A vocação é dom de Deus

December 27, 2009 by Joel Nunes dos Santos

A vocação é dom de Deus; o talento, o hábito resultante da aplicação persistente da inteligência (e da aptidão física) à solução de determinada dificuldade, a qual pode ser de natureza filosófica, estética, científica, altruísta, etc.

A melhor e mais permanente fonte do talento é sem dúvida alguma a vocação, pois é possível desenvolver talentos pouco tenha a ver com a própria vocação, uma vez que para tanto é necessário apenas possuir vontade suficientemente determinada.

O talento que não resulta da vocação, mas da capacidade humana para tudo conhecer, é aquele do qual o sujeito abre mão assim que pode. Por exemplo, necessitado de comida, de cuidados médicos, de segurança material, a pessoa pode aceitar um trabalho que lhe exija energias que melhor estariam aplicadas ao que ama espontaneamente, isto é, ao que lhe é vocacional. Por mais talentoso que se torne naquele trabalho, que desempenha apenas por ser um ser humano e dotado de inteligência capaz de tudo aprender, dificilmente se sentirá feliz – e o sentido que conseguirá enxergar em seu trabalho será somente este, “ele é que fornece o sustentáculo material da minha vida”. Em razão disso, a cada dia de trabalho, ficará sonhando com a aposentadoria, quando não mais precisará trabalhar para sustentar-se materialmente.

Por ser dom de Deus, a vocação é o instrumento eficaz para crescer no amor de Deus e, em resultado, no amor ao próximo.

27 dez. 2009

Seqüestro e desvio vocacional

April 26, 2007 by Joel Nunes dos Santos

Em Campinas, desde aproximadamente o meio-dia do dia 24 de abril, um seqüestrador mantém como reféns uma mulher e seus dois filhos. A casa onde se encontra está cercada de policiais, que não têm a alternativa de invadi-la e nem de alvejar o bandido através de seus atiradores de elite.

Mesmo compadecido da mais que terrível situação da mãe e das crianças – em qualquer deles que pense e meu coração se enche de tristeza, pois não vejo onde colocar o termo “principalmente” para definir se a situação é pior para a mãe ou suas crianças – não foi possível deixar de considerar que o episódio manifesta com força enorme o triste resultado a que pode levar o desvio vocacional. Pois vocação é termo positivo; usá-lo e referir-se somente às positividades do sujeito.

O seqüestrador até agora deu mostras de estar no domínio da situação – pois agora são 12:45h do dia 26 e ele continua negociando sua escapada.

Imaginando-me (e à quase totalidade das pessoas que conheço) no seu lugar, por certo que já teria desistido da empreitada há muito tempo. Pois para sustentar situação assim é necessário possuir uma capacidade enorme de autocontrole ou, no jargão moderno, uma poderosa “inteligência emocional”, o hábito de controle das reações musculares e nervosas.

E se ele fosse um policial? Um investidor em bolsa-de valores? Um bombeiro? Um agente para situações de risco? Um médico cirurgião? Mas ele não é nada disso. Ele é apenas um perigosíssimo e experimentado bandido, sujeito que se desviou de sua vocação e orientou-se para o mal. É um claro e lamentável exemplo de desvio vocacional.

Joel, 26/4/2007

Pessoas bem-sucedidas

September 7, 2006 by Joel Nunes dos Santos

Aproveito a ocasião em que analisei algumas respostas ao questionário vocacional que desenvolvi, denominado Da vocação à profissão, para basear algumas considerações a respeito do tema “êxito na família”.

A finalidade do citado questionário é ajudar o participante na escolha de profissão que combine com sua vocação. Para tanto, depois de muito refletir sobre esta tarefa, conclui que três questões seriam suficientes para dar-lhe boa base. As questões podem ser assim resumidas: 1) como você se imagina capaz de ganhar dinheiro;  2) quem é a pessoa bem-sucedida em sua família; 3) que profissão pensa seguir.

A objetividade da análise-resposta varia com a riqueza das informações prestadas. O que não foi o caso das respostas de Rita, atualmente com 20 anos. À primeira questão (como ganharia dinheiro) respondeu “trabalhando”; à segunda (quem é o bem-sucedido em sua família), “ninguém” e à terceira (que profissão pretende), “não sei”.

Baseado nessas respostas, elaborei a análise que abaixo lhe dou a conhecer, leitor. Nela há o essencial do que importa saber sobre o sucesso na vida do homem. A diferença entre este artigo e a resposta que enviei para Rita é apenas de superfície: fiz as adaptações necessárias para que o escrito pudesse caber dentro do título “artigo”.

Prezada Rita,

baseado nas informações que você forneceu em suas respostas, é possível tirar algumas conclusões que poderão ser úteis a você na difícil tarefa de escolher uma profissão.

Em primeiro lugar, você manifesta uma mente sadia, na medida em que enxerga o trabalho como condição para ganhar dinheiro. Não é pequeno o número dos que têm pensamento diferente do seu, desejando possuir dinheiro e o que este compra sem se dispor a trabalhar para isso. Muitos preferem obter dinheiro roubando, enganando a quem possam,   deste modo se beneficiando dos resultados positivos e concretos do trabalho alheio. Vivem parasitariamente, beneficiando-se a si próprios e prejudicando seus “hospedeiros”.

Só por esta resposta é possível perceber que, ao contrário do que você respondeu na segunda questão – “NINGUEM” – , sobre quem é o mais bem-sucedido em sua família, há sim em sua família quem tenha tido êxito. Para admitir isso, basta considerar que o êxito possui diversos graus, não se restringe só ao ganho de quantidades enormes de dinheiro. Ainda que em sua família ninguém tenha conseguido ganhar muito dinheiro, a ponto de poder adquirir bens caríssimos ou contratar serviços igualmente caros (viajar para países estrangeiros, ir a hotéis caros, participar de eventos caros, ser atendido pelos mais diversos e caros especialistas, etc.), uma coisa não se discute: alguém em sua família conseguiu providenciar os meios necessários que lhe permitiram ser quem você é, não só em termos físicos e de aparência, como também intelectuais.  

Essa pessoa pôde providenciar-lhe alimentação  e vestuário adequados, boa escola, a um ponto tal que você hoje é capaz de acessar um serviço que presume refinada cultura. Não é qualquer pessoa que poderia acessar o site da UniverCidade, em seguida escolher a seção de seu interesse e, nela, procurar obter auxílio (sob a forma de idéias) capaz de provocar efeitos positivos e concretos em sua vida presente e futura – pois ter idéia a respeito de que profissão lhe convém é aderir a uma idéia capaz de alterar materialmente sua vida. Para tudo isso fazer é necessário que alguém a tenha cumulado de atenção traduzida não por abraços e beijos mas também pela doação e viabilização desinteressada de bens e serviços necessários ao seu sadio desenvolvimento da personalidade. Sem essas contribuições, não seria muito possível dar-se mutações em sua inteligência que a tornariam capaz de raciocínios abstratos, capacidade o que você manifestamente possui. Caso não possuísse, não iria procurar um meio tão pouco físico como os conselhos de um orientador vocacional; conselho que, aceito, a faria direcionar suas ações e escolhas numa certa direção, para obter resultados que só se mostrariam passados vários anos. E já vimos que a resposta que você deu à primeira questão deixa claro que o desenvolvimento de sua personalidade e inteligência foi sadio e bom. Portanto, há sim quem tenha sido bem-sucedido em sua família – a pessoa que cuidou e educou você.

Para compreender o valor do êxito obtido por quem cuidou de você, providenciando-lhe alimentação, carinho, aconchego, apoio, vestuário, moradia, estudo, etc., é só imaginar o quanto você mesma poderia fazer por alguma criança que estivesse sob sua responsabilidade. Como conseguiria providenciar-lhe bens e serviços capazes de torná-la tão refinada aos 20 anos quanto você o é nesta idade? É tarefa muito difícil, impossível a quem não tenha tido êxito na vida.

Pode dar-se em sua vida que a pessoa que providenciou as condições materiais para você ser quem e como é, tenha sido sua mãe. Vou supor que tenha sido ela e que ela seja “do lar”, já que esta denominação gera na mente de muitos a impressão de que se trata de adulto não qualificado para um trabalho realmente “sério” e profissional. Porque enganosamente  alguns acreditam que ser “do lar” é mais fácil do que ser um psicólogo, um contador, um advogado, etc.

Não coincide com os fatos da vida a crença de que é mais fácil ser “do lar” do que ser um profissional fora de casa. Porque todas as profissões, a psicologia, a contadoria, a advocacia, etc., são instrumentos que o homem criou para aperfeiçoamento do próprio homem, tanto quanto uma mulher “do lar” trabalha pelo aperfeiçoamento dos que tenha sob seus cuidados. É evidente que uma mulher “do lar” (como estou supondo ser o caso de sua mãe) conseguiu, com seu trabalho, fazer surgir alguém como você, sadia, que pensa resolver os problemas materiais da vida trabalhando. Será que se pode supor que os filhos ou clientes dos psicólogos, contadores, advogados, etc., todos eles, desenvolvem personalidade e inteligência igualmente sadias? Caso assim fosse, não seríamos bombardeados todo dia, pelos jornais, com notícias de crimes e escândalos de todo tipo, provocados pelos mais diversos e cultos profissionais ou por seus filhos ou clientes. A verdade é que o êxito e o fracasso se dão em todo tipo de vida, familiar, social, profissional…

Ser “bem-sucedido” significa que a pessoa foi e é capaz de não apenas cuidar bem de si mesma como também dos que estejam  sob sua responsabilidade. É pela quantidade de indivíduos “cuidados” que se mede o tamanho do êxito do profissional, da dona-de-casa e de todo e qualquer ser humano adulto. A escala que mede o valor do trabalho tem como medida a qualidade e quantidade com que contribui para o aperfeiçoamento do homem. De que adianta alguém ter muito dinheiro e, graças a isso, espalhar a desgraça na vida de muitos? No século XX tivemos vários exemplos de ditadores que só fizeram isso.  Só porque todos ficaram ricos, nem por isso se pode dizer que tenham sido modelos de pessoas bem-sucedidas na vida.

É fácil supor que o sujeito que ganhou ou ganha uma quantidade maior de dinheiro que os demais é o mais bem-sucedido. Porque quem possui muito dinheiro consegue desencadear efeitos visíveis e de fácil compreensão mesmo pelas pessoas mais simples e incultas: ele pode mandar construir edifícios, pode criar sofisticados meios de transportes e de comunicação, hipermercados,  utilidades essas que atendem às necessidades cotidianas e de longo prazo de milhares de pessoas. Já não é coisa tão simples e fácil enxergar o êxito dos que simplesmente, de maneira anônima, criaram e educaram alguém que, no futuro, venha a se tornar um grande profissional, ou uma “pessoa do bem”, que viva espalhando o bem na vida de muitos. Trabalhos que geram personalidades e inteligências deste tipo são anônimos, requerem muitos e muitos anos regados pelo amor e compaixão com o próximo,  o que descreve com muita propriedade o trabalho das pessoas “do lar”. Por exemplo, é possível perceber em suas respostas a presença de um espírito ativo, impaciente, ansioso por respostas. Dotada de um espírito assim, digamos que você venha a se destacar e muito na vida social e profissional. Quantos seriam capazes de ver, por trás do seu êxito, o trabalho anônimo e paciente da sua mãe (ou de quem cuidou de você)? A vida dos homens é semelhante às árvores: cada uma só dá os frutos que lhe são próprios.

Colocadas as coisas desta maneira, resta que você observe sua mãe (ou quem cuidou de você) e analise que capacidade ela possui a ponto de conseguir dar-lhe base intelectual e moral tão boas. Digamos que para isso sua mãe vendesse salgados: ou seriam salgados feitos por ela própria ou por terceiros. Se forem feitos por ela, imagine o que ela não faria caso tivesse feito faculdade de, digamos, Nutricionismo? Por certo que conseguiria tornar-se uma respeitada chef de cuisine. Mas o salgados eram produzidos por terceiros. Então sua mãe atuou como intermediária, como comerciante, como administradora, como empresária, etc..Que cultura seria capaz de potencializar profissionalmente sua competência: Comércio Exterior? Administração? Marketing?… Pois ela certamente mostrou-se capaz de “vender o peixe”, tanto que os transformou em dinheiro, com o qual pagou sua alimentação, remédios, roupas, moradia, escola, etc.. O estudo universitário não a modificaria, mas apenas lhe daria instrumentos capazes de amplificar sua força para pensar e agir, permitindo-lhe viabilizar recursos econômicos em muito maior quantidade, os quais alimentariam, vestiriam, educariam outros que não os filhos que tenha posto no mundo. 

Observando portanto sua mãe (ou quem cuidou você), é possível nela notar a presença de uma inteligência diferenciada, caso contrário não conseguiria converter “peixes” em dinheiro. E aí surge a pergunta: como você poderia, a seu próprio modo, imitá-la? Se você responder esta questão, estará definindo qual sua receita de êxito e, em resultado, que profissão combina com você.

Tenha em mente que toda e qualquer pessoa que queira agir concretamente sobre o mundo, no início age imitando alguém. Não há político que não viva tentando imitar alguém, seja  seu modelo um estadista ou um espertalhão, um parasita “bem-sucedido”. É regra que vale para todo ser humano, músicos, vendedores…até para os ladrões.

Portanto, Rita, saiba que você é quem é porque alguém em sua família teve êxito. Observe como esta pessoa trabalhava (e trabalha), que isto a ajudará a perceber novos e úteis dados que lhe permitirão para cada ítem do questionário dar respostas mais detalhadas. Eu teria enorme prazer em analisar suas novas respostas. Pois o que mais faz o gosto é ser útil a quem esteja ou possa estar no caminho de ser pessoa bem-sucedida.

Felicidades.

 

 

A violência em São Paulo

May 24, 2006 by Joel Nunes dos Santos

Nós, os paulistas, estivemos submetidos a um fortíssimo bombardeio psicológico (inúmeros atentados contra policiais, com uma certa preferência pelos que estivessem à paisana; incêndio de ônibus, atentados a bomba contra bancos, rebeliões simultâneas em mais de 70 presídios), empreendido pelo PCC (Primeiro Comando da Capital), facção criminosa filha do carioca Comando Vermelho. O clímax da ação criminosa, iniciada na sexta-feira dia 12, foi nesta segunda feira, dia 15 de maio, quando então São Paulo ficou literalmente paralisada, os funcionários de lojas e outros serviços voltando para casa antes das 16:00h. Isto é, os que conseguiram tomar ônibus, que neste dia pararam de circular. 

O objetivo da articulada e terrorista ação criminosa parecia ser intimidar não apenas a população em geral, mas principalmente os principais ocupantes do poder público, em particular o governador e chefes de polícia, em auxílio das quais veio o governo federal propondo enviar até o exército para combater os criminosos. Proposta rejeitada pelo governador em exercício, Cláudio Lembo, para descontentamento e também satisfação de intelectuais e jornalistas.   

A estratégia do PCC por certo era provocar nos paulistas e principalmente nas autoridades públicas, a arquiconhecida “Síndrome de Estocolmo” (*),  aberração mental que leva o indivíduo a enxergar as coisas pelo seu inverso, em resultado podendo levar tais autoridades a fazerem acordos contrários ao interesse do bem comum.  

Não obstante tal método ter dado no Brasil inúmeras provas de sua eficiência, quando as TVs exibiram seqüestrados (bispos, delegados, filhos de delegados, empresários, filhos de empresários…a lista é enorme…) falando bem dos seqüestradores e mal tanto da força policial que os libertou quanto da sociedade, desta vez parece não ter funcionado, conforme será possível verificar daqui a algum tempo. Pois há evidências que levam a crer que a intenção de fazer com que  as autoridades paulistas celebrassem acordos de paz com bandidos não surtiu efeito, haja vista a ação continuada da forças policiais, que rapidamente reestabeleceram a ordem. Os militares paulistas, mortalmente perseguidos, demonstraram a mesma coragem vista dias antes no episódio de vandalismo de torcida organizada no estádio do Pacaembu, em SP: uma torcida organizada, numerosíssima, insuflou o público a  junto com ela invadir o estádio com o propósito evidente de agredir atletas, árbitros e técnicos. Algumas dezenas de policiais, armados apenas com cassetetes, conteve a turba, desproporcionalmente maior em  número. Deram na ocasião tamanha demonstração de coragem que não houve voz que viesse em defesa dos vândalos. Do mesmo modo, os militares paulistas não se deixaram intimidar pelos criminosos agressores e também por quem por certo os liderou intelectualmente.  

A Síndrome de Estocolmo é um fenômeno terrível, que ultrapassa o âmbito da Psicologia e adentra o da Antropologia. A primeira vez que ocorreu foi às 10:15h do dia 23 de agosto de 1973, terça feira. O "Banco Sveriges" de Estocolmo, Suécia, foi atacado com sub-metralhadoras. "A festa só está começando", anunciou um recém-foragido da prisão, Jan-Erik Olsson, de 32 anos. "A festa", de fato, continou mais umas 131 horas, ou cinco dias e meio, quando Olsson tornou reféns quatro dos empregados do banco, numa sala de 11 por 47 pés de comprimento (=3,35×14,33m), até o fim da tarde do dia 28 de agosto.” Resumidamente, pode dizer-se que o refém fica tão assustado com o que lhe acontece que ele “começa a identificar-se com seus captores, o que no princípio é simples e automático mecanismo de defesa, baseado na (geralmente inconsciente) idéia de que o captor não ferirá o cativo se ele for cooperativo e até mesmo positivamente encorajador. O cativo tenta conseguir o favor do captor por meios quase que infantis.”  O afetado por esta síndrome faz uso então dos meios que tenha à disposição para defender e proteger os criminosos e inculpar os demais, “a sociedade”, as “leis injustas”, etc., em resultado do que a vida dos bandidos vai sendo facilitada e a do cidadão “comum”, que tem endereço fixo e paga imposto, mais difícil.   

Por certo que a cota de vocacionados ao ofício militar, em São Paulo, não é pequeno. Caso fosse, e já estaríamos vendo a principal autoridade pública do Estado de São Paulo aceitando fazer acordos com os bandidos e não persegui-los como é de seu dever mandar fazer. O tempo dirá se tenho razão em crer que os bandidos não tiveram êxito. Pois uma coisa é certa: se a vocação é realmente firme e devidamente cultivada, tal síndrome não se assenhoreia do indivíduo, submetendo sua inteligência e vontade a objetivos infames.  

 (*) O fenômeno foi descrito pela primeira vez pelo padre Rev. Fr. Charles T. Brusca, em cuja descrição me baseei. 

Artigo escrito para ser publicado originalmente no site www.institutomillenium.org/.

A família e a vocação – Lição 2

April 17, 2006 by Joel Nunes dos Santos

A necessidade de carinho, atenção, aconchego, presente no homem, não é exclusiva do homem. Ela está presente também no animal.

O que aprendi a conhecer na prática. Eu costumava ir uma ou duas vezes por mês ao sítio de um amigo, também psicólogo. Havia lá no sítio uma vaca (Fortuna) e dois bezerros (Potoco e um outro cujo nome não me lembro). Fortuna pariu Potoco. Para que este não ficasse sozinho, o amigo comprou o “outro-cujo-nome-não-me-lembro”. Fortuna, porém, só deixava Potoco mamar em suas tetas; o outro, não. Curiosamente (para mim, pelo menos), Potoco foi se tornando um bezerro dócil, amável, que bastava alguém chamá-lo pelo nome que ele atendia. O outro, rejeitado, foi desenvolvendo uma personalidade de maloqueiro; tão logo atingiu tamanho suficiente, passou a dar preferência a trilhas que nem Fortuna, nem Potoco nem nós, seres humanos, costumávamos usar. Eram locais locais perigosos, por serem ribanceiras, estarem próximas à margem do riacho que corria no plano abaixo daquelas trilhas, vegetação cerrada que poderia ser ninho de cobras…Até que aconteceu de ele cair numa ribanceira, quebrar a perna e ter de ser sacrificado. Suas carnes foram doadas a uma instituição local que cuidava de pessoas carentes, pois o amigo disse: “Maloqueiro ou não, era tanto membro da família quanto Fortuna e Potoco. Não poderia comer suas carnes.”

Por isso se diz que quando os pais dão atenção e carinho aos filhos, não são merecedores de elogios; quando nem isso dão, tornam-se merecedores dos mais severos vilipêndios. Pois aí o que se está recusando não é o amor, mas algo de natureza inferior, uma vez que é coisa necessária até aos animais, cuja recusa distorce sua personalidade.

Se os animais, portadores de inteligência limitada, apreendem as intenções que os seus pares têm com relação a eles, quanto mais o ser humano, ainda que bebê. A limitação mesma da inteligência do animal permite, em muitos casos, a reversão dos efeitos de uma infância problemática. Ajuda neste processo o fato de ele ao nascer estar pronto para a vida, num grau tal que o homem, para atingir tal nível de prontidão, precisaria permanecer no útero materno quase que o dobro do tempo em que lá permanece. Mas tais distorções, uma vez ocorridas no homem, em seus inícios, não prometem reversão, mas condicionam os desdobramentos futuros de toda sua personalidade.

Devido a esta não-prontidão biológica do bebê humano, é necessário elevada dose de persistência na atenção e carinho para com ele. E em resultado também dessa não-prontidão, sua resposta global aos estímulos mantém-se como padrão por mais anos do que seria admissível em organismos já plenamente desenvolvidos, como se dá com os animais.

O primeiro impacto da família sobre a vocação se dá, portanto, em virtude da maneira como os pais estabelecem relações presenciais com sua criança. A linguagem no sentido humano do termo, a linguagem articulada, conta pouco. O que conta é a linguagem significada pelo modo de presença, pelas atitudes que os adultos – no caso, os pais – adotam para com a criança. Caso falte o amor, é difícil supor que haja atenção, carinho, aconchego, e demais condutas que atendem a necessidades físicas e psicológicas do homem na sua segunda fase de existência (a primeira é a fase intra-útero).

Para maior clareza a respeito da reação global de toda a personalidade pelo bebê, basta ter em mente que é só na primeira e segunda fase de sua existência que o homem pode, por um só ato da mãe, ser atendido em todas as suas necessidades físicas e psicológicas. Só na primeira e segunda fases de sua existência é possível o atendimento simultâneo de tais necessidas. Com o amadurecimento biológico, calcificação dos ossos, especialização dos sentidos, etc., o atendimento de tais necessidades só pode dar-se sucessivamente, quer dizer, ou se aconchega a criança, ou a alimenta, as duas coisas não podendo ser feitas de uma só vez. Vejamos como se dá isso.

Quando a mãe amamenta o bebê, atende necessidades que vão da ordem física até a ordem psicológica. Discriminando o que é atendido:

- a necessidade que tem o organismo de ter sua temperatura aumentada ou preservada, o que resulta do contato do corpo da mãe com o do bebê no ato de amamentar. (Tenha-se em mente que temperatura é objeto de estudo da Física); – a necessidade de absorção, pelo organismo, de nutrientes (cujo estudo são objetos de estudo da Química e da Biologia);

- a necessidade de proteção contra os diversos e incompreensíveis estímulos exteriores à consciência (o que é objeto da Psicologia). Aqui incluem-se também a ritmação do pulso cardíaco do bebê, o que os batimentos cardíacos da mãe proporcionam, bem como seus cantos e palavras ternas e carinhosas. E outras particularidades que possam ser aqui arroladas.

Como o homem é a criatura capaz de privilegiar o bem do outro em detrimento de si mesmo – capacidade cujo nome é amor – a intenção de acolhimento do filho permanece real muito além de qualquer limite físico. No caso dos animais, do cão por exemplo, o instinto de cuidar da mãe permanece enquanto estão presentes em sua corrente sangüínea certos hormônios que condicionam seu attachment. O esvaimento desses hormônios coincidem com a maturação muscular da cria, quando então ela passa a ser vista como concorrente. Que a partir deste momento a cria não tente comer a comida da sua mãe!… No homem, este attachment prossegue para além da vida física, para além da morte, na verdade.

Portanto, a presença, amorosa ou não dos pais, condiciona o desenvolvimento adequado ou desviado da vocação de seu filho, já que a vocação possui como um de seus componentes fundamentais a herança psicogenética e sua especialização durante os longos anos em que a linguagem verdadeiramente articulada está ausente da inteligência do homem.

A família e a vocação – Lição 1

March 30, 2006 by Joel Nunes dos Santos

Maria Sonia escreveu-me:

"Sr. Joel, gostaria de sugerir que V.Sa. discorra, a miúde, sobre as influências, negativas ou positivas, que os pais possam ter sobre a educação dos filhos. E o que isso pode acarretar para a vida adulta destes filhos. Outrossim, como o exemplo dos pais pode ou não influênciar no desenvolvimento vocacional dos filhos."

Para atender a tão pertinente sugestão, passarei a escrever alguns artigos que aclarem meu pensamento a respeito da relação entre a família e a vocação pessoal do indivíduo.

Para tanto, pareceu-me adequado imitar a forma de textos que li na época da faculdade e que tanto me ajudaram na compreensão de muitas das questões que irão surgindo nos artigos que irão se sucedendo. Vou chamar cada artigo de “Lição”. Pelo número da lição, será possível fazer idéia do quanto já caminhei neste assunto.

Lição 1 – a questão da “reação global da personalidade”

Para uma adequada compreensão do que virá a seguir, um conceito deve ser assimilado de maneira clara e firme: o conceito de “reação global de toda a personalidade”. Por “global” quero dizer algo assim como “corpo e alma juntos”, já que a personalidade é composta de elementos físicos e não físicos, isto é, assimiláveis pelo que no homem há de corpóreo e incorpóreo. De modo que quero significar que “reação global de toda a personalidade” é a resposta (ou envolvimento) do sujeito inteiro (e não apenas uma parte sua) com o estímulo que o afeta (ou com a situação momentânea na qual se encontre).

A reação global de toda a personalidade ocorre quando a situação provoca no indivíduo a unificação do sentimento, da vontade e da inteligência. Esta unificação dá-se em várias situações, com destaque para as de amor e de medo extremo. Apenas para clareza do conceito, vou ilustrar recorrendo primeiro a uma situação de medo.

Há algum tempo (uns dois anos, talvez) um rapaz de São Paulo foi morto em uma entrada de favela no RJ. Ele foi ao RJ de carro para assistir a um jogo no Maracanã. Ao sair de lá, não conhecendo muito bem a cidade, entrou numa rua que conduzia a uma favela. Tão logo entrou lá, foi alvejado por balas, vindo a falecer.

Suponha que você, leitor, esteja num local parecido com aquele onde o rapaz foi morto. É noite e você está perdido, sem saber que direção tomar. Vê um ou outro morador do local olhando para você e sabe que se parar o carro e descer para obter alguma informação de como sair dali, caso a obtenha, sabe que ela não é confiável. Três coisas se passam no seu íntimo: sente que a situação em que está diz respeito exclusivamente a você; a fortíssima vontade de sair de lá o mais rápido possível; entende que está em perigo mortal. Portanto, nesta situação, dá-se a vivência da unidade composta de sentimento, vontade e entendimento.
Unificação parecida desses três aspectos da alma ocorre na vivência de amor, quando você se liga afetivamente a alguém que passa a ocupar o centro de seus interesses, ofuscando tudo o mais. Você então sente que tal pessoa é o objeto preferencial de sua atenção, ou seja, que ela é importantíssima para você; quer que ela o aceite; pensa o tempo todo em como fazer para ser correspondido em seu amor.

A dificuldade que nós adultos experimentamos em dar uma “resposta global” a algum estímulo resulta do fato de já terem-se realizado diferenciações em nossa inteligência. Adultos, somos capazes separar os vários componentes de uma mesma vivência e nos atermos a um ou outro deles. A criança, ao contrário, não é ainda capaz de operação mental deste tipo, por não ter ainda vivenciado os momentos em que vão se dando as diferenciações (ou mutações) em sua inteligência. Por isso, quanto mais novo o indivíduo, mais global é sua reação a estímulos. A reação de um bebê aos estímulos é global, enquanto a de um adulto, não. A globalidade da reação diminui na medida em que vão se dando as progressivas diferenciações na inteligência, processo que se conclui na idade adulta.

Quando um bebê sente fome, ele se sente globalmente ameaçado, tanto quanto você ou eu sentiriamos perdidos nas ruas de alguma favela do RJ, notória pela presença de bandidos. O mesmo quando ele sente sede ou algum tipo qualquer de desconforto. Para ele, não existe diferença entre fome, sede, sono, fralda molhada, agulha na fralda — para ele, é tudo muito ameaçador. Cada uma dessas situações provoca-lhe a impressão de que sua vida está ameaçada. Daí que quanto mais se retarde atender a um bebê quando ele chora, pior para seu desenvolvimento. O impacto do não atendimento imediato diminui com o aumento de sua idade, do que falarei quando estiver de acordo com a natureza do artigo.

No ser humano adulto ocorrência de uma tal unificação não é a norma, mas coisa episódica. Basta comparar: lembre-se de uma intensa alegria que sentiu quando era criança quando, pelo Natal, ganhou um presente que coincidia com o que você desejava maximamente? Que coisa, pessoa ou situação, hoje em dia, seria capaz de provocar-lhe alegria tão global quanto aquela que sentiu naquele Natal? Difícil responder, não é mesmo?

Isto é assim porque, durante o processo de crescimento, paralelamente ao desenvolvimento corporal (calcificação dos ossos, em princípio mais frágeis e cartilaginosos; fortalecimento muscular; aumento das dimensões do corpo, etc.), vão ocorrendo mutações na inteligência. Primeiro, dá-se a especialização dos sentidos exteriores, como a vista e audição, que vão permitindo o reconhecimento personalizado da figura materna, depois a paterna e em seguida dos demais componentes do círculo familiar; em seguida, anos após, a distinção entre o que é “eu” e o que não é “eu”; posteriormente, dá-se o desenvolvimento do raciocínio baseado na própria estrutura corpórea do sujeito (“operatório concreto”, na linguagem de Piaget) e, de mutação em mutação, atinge-se a capacidade para raciocínios totalmente abstratos, para os quais a matemática educa maximamente.

Quanto maior seja o número de ocorrências de diferenciação da inteligência, menos global vai se tornando a reação a estímulos. Portanto, da vida intra-uterina ao estágio de bebê, deste à condição de criança, desta à de púbere, deste à de adolescente, deste à de adulto, a globalidade da reação da personalidade vai diminuindo. Pois sendo "abstrair" o mesmo que "separar", da infância à idade adulta dá-se o aumento da capacidade para "separar o que interessa" da experiência sem responder a ela de maneira física e mentalmente unificada. Como dizia um antigo colega, um dos primeiros alunos de sua turma de Odontologia, que pegou sua namorada com outro: "Ruim no amor, bom nos estudos".

Compreensível portanto que quanto menos hostil for a conduta com a criança, melhor será para o seu desenvolvimento cognitivo, psicológico e psico-social. Inversamente, quanto mais hostil for a relação que se estabeleça com ela, mais prejudicado estará o desenvolvimento de sua personalidade. E claro também que a comunicação com o indivíduo, quanto mais novo ele seja, dá-se mais por uma questão de presença e do que de discurso. Tanto que não há mal, em termos absolutos, que se usem palavras inadequadas para se dirigir à criança, desde que a atitude seja amorosa. Como uma orientanda, mãe de um único filho, a quem chamava "meu porquinho". Claro que sugeri que ela escolhesse outra substantivo para nomeá-lo em público, caso contrário ele teria desnecessários problemas quando entrasse na fase escolar.

Deve-se ter em mente que a amabilidade ou hostilidade na relação e tratamento com a criança não impedem o desenvolvimento de sua inteligência, esta entendida como a simples capacidade de criar silogismos, de “pensar logicamente”. O que a hostilidade provoca é a emergência, na alma da criança, do desejo por alguma forma de mal. Numa linguagem técnica, pode-se dizer que a falta de atenção amorosa à criança faz com que aquelas, mais dotadas para o pensamento lógico, tenham como fins de suas intenções não o bem do próximo, mas o seu mal. Por isso há indivíduos que, não obstante terem sido agraciados por boas condições sociais, boa educação, etc., enveredam pelo caminho do mal. Sua inteligência (causa eficiente de suas ações) não atua em vista do bem (causa final), mas por causa de algum tipo de ressentimento e desejo de vingança.

Por isso, é sempre melhor, para o indivíduo e para a sociedade em torno, que ele, desde criança, esteja sendo cuidado por quem seja mais amorosamente atencioso com ele, quer se trate do pai ou da mãe.

A vocação e o equilíbrio psicológico

February 19, 2006 by Joel Nunes dos Santos

(Artigo publicado no Consultório Vocacional da UniverCidade – www.UniverCidade.edu/pop)

Cada pessoa possui facilidade para desenvolver e aprimorar uma força interior que lhe permite manter-se dona de si nas situações desafiantes. Tais forças têm sido ao longo da história conhecidas pelo termo "virtude", uma vez que a raiz virtù desta palavra significa "força".

Os desafios podem dirigir-se à parte irracional à parte racional da pessoa. As virtudes que permitem a vitória nos desafios à parte instintual são a fortaleza e a temperança; à parte racional, prudência e justiça.

Fortaleza é a capacidade para ter coragem quando o desafio põe em risco a vida. O indivíduo, nessas horas, deve ser capaz de atacar o que pode destruí-lo. Quando lhe falta tal virtude, ele simples corre, dá no pé, age de maneira covarde. Temperança é a capacidade para o sujeito não se corromper devido ao interesse por comida, bebida ou sexo. O dinheiro é o meio capaz de viabilizar tais coisas. Por isso os jornalistas e analistas políticos denominaram, com grande sabedoria, aos políticos que demonstram tal tipo de fraqueza de "fisiológicos". Prudência é a capacidade para saber quando agir ou deixar de agir, quando "ir para cima ou afinar". Justiça , o equilíbrio no trato com as coisas alheias, a capacidade para não ficar com o que pertence ao outro e também para dar ao outro o que ao outro pertence.

A vitória sobre os desafios à parte irracional depende da aquisição de certos hábitos ou costumes, os quais resultam da educação que a criança recebe na família e, em prosseguimento, na escola. Em latim, "costume" é denominado mores, daí o nome moral, a qual resulta portanto da educação adequada da parte irracional e afetiva de sua personalidade. Recentemente, sob o nome de inteligência emocional, o psicólogo Daniel Goleman tornou conhecidas as vantagens pessoais, sociais e profissionais da educação desta parte da personalidade. Quando um controle similar deve incidir sobre princípios coletivos e sócio culturais, conservou-se a designação baseada no termo grego ethos, de onde temos "ética". Daí ética significar o respeito por cada pessoa de regras a serem respeitadas por todos. Como para tanto é preciso perceber o mundo à volta como dado objetivo, a parte da personalidade envolvida tem necessariamente de ser a racional.

É papel da educação auxiliar cada indivíduo na aquisição de tais forças interiores ou virtudes.

A vocação, dentre outras coisas, dota a pessoa de facilidade para o desenvolvimento de uma ou várias dessas forças. Assim, há jovens que prometem ser bons administradores porque neles se nota a força do senso de justiça, a capacidade para atribuir a cada um o que lhe pertence, por isso manifestam aptidão para negociar sem que o ceder lhes pareça derrota ou ofensa pessoal e o avançar lhes soe como desejo de humilhar o concorrente. Outros prometem ser bons psicólogos, conselheiros, médicos, etc., já que são inclinados ao controle dos próprios instintos; outros, podem ser pessoas empreendedoras, vendedores, etc., já que não lhes falta coragem nas situações em que a média titubeia; outros, são excelentes pais porque sabem a ora de se impor ou deixar a coisa andar. E assim por diante, em conformidade com a multivariada dotação pessoal das pessoas.

Quanto mais a pessoa, se possível desde jovem, se proponha a tarefas compatíveis com a força (ou virtude) que possui ou que tenha facilidade para adquirir, mais psicologicamente equilibrado viverá sua vida. Menos chances terá de ser no futuro um carreirista fisiológico, um mau médico, um mau administrador, um irresponsável e covarde executivo, em suma, um mau profissional. Em razão do que vale a pena investir desde muito cedo numa boa educação, pois é daí que resultam pessoas psicologicamente equilibradas e profissionais competentes.

A Vocação e o Bonsai

February 7, 2006 by Joel Nunes dos Santos

Algo que sempre me chamou a atenção, ao longo de mais de três décadas de convívio com japoneses, é seu carinho e paciência para cuidar de árvores e plantas. A criação de bonsai é, dentre as diversas artes japonesas, a que mais me impressionou. Ele resulta do corte criterioso da raiz da árvore.

Não sei dizer se a expressão “criação de bonsai” está correta. De qualquer maneira, digo do que se trata: é o cultivo de árvores pequenas, com uns setenta ou oitenta centímetros de altura, exuberantes, que provocam a impressão de serem imensas em virtude da majestade que exibem. Há arvorezinhas com trinta, quarenta e até mais anos. Só mesmo a combinação de uma grande quantidade de carinho, paciência e delicadeza de espírito para gerar arte assim.
O artista, o cultivador (ou criador) de bonsai, tem de conseguir captar o estilo, a singularidade da árvore, para fazer manifestar-se a beleza que só aquela árvore pode manifestar. Não há duas iguais e todas são singularmente bonitas e majestosas.

A dificuldade da tarefa é imensa, já que vegetal não fala, mas apenas está lá; não dá nenhuma informação ativa nem sobre si nem sobre nada do meio. O que a árvore é e o que lhe convém tem de ser captado ou deduzido pelo artista que dela cuida.

A comparação do bonsai com a pessoa humana é coisa praticamente imediata. Pois dá para substituir por pessoa a palavra árvore da frase acima: “…captar o estilo, a singularidade da pessoa, para fazer manifestar-se a beleza que só aquela pessoa pode manifestar. Não há duas iguais e todas são singularmente bonitas e majestosas.”

O bonsai é a árvore exibindo seu grau máximo de beleza, exuberância e majestade, dentro dos pequenos limites que são os seus sessenta ou oitenta centímetros de comprimento. Mas não é também isto que uma criança é? Ou mesmo um adolescente, ou adulto? Quando dizemos que “Fulano é um gigante” não é porque ele meça três, cinco, ou dez metros de altura, mas porque ele manifesta um certo máximo que ele poderia ser – ele manifesta o resultado do fornecimento à sua vocação do aporte cultural adequado, aporte este efetivado sob a forma de carinho e atenção e apoio familiares, adequada instrução escolar e justa recompensa sob a forma de adequada remuneração de seu empenho profissional.

Não dizemos “gigante” ao nos referirmos ao espirituoso ascensorista, ao simpático garçom, ao educado gari, à encantadora e alegre criança, à zelosa vovozinha e a toda miríade de encantos vivos que são cada pessoa de boa vontade que encontramos pelo caminho? Não há termo específico para a elas nos referirmos. Mas indiscutivelmente sentimos em nossa alma atração e encantamento por essas pessoas, do mesmo modo que os “gigantes” pela ciência, arte e demais coisas que alguns vocacionados exibem atraem até eles o apreço das multidões e gerações que se sucedem no tempo. Na presença daqueles outros “gigantes”, em nosso espírito logo surge a idéia de que “se não fosse gari, seria um excelente profissional liberal; quando crescer, continuando assim, será um grande artista; se vovozinha fosse mais jovem e quisesse seguir alguma carreira profissional, seria a melhor mestre de cerimônia do mundo…”, e assim com cada caso.

Nenhum desses valores e virtudes se afirma espontaneamente, sem algum cuidado inteligente, verdade que vale para as arvorezinhas, os bonsai, e também para o ser humano. Pois, de certa maneira, pode-se dizer que o criador de bonsai amplifica a vocação da árvore à beleza que lhe é própria; do mesmo modo que as pessoas e instituições encarregadas da educação do homem amplificam as vocações de cada um, todas diferentes umas das outras, porém, belas, majestosas, encantadoras.

Não há bonsai sem corte de raízes da arvorezinha; não há artista, filósofo ou cientista sem cuidado educacional, sem o “corte das raízes” puramente instintivas do ser humano que, deixadas à própria sorte, aderem ao mal e ao ruim e, com o tempo, banalizam o ser humano.

Vocação e liberdade

September 26, 2005 by Joel Nunes dos Santos

Ser livre é poder agir por deliberação própria. E aquele que age por deliberação própria exibe, no instante da ação, a unidade de gostar, querer e saber; age de maneira vocacionada.O contexto dentro do qual vivo pode ajudar ou impedir meu exercício da liberdade. Quanto mais o contexto permita o desenvolvimento integral da personalidade, melhor para todos; quanto menos, pior para a maioria.

A ação humana dá-se dentro de um contexto que é ao mesmo tempo natural e social. O aspecto natural diz respeito ao que existe independentemente do homem; o social, ao que existe a partir do homem, quer sejam invisíveis — como a linguagem e as leis escritas e não escritas –, quer visíveis como os diversos instrumentos tecnológicos que o homem cria e desenvolve.

Embora a vocação em si mesma possua valor, é preciso que o meio social também a valorize. Se isso não acontecer, aquele que é dotado daquela vocação precisa abdicar dela e optar por atividades que atendam às necessidades da vida. Vocação não é o mesmo que profissão. E se uma determinada vocação não encontra meios para tornar-se profissão, o interesse por ela definha.

Vocação não é só gostar e ter facilidade para aprender a respeito de algo de que gosto; é também vontade de querer aprender a respeito daquilo. E quem vai querer ficar fazendo algo inútil? Se o produto da vocação não desperta interesse no meio social em que se manifesta, a ponto de permitir o provimento da subsistência, o vocacionado, na maioria das vezes, se desinteressará por ela.

Em regimes autoritários, o problema é grave, pois as decisões do que deva ser produzido e comercializado é feito por um número pequeno de agentes. As vocações que não forem compatíveis com o que por estes for determinado, não interessam.

Por isso também nesses regimes se manifestam com força e abrangência social personalidades profundamente deformadas. Por exemplo, para o exercício de certas profissões, é necessário ao profissional que naturalmente consiga estabelecer distância psicológica do cliente – o cirurgião em relação ao que opera, o dentista em relação àquele de que trata, o juiz em relação ao que julga etc. Contudo, uma hipertrofia desta capacidade conduz à indiferença para com o outro; o outro deixa de ser pessoa e é visto e sentido como se fosse uma mera coisa, um objeto auto-movente porém sem alma, despojado de dignidade humana. Foi o que ocorreu no nazismo e no comunismo.

Não é por acaso que em regimes assim diminui barbaramente o interesse pelas vocações que valorizam a interiorização e a individualidade humana.

Ao contrário destes regimes, há outros nos quais a liberdade para as trocas é a máxima possível. Nestes ambientes, há uma fecunda florescência de vocações, já que a maioria delas encontra receptividade para os produtos finais que geram.

A verdadeira liberdade portanto não se confunde com a idéia de se poder fazer tudo que se queira, já que algo assim é impossível.

Florescência fecunda de vocações, desenvolvimento integral da personalidade, liberdade para trocas, são elementos mais do que combinantes; são realidades necessárias ao verdadeiro bem do homem.

Os vencidos da vida

September 23, 2005 by Joel Nunes dos Santos

Uma das difíceis questões, que está na raiz de muitos mal-entendidos, é saber o que é ser vencedor ou derrotado na vida.Uns acreditam que ser vencedor na vida é possuir muito dinheiro; outros, ter vida tranqüila ainda que sem muito dinheiro; ainda outros, ter firmes e sólidas amizades com as quais seja possível compartilhar reflexões a respeito da vida e do que a ultrapassa. Com ênfase maior ou menor numa dessas posições, distribuem-se as demais opiniões.

Esta questão não é nova e leva sempre à afirmativa de que a realizaçãona vida dá-se quando se respeitam tanto o indivíduo, quanto seu acesso aos bens e serviços que garantam sua existência material. Ou seja, a realização na vida nem é dependente, nem alheia ao dinheiro; não está sob a dependência exclusiva das preferências subjetivas da pessoa, mas também não pode excluí-las. Uma vida realizada é a combinação de todas essas coisas, já que o ser e o ter só se separam na mente e não na realidade concreta do homem.

Se há alguém que muito bem tratou desta questão e a ela forneceu resposta típica de sábio, foi Eça de Queiroz, escritor português nascido em 1845. Ele e 10 amigos fundaram em Coimbra, Portugal, no dia 26 de março de 1889, a sociedade “Os Vencidos da Vida”, sujeitos que segundo Eça “…oferecem o mais alto exemplo moral e social de que se pode orgulhar este país. 11 sujeitos que há mais de um ano formam um grupo, sem nunca terem partido a cara uns dos outros; sem se dividirem em pequenos grupos de direita e esquerda; sem terem durante todo este tempo nomeado entre si um presidente e um secretário perpétuo; sem se haverem dotado com uma denominação oficial de Reais vencidos da vida ou Vencidos da vida real ou nacional; sem arranjar estatutos aprovados no Governo Civil; sem emitirem ações; sem possuírem hino nem bandeira bordada por um grupo de senhoras “tão anônimas quanto dedicadas”; sem iluminarem no primeiro de Dezembro; sem serem elogiados no Diário de Notícias – estes homens constituem uma tal maravilha social que certamente para o futuro, na ordem das coisas morais, se falará dos onze do Braganza [hotel no qual o grupo costumava reunir-se], como na ordem das coisas heróicas se fala dos doze de Inglaterra.”

A finalidade deste grupo era, “…destapar a terrina da sopa e trocar algumas considerações amargas sobre o Colares.”

Eça prossegue:

“De resto, o sussurro atônito que de cada vez levantam estas refeições periódicas não é obra sua – mas da sociedade que, com tanto interesse, os espreita. Eles comem – a sociedade, estupefacta, murmura. O que é, portanto, estranho, não é o grupo dos Vencidos – o que é estranho, é uma sociedade de tal modo constituída que, no seu seio, assume as proporções dum escândalo histórico, o delírio de 11 sujeitos que uma vez por semana se alimentam.”O fim declarado dessa sociedade era um: tomar sopas e criticar governo e governos e o que mais vier à baila. Seu fim verdadeiro era outro: dar exemplo moral às gerações futuras. E tal sociedade causou escândalo — escândalo do mesmo tipo do que despertaria alguém que, reunindo empresários e intelectuais de peso para discutir soluções necessárias e adequadas para todo o país, alegasse estar fazendo isso sem pretender benefícios políticos, econômicos, sociais mas apenas contribuir para a melhoria de nosso mundo para as gerações futuras.

Quem, pois, são os vencedores ou vencidos da vida?

Em resposta à crítica de Pinheiro Chagas, jornalista e escritor, à designação de “Vencidos” no nome da sociedade, já que se tratavam de figuras eminentes da sociedade da época, Eça de Queiroz escreveu um artigo que se tornaria uma das obras primas da literatura portuguesa, ao qual deu o título de “Os vencidos da vida”. Nele consta a resposta clara a tão instigante questão.

Escreveu:“O que de resto parece irritar o nosso caro Correio da Manhã, é que se chamem Vencidos àqueles que, para todos os efeitos públicos, parecem ser realmente vencedores. Mas que o querido órgão, nosso colega, reflita que, para um homem, o ser vencido ou derrotado na vida depende, não da realidade aparente a que chegou – mas do ideal íntimo a que aspirava. Se um sujeito largou pela existência fora com o ideal supremo de ser oficial de cabeleireiro, este benemérito é um vencedor, um grande vencedor, desde que consegue ter nas mãos uma fagorina e a tesoura para tosquear, embora atravesse pelo Chiado cabisbaixo e de botas cambadas. Por outro lado, se um sujeito, aí pelos vinte anos, quando se escolhe uma carreira, decidiu ser um milionário, um poeta sublime, um general invencível, um dominador de homens (ou de mulheres, segundo as circunstâncias), e se, apesar de todos os esforços e empurrões para diante, fica a meio caminho do milhão, do poema ou do penacho – ele é para todos os efeitos um vencido, um morto da vida, embora se pavoneie por essa Baixa amortalhado numa sobrecasaca do Poole e conservando no chapéu o lustre da resignação.” [O grifo é meu].

Que o leitor faça a experiência: julgue a própria vida à luz deste critério de vitória na vida. Em resposta, verá diante dos próprios olhos os motivos que levam a gostarem de você os que sinceramente gostam. Perceberá quão forte foi o chamamento de sua vocação e o quanto o atendeu ou não. Perceberá que a medida de sua realização é a medida do quanto realizou, no prosseguimento de sua vida, o que sua vocação o convidava a fazê-lo e hoje lhe constitui motivo de alegria ou de tristeza, conforme tenha organizado sua vida em torno dela ou não.