A relação de qualquer profissão com o dinheiro não é direta. Se uma proporciona mais ganhos num determinado momento, é porque o que ela produz é visto pelas pessoas como sendo algo de valor. Caso contrário, todo profissional de alguma dita profissão “rentável” estaria muito bem de vida, o que a experiência demonstra que não acontece. Há advogados ricos e pobres, assim como médicos, jogadores, comerciantes…
A razão disso? Toda profissão tem uma finalidade própria, a qual não é, na maioria dos casos, ganhar dinheiro.
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As profissões e o dinheiro
July 31, 2005O rosto e a competência
July 31, 2005Só vejo meu rosto quando me olho no espelho. Do mesmo modo, só fico sabendo de minhas próprias positividades em resultado do convívio com as pessoas. Aquilo que parece tão comum em mim, tão familiar, tão fácil e corriqueiro, nem sempre é visto assim pelo outro.
Por isso, é pouco comum alguém levar em conta o que tem em si de vocacional, isto é, o que gosta de fazer e faz bem. Ao escolher alguma carreira profissional, é comum pensar: “tenho de fazer algo que dê dinheiro”. Porém, não é a profissão que ganha dinheiro, mas o profissional a partir dela. E a melhor profissão para cada um é a que lhe valorize mais a vocação, pois desempenhando uma atividade vocacionada, fica fácil adaptá-la às mais diferentes finalidades, inclusive a de ganhar dinheiro.
O que responde à vocação da pessoa desperta-lhe o amor
July 30, 2005Uma pessoa, uma arte, um partido ou seja lá o que for que manifeste qualidades do “objeto preferencial” da vocação de alguém pode exercer poderosa força sobre ele, sobre seu coração e mente. É como se cada pessoa possuisse um sistema que, como o GPS, fosse capaz de localizar tais objetos: basta o objeto que tem apelo à sua vocação, o objeto realizável, surgir no seu radar que o sistema foca nele.
Uma pessoa com vocação compatível com o ofício de enfermagem, por exemplo, será fortemente inclinado a apaixonar-se e a amar pessoas frágeis e que dão a impressão de que precisam ser cuidadas. Uma pessoa com vocação religiosa, ao ouvir alguma organização pregar valores com ela compatível, aderirá com motivação irracional à sua estrutura, tornando-se impermeável a qualquer argumento racional. E assim com toda vocação: basta que surja seu “objeto preferencial” para a pessoa ser mobilizada por ele. E não há nada no mundo o que não possa constituir objeto preferencial de alguma vocação. A vocação frustrada é objeto preferencial da vocação de alguém; a plenamente realizada também.
Os exemplos podem ser multiplicados indefinidamente. Mas basta reter a idéia central: a vocação do sujeito inclina-o a amar o que com ela seja compatível.
Considerando que o amor põe em funcionamento um aspecto da inteligência que ultrapassa o funcionamento ordinário da razão humana, torna-se fácil compreender condutas humanas e fenômenos sociais em princípio ilógicos.
O amor, assim como a fé, é atividade sobrenatural da inteligência, daí nem um nem a outra serem coisas automáticas, mas necessitam, antes, de decisão pessoal, coisa que não se verifica nos animais. Estes não decidem, mas tudo já está decidido para eles; na natureza de cada um deles já existem as fórmulas fechadas quanto ao que lhes seja necessário e aceitável. Razão porque nenhum deles atenta contra a própria vida.
Com o homem é diferente. Por isso se vêem pessoas muito boas ligadas a outras nem tão boas assim; ligadas a funções, cargos, a organizações de diversos tipos que atentam contra o natural instinto de autopreservação que, principalmente para o homem, significa preservação do próximo; o que, para ser conseguido, exige a preservação dos valores; estes, por sua vez, que sejam fundados em critérios universalmente válidos etc.
As principais organizações, capazes de ser o “objeto de amor” com força para acionar os pendores vocacionais do homem são as políticas e as religiosas. Elas conseguem acionar prodigiosas forças no indivíduo. São, para eles, “chamamentos” irresistíveis, que mobilizam suas vocações de maneira muito superior aos ditames da razão.
Presenciamos algo assim nos dias de hoje no Brasil, quando mesmo provas irrefutáveis não possuem força para demover muitos do apego ao que fazem, ao poder político.
A vocação é o princípio da capacidade de amar – 3
July 30, 2005Durante uma das rebeliões do Presídio do Carandiru, algumas mães de presidiários foram entrevistadas. A maioria dizia que o filho estava preso e que judiavam dele. Ninguém dizia que tivessem sido presos injustamente; sabiam que seus filhos tinham sido preso, na maioria das vezes, por terem espalhado o mal, assaltando, estuprando, matando. Por que então choravam por eles? “Porque é meu filho!”
Essas mães, evidentemente, enxergavam em seus filhos tudo o que nós facilmente enxergamos: que não prestavam, eram perigosos etc. Porém, os amavam assim mesmo.
Não se pode imaginar que tais mães esperem obter alguma vantagem mantendo-se fiéis a seus criminosos filhos; que eles lhes sejam úteis de alguma maneira, satisfazendo-lhes alguma cobiça ou desejo pessoal qualquer. Nada disso. É questão de pura e gratuita doação de si ao filho, sem esperança de nada em troca. Interessam-se única e exclusivamente pelo bem de seus filhos.
Refletindo sobre sentimento seria esse, capaz de manter-se atuante com tamanha força, alheio às indiscutíveis provas de que seus destinatários não o mereciam, fiquei convicto de que tratava-se de amor. Em seguida, pareceu-me evidente que o amor não se dirigia a algo que estivesse concretamente presente naquelas criaturas amadas, mas apenas virtualmente ou pelo menos potencialmente, pois as mães não pareciam ignorar nem a criminalidade nem a periculosidae de seus filhos, mas eram capazes de enxergar neles algo que eles poderiam ser, ou algo neles que poderia tê-los tornados gente boa.
Elas certamente não sabem provar que tal fator potencial presente neles poderia até regenerá-los, mas apenas acreditam que há algo assim em seus filhos.
Quando as mães do Carandiru contavam como seus filhos foram na infância, era possível admitir que tivessem razão: “quando criança, ele era muito inteligente; quando começava alguma coisa ia até o fim; era bom com as crianças…” Expressando de maneira técnica o discurso das mães, afirmavam que, quando crianças, seus filhos manifestavam personalidades onde se reuniam intelecto promissor, vontade firme e afetividade atuante. Viam-nos agindo livremente, entendendo e gostando do que faziam; isto é, viam-nos exercendo suas vocações. Amavam-nos por isso, porque os viam sendo o que nunca deveriam ter deixado de ser.
A vocação é o princípio da capacidade de amar – 2
July 26, 2005Há coisas que só existem no mundo dos homens. A arte por exemplo.
Por mais bela que seja a teia de uma aranha, todas as aranhas daquele espécie a fazem igualzinha; por lindo que seja o canto de tal pássaro, todos de sua espécie cantam igual; por mais inteligente que seja o macaco, o graveto de que faz uso para pegar cupins e comê-los ou mesmo com o qual derruba uma fruta, todos os macacos inteligentes de sua espécie usarão gravetos parecidos para pegarem cupins e derrubarem frutas das árvores. Nessas coisas não há arte, pois não há algo que seja exclusivo de um indivíduo particularmente considerado. Quem quer que tenha perdido seu amado cãozinho de estimação sabe disso: não é possível dizer com certeza “este é o cão que me roubaram”, pois não há muito como distinguir um do outro da mesma raça. Quem tentou sabe.
O que caracteriza a arte é seu elemento original, que é coisa exclusiva daquele determinado artista. É diferente da teia de aranha, a qual é obra de determinada espécie de aranha e não de tal aranha em particular. O mesmo com o canto dos pássaros e gravetos dos macacos. O passarinho se comunica com outro, não faz música. O homem é quem transforma a comunicação do passarinho em arte.
Nunca se viu, nunca se verá uma singularidade canina, ovina ou outra qualquer comparável a um Bach, mesmo a um Zeca Pagodinho e suas cervejísticas peripécias.
Mas não é só arte que existe exclusivamente no mundo dos homens. A ciência, a religião, a filosofia também não existem para os bichos. Os animais não fazem culto, não transmitem saberes certos às gerações seguintes, não explicam nada. Não vivem nem morrem senão pelo que lhes garante a vida material. Nada há na inteligência deles que os faça ter por coisa real algo imprático, algo que não serve de alimento, de proteção física e demais coisas que convêm ao corpo e à vida dos sentidos.
O amor, contudo, não visa ao bem do próprio corpo; se visa ao bem de algum corpo, é ao bem do corpo do outro. Por isso o amor só existe propriamente entre os homens, não entre os bichos. Pois se não há a arte, não há fé; se não há fé, não há amor. E quem duvida que o artista é também homem de fé? Não da mesma fé que é própria da religião, mas assim mesmo fé.
No mundo animal há instinto, não fé. No mundo dos homens, há a fé. Há também o instituto, mas ele é mais deficiente.
Por isso o homem se apaixona e também ama. Do instinto surge a paixão; da fé, o amor. O instinto tem na proteção do próprio corpo seu objetivo final, o mesmo que se dá com a paixão. O amor tem no espírito seu meio de ação e no bem do outro seu objetivo final. Por isso, no amor, sempre se nota a presença da arte e da fé, e na paixão, do sexo, do instinto e tudo que deleita o corpo e amansa temporariamente a alma sem necessariamente refiná-la.
A vocação é o princípio da capacidade de amar – I
July 26, 2005Amor é diferente de paixão. O primeiro, é reflexo de capacidade que só existe no homem e em nenhum outro animal; a segunda, é reflexo de fatores corporais e psicológicos. Quando a pessoa é movida pelo amor, seu desejo é o de servir ao amado; quando pela paixão, o desejo é que o outro lhe sirva. No amor, a ênfase é na doação de si ao outro; na paixão, é na apropriação do outro. Por isso com razão se diz que o amor enaltece a quem ama e ao mesmo tempo informa muito pouco a respeito do amado.
O momento da importância indiscutível da vocação
July 25, 2005Um momento de grave crise pessoal ou nacional é o momento em que se nota a indiscutível importância da vocação. Nada mais há com que se possa contar; a crise mostra toda a sua cara; nenhum malabarismo ou prestidigitação tem o poder de criar soluções ilusórias.
Um exemplo histórico recente desta condição foi a crise da Argentina. A falência dos empregadores de toda espécie colocou os argentinos numa situação extrema: cada um teria de providenciar os meios capazes de garantir a vida. Nessas horas, não adianta apenas “bater o cartão de ponto” e pendurar o paletó na cadeira para enganar que está trabalhando. Nessas horas, o que cada um tem de fazer exige seu comprometimento total, do sentimento, da vontade e do intelecto. Isso é o mesmo que dizer que cada um tem que agir conforme a sua vocação.
Os ocupantes de cargos de governo ou empresas, se querem tirar o país daquela situação extrema, teriam de ser os mais competentes e capazes de responder às exigências reais da situação.
O filme "O outro lado da nobreza" (Restoration – EUA, 1995 – 113 min.), com direção de Michael Hoffman, com Robert Downey Jr., Meg Ryan, Sam Neill e Hugh Grant também mostra magistralmente esta verdade: o personagem central da história, vocacionado à medicina, só se compromete totalmente com sua vocação quando perdeu tudo inclusive e principalmente o maior amor de sua vida. Aí só lhe restou o que era dele, estava nele e só poderia ser feito por ele. Foi quando então até o rei o saudou como a um nobre.
É quando não resta mais nada à pessoa que sua vocação mostra toda sua força, pois na verdade é a única coisa que resta e é a primeira e mais importante de todas. Ela é o coringa que Deus deu para cada um de modo a capacitá-lo a ser vitorioso no jogo da vida.
Vocação não é profissão
July 24, 2005A profissão é efeito da vocação e não o contrário. As profissões surgem e desaparecem. Cada profissão enquadra a inteligência dos que a ela se dedicam, já que nem tudo que uma pessoa tem a oferecer combina com o objetivo da profissão. Por isso, como toda pessoa tem mais a oferecer à vida do que qualquer profissão exige, há sempre uma significativa cota de frustração em toda profissão.
Estava tocando num sushibar, com meu filho, eu piano e ele guitarra. Numa das pausas, ao dirigir-me para a mesa de meus parentes e amigos, os quatro da mesa ao lado me chamaram para elogiar a execução e escolha de músicas. Comentei que tinha notado que eles curtiam música, pois nos aplaudiram várias vezes. Disseram que dois deles costumavam tocar instrumentos — gaita e bateria, mas que tinham parado por falta de tempo. "Além disso, música não dá dinheiro", alguém disse.
O fato é que alguém sempre diz isso quando se fala da profissão de músico. Não respondi na hora, mas se pudesse, teria dito:
Dar ou não dar dinheiro não é a questão, pois depende apenas da capacidade do músico de converter o que faz em dinheiro. Só que isso vale para toda profissão cujo fim não é fazer dinheiro. A medicina, por exemplo, tem como fim a geração de saúde, a engenharia, a construção de estruturas de suporte, a administração visa ao gerenciamento de produtos e capacidades humanas, e assim por diante. Tais ofícios dão dinheiro porque permitem que quem as exerce ofereça bens e serviços pelos quais as pessoas concordam que vale a pena pagar. Mas quem ganha dinheiro é o profissional e não a profissão, caso contrário todo médico, advogado e demais profissionais liberais seriam ricos.
Dinheiro não é objeto próprio da profissão de músico ou de psicólogo. Isso é evidente para quem me conhece, pois exerci a profissão de músico e exerço a de psicólogo e minha capacidade com dinheiro é limitadíssima. Aliás, não sou o único: não é comum encontrar entre músicos e psicólogos, indivíduos hábeis na lide com o dinheiro. Do mesmo modo, é evidente que não há coincidência obrigatória entre a profissão de político e moral, ética e verdade — como a população brasileira está podendo verificar no seu dia-a-dia. É uma ligação falsa da mesma forma que aquela que diz que esta ou aquela profissão dão dinheiro. Afinal de contas, ninguém que se torna político faz votos de castidade, pobreza e obediência, garantias da possibilidade de vida realmente santa.
Qualquer pessoa tem coisas diversas a oferecer, às pessoas, à comunidade, à vida em geral, e o conjunto do que ela pode oferecer à vida é muito maior do que o que qualquer profissão exige. Por isso, imaginar que se pode alcançar a realização pessoal por meio da profissão é uma idéia muito limitada e uma verdade discutível. A realização pessoal do homem decorre da adequação de sua vida à sua vocação e isso é totalmente diferente da adaptação da vocação a alguma profissão. É fundamental que haja essa adequação, evidentemente, já que cada um tem que ganhar seu próprio sustento. Porém, resolvida a questão profissional, sobra muito ainda no homem que interessa não apenas à sua vida pessoal, individualmente considerada, mas também às demais pessoas que o cercam e com ele compartilham a sorte comum.
O surgimento da profissão
July 24, 2005Uma profissão começa quando surgem pessoas dispostas a pagar pela sua existência e termina quando elas desaparecem.
O que motiva as pessoas a pagar por algo é sua utilidade. Vamos supor a medicina: num dia qualquer, alguém teve algum problema de saúde. Se não sarou sozinho ou morreu, apareceu alguém que procedeu de um certo jeito e contribuiu para sua restauração. Como estar vivo é melhor do que estar morto, os procedimentos associados à recuperação do doente passaram a ser imitados, não por todos, mas por aqueles capazes de prestar atenção no que era feito nesses casos.
Talvez nosso hábito de fumar tenha sido conseqüência de algo assim: os franceses observaram feiticeiros inalando fumaça de gravetos nos quais punham fogo e chupavam e imitaram. Mas os feiticeiros faziam isso provavelmente acreditando que seriam capazes de curar pessoas introduzindo nelas o mesmo o princípio capaz de eliminar tudo – o fogo. Chupar graveto com ponta fumegante seria o mesmo que encher-se de fogo, tornando-se semelhante, por momentos, ao mais superior e mágico dos elementos, cuja propriedade principal é tornar tudo semelhante a si.
Com o passar do tempo e acúmulo de experiência, a associação entre certos procedimentos e a geração de saúde vai naturalmente desencadeando a separação de algumas pessoas da comunidade das demais. A estas a comunidade concorda em obedecer nos casos específicos de necessidade de restauro da saúde; depois na manutenção da saúde e finalmente a comunidade os quer para prevenir doenças ou para garantir que ele lá estará em caso de doença. A ponta final do processo é o surgimento de indivíduos e até de uma classe de pessoas habilitadas ao ofício cujo fim é a cura ou manutenção da saúde.Quando uma comunidade está interessada num número crescente de coisas, não quer dizer que cada indivíduo também esteja interessado em todas essas coisas. Uns sim, outros não. Uma vez que algo adquira importância, é natural que o número de interessados por ela aumente. Porém, toda comunidade se interessa por coisas reais ou que se creiam reais. E é só por tais coisas que as pessoas pagam. Quando alguém cai num golpe e compra o Viaduto do Chá, ou quando compra um carnê que promete prêmio que nunca virá e demais coisas que só lhes tiram dinheiro e posses, não o fazem senão porque supõem estar pagando por coisas reais. A razão de sua conduta é o interesse por algo que lhes parece real, ainda que não o seja. Só que, nesses casos o que aconteceu é que alguns agiram imitando os “verdadeiros” profissionais, isto é, aqueles em que a comunidade deposita fé. Mas mesmo as práticas dos que assim agem, atuando sobre a mente dos desavisados, fazem surgir novas profissões ao mesmo tempo que reforçam outras.
Em todo esse processo de surgimento de profissão, algo me parece indiscutível: todas começam com um sujeito apenas — o sujeito vocacionado a ela. Os seguintes, imitam seus procedimentos, melhorando-os, aperfeiçoando-os.
A vocação espiritual do homem – II
July 21, 2005Nem sempre é fácil tirar conseqüências práticas de textos como o "A vocação espiritual do homem", que escrevi há uns dias . Por isso, retomo o assunto: quando digo “espiritual”, quero dizer “o que é próprio do homem, o que é exclusivo da inteligência do homem”.
O nome “espírito” significa uma capacidade que só existe no homem e não existe em nenhum outro animal, por isso é um termo adequado para mim. Eu não posso dizer “o espírito presente nas ações da minha cadelinha”, mas posso dizer “o espírito presente nas ações do meu amigo Sidney”. Sidney tem “espírito”, a cachorrinha Mila não tem. Ambos possuem, assim como eu também, inteligência racional, tanto é assim que Mila sabe se quem chegou é pessoa conhecida ou não, sabe se quem chegou é quem a alimenta sempre e assim por diante.
A capacidade de distinguir uma coisa da outra chama-se “razão”. Todos a possuímos. A Mila, como os demais animais, a possuem. Mas “espírito”, só nós homens possuímos.O que faz o “espírito”? Ele nos permite introduzir diferenças em coisas que são aparentemente iguais. Toda vez que dou um pedaço de pão para Mila, ela o come vorazmente, sempre do mesmo jeito e sempre cuidando que eu não vá pegá-lo de volta. Mil vezes que eu dê pão para ela, mil vezes ela se comportará do mesmo jeito. Caso aprenda alguma outra maneira de se comportar, irá repetir esta nova maneira indefinidamente. Mas nós, seres humanos, não. Se fizermos uma mesma coisa mil vezes, somos capazes de fazê-la de maneira mil vezes diferente. Se você estiver interessado em alguém e se esse alguém também estiver interessado em você, repare: se você lhe der um presentinho qualquer, por mais singelo, a pessoa ficará radiante; e pode ficar até ofendida se uma outra pessoa, por quem ela não sente o menor interesse, oferecer-lhe o mais caro dos presentes. Não é questão de o presente ser igual ou diferente, mas sim da sua disposição espiritual, isto é, daquela parte da sua inteligência que só existe nela porque ela é ser humano; do seu espírito, responsável pela sua capacidade para sentir amor. Com a Mila, não: ela gosta de pão e não interessa quem o dê pra ela: ela vai pegá-lo, afastar-se da pessoa e comê-lo rápido antes que alguém o tome dela.
A parte espiritual do homem nunca adormece. Ela pode ficar mal cuidada, mas é sempre atuante, se manifesta sempre, através das mais inocentes ou conseqüentes escolhas.
A vocação é algo comparável ao ouvido: é o ouvido do espírito. É por meio dela que cada pessoa se torna habilitada a atender às suas próprias demandas espirituais. Ficamos o tempo todo tentando atender a essas demandas, mas muitas vezes nos enganamos.
Tentar atender aos apelos de sua vocação é alimentar bem o espírito. Observe uma pessoa que goste de cuidar de pessoas, que fica sempre preocupada com o bem-estar corporal e físico das pessoas. O que se pode dizer dela? Que muito provavelmente tem vocação para certo ramo da medicina, para a enfermagem, independentemente do seu grau de instrução, do seu nível sócio-econômico etc.. Suponha também que ela nunca tenha pensado em se dedicar ao ramo médico. Se for uma mulher, eu pergunto: Como normalmente serão seus namorados? Muito provavelmente do tipo “coitadinhos”, que precisam urgentemente de ajuda, de cuidados? Ela “escutará” certos apelos que a farão crer que ao atendê-los alimentará adequadamente seu espírito. Mesmo que a experiência demonstre que ela namora um coitadinho, passado algum tempo esse coitadinho não é mais coitadinho e dá no pé e a troca por sua melhor amiga.
Seguindo esta linha de raciocínio, tente recordar-se dos casos que conheça de amores frustrados. Veja se os tais amores não combinavam direitinho com a vocação da pessoa frustrada, com o detalhe de que nunca deveriam ter sido namorados, mas amigos ou clientes de alguma atividade profissional.
Habituando-se a prestar atenção neste tipo de coisas, será fácil entender porque certas pessoas são autoritárias, outras falam demais, outras são desconfiadas acima da conta, outras acreditam que é possível agradar a todo mundo e por isso julgam que todo mundo deve ser politicamente correto…Isto é assim porque os seus ouvidos do espírito, ou suas vocações, sinalizam a presença de algo que não está exatamente onde elas acreditam que esteja. A intenção delas é boa, o entendimento de todo o processo que não é. A vocação é firme e forte, a compreensão do que ela exige que não. Daí os enganos.