A vocação cria as profissões e as ciências. As profissões e as ciências por sua vez são aspectos da inteligência do homem em ação. São expressões depuradas, a ciência mais do que a profissão, de operações particulares da inteligência. Por isso são seletivas, não admitindo pertencer-lhes toda e qualquer pessoa, todo e qualquer tipo de inteligência.Se as profissões são todas, sem exceção, práticas, as ciências não. Elas são ou práticas ou teóricas. Por exemplo, a medicina é uma ciência eminentemente prática; a física, fundamentalmente teórica, assim com a matemática, que lhe serve de instrumento.
As ciências práticas valorizam, no seu desenvolvimento, os dados dos sentidos. Daí a imensa compatibilidade das novas tecnologias de observação com a medicina, onde a clínica vai cedendo cada vez mais espaço ao instrumento. As teóricas valorizam o raciocínio, a capacidade do cientista matematizar e criar algoritmos ao mesmo tempo simples e abrangentes. Einsten exemplifica isto, ao expor o seu pensamento sob a fórmula E=mc2. Ainda que sejam necessários árduos estudos, durante vários anos, para compreender o sentido e valor desta fórmula, ela é simples e abrangente.
Analisando os fundamentos de determinada ciência, levando em conta a posição que ocupa entre os extremos – se eminentemente prática ou se puramente teórica – podemos identificar que operações da inteligência ela exige mais intensamente. Assim, é visível que a medicina se funda em provas materiais. A operação da inteligência que tem por função apresentar o dado à consciência é a intuição ou percepção. Logo, a medicina pode ser dita fundamentalmente baseada no caráter intuitivo (ou percepitivo) da inteligência. O mesmo não se pode dizer da Física. Sendo o seu objeto a estrutura dos entes físicos, e não sendo possível vê-los, só é possível deduzí-los. A operação da inteligência responsável pela dedução é a razão. A ciência (ou arte) da guerra ocupa uma posição intermédia, isto é, não se crava exclusivamente na observação nem tão somente na dedução, mas principalmente na estimativa. Quando um chefe militar diz “estimo que tal governo reagirá desta ou daquela maneira ao nosso ataque”, está combinando os precedentes que observou com os raciocínios dedutivos de que é capaz; ou seja, está estimando os dados, o que é papel da estimativa cumprir.
Uma vez compreendida a inteligência própria da ciência, torna-se possível perceber tanto a força de seu benefício como as dificuldades que resultarão do seu predomínio sobre áreas mais amplas da vida do homem.
Um caso digno de nota a respeito deste tema é a dificuldade que hoje confronta grande número de sociedades: se e até que ponto o homem é ou pode estar sendo tratado como meio e não como fim pela que parece ser a “ciência do século XXI”, a Engenharia Genética.
Sem pretender discutir aqui este assunto, um dado importante à discussão é a distinção que existe entre material e objeto da ciência.
O material de que esta ciência faz uso é tomado da Biologia; o objeto, da Física.
A vocação à Biologia é diferente da vocação à Física, na medida em que a primeira é fundamentalmente intuitiva, isto é, procede baseada nas informações dos sentidos; a segunda, procede baseada na articulação de hipóteses com a premissa de base, ou seja, ela é fundamente raciocinativa (a operação do raciocínio não presume a presença atual do objeto, mas apenas de seus esquemas puramente lógicos).
A Engenharia Genética é uma ciência nova, criada por físicos.
As origens desta ciência, conheci-a num dos módulos de Psicologia Social, durante meus primeiros anos de faculdade. Os mais de vinte anos passados misturaram em minha mente informações lidas e ouvidas. As lidas foram principalmente os ensaios contidos no livro “Biologia Social”, de Bruce Wallace, (Ed. da Universidade de São Paulo). ou seus próprios ou adaptações feitas com finalidades pedagógicas, relativos a temas como genética, evolução, raça e biologia das radiações; além destes, textos também de Niels Bohr, físico. As ouvidas foram as que circulavam na época pela boca de professores e palestrantes convidados. Estávamos na década de 80 e esses temas em alta.
Um exemplo claro das mudanças havidas no espaço de algumas décadas é a expressão engenharia genética (com letra minúscula e em modo itálico): era uma, dentre outras, técnica de trabalho do biólogo molecular e sua finalidade estrita era o desenvolvimento de curas de doenças genéticas. Hoje, dizemos Engenharia Genética, com letra maiúscula e sem itálico, significando uma ciência pronta, completa, com objetivos muito mais amplos do que a cura de doenças genéticas – hoje diríamos “cura de doenças genéticas também”.
Essa mudança se processou a partir da segunda metade do séc. XX, quando foi tomando corpo a crença de um físico, Niels Bohr, de que “um princípio de complementação, talvez semelhante àquele necessário para a compreensão da mecânica dos quanta, seria a chave para a verdadeira compreensão da biologia”, nas palavras de Wallace (p.6). Ou seja, assim que passasse a ser aplicado diretamente o método da Física ao material fornecido pela Biologia, esta se tornaria verdadeiramente conhecida.
O grande cientista Niels Bohr, físico dinamarquês, ganhador do Nobel de Física em 1922, foi quem levou de Berlim para os Estados Unidos a notícia da descoberta da fissão nuclear e atuou como um dos assessores no laboratório da bomba atômica em Los Alamos.
Ele, como outros físicos, responsáveis pelo desenvolvimento desta nova tecnologia, ficaram profundamente abalados com os resultados de sua aplicação à guerra. Em razão disso, vários cientistas deixaram a Física e migraram para a Biologia, buscando encontrar meios capazes de reverter os efeitos nocivos da radiação sobre os seres vivos, em particular, sobre os seres humanos. O resultado disto foi a transformação da técnica numa ciência, da engenharia genética na Engenharia Genética.
O que chama a atenção nesta ciência é o fato de ser uma aplicação praticamente direta dos métodos da Física não a um novo objeto, mas a um novo material. Se o material de que a Física fez e faz uso é inanimado, o material de que esta nova ciência faz uso é algo vivo. Porém, ela “enxerga” neste material o mesmo que a Física enxergaria: a sua constituição física.
O objeto da Engenharia Genética é a constituição física do material de que o ser vivo é composto. Mesmo que o material de onde surge o homem seja o próprio homem, a natureza mesma desta ciência a torna indiferente a este dado, seja ele fato ou não. A noção de pessoa escapa dos limites da Física, assim como da sua ciência-filha, a Engenharia Genética.
Do acerto ou erro da subordinação das leis que nós homens criarmos a respeito do com que é ou não permitido experimentar, dentro do campo desta ciência, poderá depender significativa parte do futuro da humanidade neste século XXI e quem sabe nos vindouros.
As questões que resultam do crescimento desta ciência são um exemplo forte e atual do impacto da vocação sobre a vida dos homens.