O conhecimento da vocação apenas não é suficiente para selecionar tudo em sua vida. Pois deve-se levar em conta, além do sujeito com sua dotação vocacional pessoal, o meio em que ele existe. Não se pode deixar de considerar o sujeito individual, seus relacionamentos, e as circunstâncias dentro das quais ambas essas coisas se dão.Como características individuais e individualizantes do sujeito, tem-se suas aptidões naturais e adquiridas. Quando essas aptidões vêm do nascimento, costuma-se dar-lhes o nome de “dons”. Por exemplo, o dom para a música, para a pintura ou para a arte em geral. Alguns manifestam possuí-los desde muito cedo, numa época em que não seria razoável admitir alguma “influência do meio”, exceto se considerarmos como “meio” a sua hereditariedade física e psicológica.
Outras aptidões são as adquiridas pela história cultural do sujeito, pelo seu convívio com pessoas e instrumentos culturais diversos, mais afinados ou menos afinados com sua personalidade e dons inatos.
Mas aptidão não é vocação, bem como vocação não é a soma das aptidões inatas e adquiridas, mas o fator integrativo total delas. A vocação é o fator que dota de sentido esses recursos, tanto os que emergem com o sujeito quanto aqueles que sua personalidade vai incorporando ao longo de sua trajetória de vida.
Em resultado deste processo, manifesta-se o sujeito vocacionado a algo. Ao que nele é inato, somou-se aporte cultural adequado.
Porém este mesmo sujeito vive num tempo e num lugar determinados histórica e geograficamente. Sob esta ótica, ele é parte de uma comunidade e os interesses dessa comunidade se imporão sobre ele, sem que isto signifique anulá-lo ou extinguir nele aquilo que ultrapassa o tempo e o lugar. Por exemplo, o dom para a arte, valioso em si mesmo, não desaparece porque a comunidade não se interessa por aquela forma específica de arte. Apenas significa que tal dom não se traduzirá, naquele momento e lugar, num bem desejável e por isso as pessoas não estarão dispostas a pagar por ele. São inúmeros os exemplos de casos assim. Alguns tão famosos com Van Gogh, pintor que viveu miseravelmente mas cujas obras, passados alguns anos, adquiriram preços exorbitantes.
Por maior que seja o valor “em si” do dom individual da pessoa, ou mesmo de sua vocação, não se pode deixar de levar em conta os fatores sociais envolventes, as condições políticas e econômicas do lugar e época e assim por diante, que certamente contribuirão para o êxito maior ou menor da obra resultante ou mesmo a impedirão.
Pelo fato de tais fatores não serem previsíveis, mas apenas explicáveis a posteriori, dá-se-lhes o nome de “sorte”. Assim, além de conhecer qual seja a própria vocação, de modo que a partir daí seja possível fazer esforços convergentes numa certa direção, é necessário um pouco de “sorte”, isto é, que a comunidade valorize o bem ou serviço decorrente de tal vocação.
Um exemplo histórico impressionante disso é o famoso filósofo da Grécia Antiga, Aristóteles. Como não era grego, não era um “cidadão” e por isso não podia sequer discutir os problemas da cidade; na verdade, como se diz na gíria, era o último que falava e o primeiro que apanhava. Sua obra desapareceu por uns seiscentos anos e quando reapareceu, as traduções não eram boas, não faziam juz a seu verdadeiro conteúdo. Muitos anos depois, foram feitas traduções adequadas, a partir de quando ela pôde ir sendo apreciada no seu justo valor. O intervalo de tempo, entre sua morte e uma adequada tradução de sua obra, foi de mais ou menos uns dezesseis ou dezessete séculos.
Este eloqüente exemplo mostra que, às vezes, o valor da vocação “em si” pouco pesa quanto ao rumo dos acontecimentos ou no sentido de beneficiar aquele dela dotado social e economicamente.
Assim, é possível dizer com grande dose de razão que o valor fundamental do conhecimento de qual seja a própria vocação é que ele permite regramento dos esforços da pessoa. Em primeiro lugar porque tal conhecimento permite fazer convergir os esforços para uma vida com sentido; em segundo lugar, porque não é possível ter o domínio do meio circundante, pois vivemos dentro dele e ele nos contém e não o contrário. E por mais tecnologizado esteja o homem ou a comunidade, mesmo assim não é possível controlar os fatores externos que envolvem a vida. Sempre surge um imprevisto Tsunami, um Katrina, que tudo arrasa. Ou mesmo um simples e pequeno acidente, como o que vitimou Alexandre o Grande: tomou banho num rio, pegou uma doença e morreu no prazo de poucos dias. O grande homem, conquistador, guerreiro, e que ainda por cima tornou conhecidas universalmente as escrituras dos judeus, permitindo a grande parte da humanidade compreender que há um só e único Deus, foi morto em poucos dias por uma gripe ou algo semelhante. Quem diria? E um Roberto Jefferson surgir de repente mudando os destinos de um país?…Quem diria?….