seja possível afastar da vida pública a gentalha que encarece tanto a vida de todos alegando estarem lutando por justiça social. (*) Vide a primeira postagem deste blog, “A pergunta fundamental”, onde menciono a importância capital desta questão.